Go to ...

on YouTubeRSS Feed

23/06/2018

Os homens bons podem ser bons e fazer o bem


[Artigo indicado para o público em geral]

Hélio Schwartsman alerta-nos sobre os “militantes do bem” (Folha, 02/02/2018). Ele diz que estão aumentando. Estão mesmo, e de fato isso já está registrado na sociologia de Gilles Lipovetsky e nos incentivos da filosofia de Peter Sloterdijk. Hélio gosta deles, mas acredita que podem facilmente ficar tentados a impor suas visões de mundo sobre outros. A observação de Hélio lembra Cioran, mas aqui, todo cuidado é pouco.

Cioran se insurge contra gente como São Paulo. Acha que gente assim, com esse tipo de cristianismo militante, traz mais sangue derramado do que Nero e sua festa de leões comendo cristãos no Coliseu. Cioran não está falando do bem, mas antes de tudo do fanatismo. Para ele, a origem do fanático está no fato do homem não conseguir não querer ser o centro provocador de ações. É como se o homem, se deslocando acima da natureza, quisesse não só comandá-la, mas irradiar causas que superassem qualquer dos centros causais desta sua … Mãe.

Tudo isso, de todos que citei, nada tem a ver com uma outra tese, esta sim completamente tosca, que aparece na boca do Simplório. Nesse caso, a ideia é a de que TODOS os “militantes do bem” são, por definição, gente que quer fazer o mal. Gente que se esconde por debaixo da militância. É uma tese tola, pois transforma o golpe do lobo vestido em cordeiro em alguma coisa sensacional, que só ele percebeu, e que é a chave do mundo – tudo funcionaria assim. Então, o simplório acaba acreditando na própria mentira tola e, a partir disso, não raro defende teses até fascistas, afinal, para a tese dele, o anti-fascismo é fingido.

Penso que o que o Hélio escreveu é, antes de tudo, não uma denúncia contra um possível caráter autoritário que pode surgir no “militante do bem”, nem que existe um caráter autoritário inerente ao ser humano. Acho que um dos alvo principais do Hélio é, antes de tudo, o próprio tipo-Simplório, aquele cara que tem medo de que o Outro pense diferente e, então, vendo que realmente há quem pense diferente dele, já o criminaliza antes do tempo. Sim, pois o Simplório criminaliza todo e qualquer “militante do bem” antes que este militante faça o bem… ou o mal! É este tipo-Simplório que me parece ser o perigo visto por Hélio, ou seja, o indivíduo que define que o Outro é um problema. Aquele que acha, de modo meio que inconsciente, que o “inferno são os Outros”. Gente do tipo-Simplório pode até se achar próxima de Cioran, mas não é – entendeu Cioran errado e leu Nietzsche como um touro na privada. A ideia de que toda ovelha é um lobo disfarçado já é ruim, pois impossível, e fica pior quando a conclusão é que, para se safar disso, o melhor é defender lobos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Tags: , , , , ,

10 Responses “Os homens bons podem ser bons e fazer o bem”

  1. Silvia
    20/02/2018 at 16:34

    Olá Professor! Fugindo um pouco do assunto eu queria um conselho seu. Para quem é leigo e está fora do âmbito da filosofia universitária você recomendaria ler Hegel ou ele é um autor muito técnico para quem não possui uma bagagem ou professores para auxiliar? Se sim, ele pode ser lido a qualquer hora ou só no final de uma lista de autores, como Descartes, Leibniz, Kant?

    • 20/02/2018 at 17:02

      Silvia, é bom começar sempre com Platão, mas não sem um filósofo ao lado para conversar.

    • Silvia
      21/02/2018 at 14:40

      Mas para quem não está no âmbito universitário ou do curso de filosofia isso fica difícil. Eu teria que procurar um professor escolar de filosofia para me auxiliar nas leituras?

    • 21/02/2018 at 16:19

      Eu estou aqui!

    • Matheus
      22/02/2018 at 12:15

      Filósofo, eu? Nunca

      Mas já li alguma obras de Platão. Acho que um grupo (ainda que amador) de leitura filosófica é interessante! Mas tem que começar pelo básico msm!! Estamos aí!

      Um dia quem sabe a gnt chega num autor mais difícil

    • Silvia
      23/02/2018 at 14:51

      Então, aproveitando a deixa, quais os livros de Platão que são essenciais a leitura? Dele eu só conheço a República e o Banquete :/

  2. Ariel Lázaro
    02/02/2018 at 13:46

    Tudo isso, de todos que citei, nada tem a ver com uma outra tese, esta sim completamente tosca, que aparece na boca do Simplório. “Nesse caso, a ideia é a de que TODOS os “militantes do bem” são, por definição, gente que quer fazer o mal. Gente que se esconde por debaixo da militância. É uma tese tola, pois transforma o golpe do lobo vestido em cordeiro em alguma coisa sensacional, que só ele percebeu, e que é a chave do mundo – tudo funcionaria assim. Então, o simplório acaba acreditando na própria mentira tola e, a partir disso, não raro defende teses até fascistas, afinal, para a tese dele, o anti-fascismo é fingido.” Resumiu o Pondé

    • 02/02/2018 at 15:58

      Ariel, o Pondé é o que é visto, dado que tem uma fala meio mole, uma coisa que fica entre o traveco de barba e o drag pobre, então, como é um caricatura, aparece mais. Mas há muita gente pensando assim agora.

  3. LMC
    02/02/2018 at 11:52

    O Hélio na última terça,escreveu
    que não acha que a cadeia seja
    o lugar pra Lula e Maluf.Puta merda…

    • 02/02/2018 at 12:05

      LMC leia de novo o artigo dele dez vezes, no mínimo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *