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17/08/2017

Os gays em ritmo de burguesia


“O comunismo foi uma fase do consumismo”. Sloterdijk diz essa frase e acerta em cheio. É uma verdade que ficou nublada durante bom tempo, justamente porque tínhamos na cabeça uma filosofia da história messiânica, judaico-cristã, chamada marxismo. A história nos levaria ao socialismo, à sociedade do proletariado e, depois, ao comunismo, a sociedade sem classes. Essa filosofia da história não está mais nas cabeças contemporâneas. A maior parte dos filósofos e outros pensadores vê hoje o capitalismo como algo maior que um simples “modo de produção” e como estando dando passos iniciais, não finais, se é que se pode falar em final numa época de desprestígio das filosofias da história.

Não à toa, pensadores que falam do consumo – e para tal voltam à Marx, com razão – se preocupam hoje em tomá-lo como um elemento menos contingente que no passado. Uma sociedade de consumo de massa é antes de tudo uma sociedade de consumo, e foi esta sociedade gerada pela mercadorização imposta às relações que nos deu esse mundo de “fim da história”. Nesse mundo a suavidade liberal, vista agora, é então tomada como uma regra inexorável. Ser racional no liberalismo não é ser somente adepto do logos, da razão enquanto cálculo, mas da razão enquanto razoabilidade. Rorty nos ensinou bem isso. Sejamos todos razoáveis é, então, estender o desejo de Locke para todos os lados, direções e dimensões. Sejamos pessoas capazes de ver os outros não como inimigos, mas como concorrentes no mercado mundial. Sejamos capazes de ser tolerantes para que nossos  negócios prosperem. Foi assim que o capitalismo civilizou relações – a velha noção da “missão civilizadora do capital”, de Marx.

A burguesia assim ensinou ao mundo: sai a intolerância religiosa e entra de novo o cristianismo senão com o perdão, ao menos com a boa vontade. Entra o poder democrático do dinheiro. Que todos sejam iguais perante a lei ou,  melhor dizendo, perante o mercado. E que todos, todos mesmo, possam consumir segundo alguma de suas posses e segundo todas as suas necessidades, engendradas pelas empresas e sua agência de marketing. Foi essa força que tornou o mundo o que é hoje. A burguesia mostrou para a ordem aristocrata, pelas armas de Napoleão e, depois, pela própria bondade do mercado e pela sedução do consumo, que podia transformar o mundo num lugar com bolhas enormes de paz. A paz comercial que permite que não se pense em bombas atômicas, mas apenas em guerras setoriais que favoreçam também o consumo – uma guerra é uma fonte de vendas, e não só de armas.

Esse projeto burguês tem a cada dia novas fases e novos atores. São Paulo vive um fio de cabelo desse grande projeto de tolerância criado pelo dinheiro. Trata-se da Parada LGBT (ex-parada do Orgulho Gay). Passado um tempo, todos paulistanos envolvidos na economia ativa da cidade, se deram conta que não podiam mais viver sem o evento, e então e só então, os preconceitos começaram de fato a ganhar arranhões. Claro que membros dessa comunidade minoritária vão dizer que a violência come solta no Brasil, e que não há tolerância nenhuma. Mas, do ponto de vista histórico, essas pessoas só podem estar buscando assinaturas para que a homofobia seja crime exatamente porque a Parada se tornou um evento comercial. O dinheiro encarna bons sentimentos e os viabiliza. Alguns diriam: Deus faz o certo por linhas tortas. Outros objetariam: Deus trabalha com a ajuda do Diabo. O próprio Diabo diria: o dinheiro trabalha submetendo até Deus à bondade. Pois é muito bom que as minorias possam viver tranquilas.

Melhor ainda será quando nos dermos conta que a preferência sexual e amorosa não importa, e que então a parada LGBT tenha se transmutado em um evento folclórico ou religioso ou em um feriado nacional, talvez algo como é o Dia do Trabalho hoje. Mas que, claro, mantenha a ideia de consumo. Ah, eis uma ideia: um segundo Dia dos Namorados. Assim será no futuro. Pois, afinal, gay (& Cia) é algo que vai se extinguir junto com hétero. A juventude atual diz gostar de pessoas, não mais de homem ou mulher. Assim será. Quer os reacionários queiram ou não. Quer Putin grite ou não.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 17/06/2017

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7 Responses “Os gays em ritmo de burguesia”

  1. Eduardo Rocha
    28/06/2017 at 01:26

    Paulo, posso estar enganado. Sloterdijk no Esferas I menciona algo do tipo de uma teoria da comunicação ou teoria da mídia onde cita discotecas ou algo do tipo? Uma conexão psico-acústica direta em sonosferas simbióticas?

    • 29/06/2017 at 09:56

      Antes de tudo, nosso meio sonoro é o nosso primeiro meio. Toda teoria de Sloterdijk é teoria da midia, dos meios, pois os polos sujeito e objeto não são prioritários, o meio é. É uma teoria relacional (e nisso, parecida com a de Rorty). Explico isso no meu livro.

  2. josé fernando da silva
    18/06/2017 at 11:56

    “Marcha para Jesus”, “Parada LGBT” etc…. jogos de linguagem que mostram o quão estamos sem rumo, incapazes de colocar a atenção em algo que seja mais que mero “flatus vocis”. Vivemos um cenário de ruínas.

    • 18/06/2017 at 16:20

      “Jogos de linguagem” são outra coisa, e tais movimentos estão bem longe de serem flatus vocis.

    • 18/06/2017 at 16:20

      “Jogos de linguagem” são outra coisa, e tais movimentos estão bem longe de serem flatus vocis.

  3. Rafael Costa
    17/06/2017 at 17:34

    Qual livro do Sloterdijk me recomendaria como ponto de partida?

    Abraços.

    • 18/06/2017 at 08:38

      Que tal o meu livro e, a partir dele, você escolher? Para ler Sloterdijk, nas livrarias.

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