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19/08/2017

Os conservadores e seu medo irracional da “doutrinação”


Uma aula de um professor engajado politicamente, no sentido moderno da palavra (dicotomia esquerda-direita), mesmo que pareça “light”, é a coisa mais desagradável do mundo. É o que eu considero uma aula inútil. Os midiagogos que estão por aí atualmente, especialmente os chamados Três Patetas, também fazem isso, ministram a doutrinação do senso comum ao senso comum. E por saberem que fazem isso, vivem denunciando aulas de “doutrinadores”. Esses midiagogos versões quase adultas do Fernandinho Holliday, o “Cota do Dem” que invade escolas não para ajudar, mas atrapalhar bem uma educação já bem atrapalhada. Nesse quadro todo, o pior dos elementos envolvidos, é aquele pai que vem na Internet para denunciar “doutrinação” política. Em geral isso ocorre com conservadores. Eles temem a “doutrinação comunista”, num mundo onde nada há de mais desacreditado que o comunismo.

Esses pais são tão ou mais tolos que os midiagogos. Eles acreditam que professores, se é que existem em quantidade como pensam, falando na cabeça de crianças vai transformá-las em “soldados do comunismo”. Eles não sabem o valor da democracia e o que é a vida democrática. Não entendem a força de convencimento da materialidade democrática. Funcionam em sistema de autoritarismo dentro de casa e acham que, como ocorreu com eles, que em geral ficaram “tapados”, também ocorrerá com seus filhos, mas do lado da esquerda. Desconhecem algo chamado adolescência. Sim! Não sabem o quanto as coisas, ministradas na forma de disciplina de Educação Moral e Cívica, dá frutos opostos.

Crianças que parecem ouvir atentas uma lição muito repetida, na adolescência tendem a chutar uma tal lição como quem chuta latinha na rua. Toda tentativa de doutrinação em países democráticos pega as pessoas com deficiência cognitiva, os mais burrinhos, os chamados “limítrofes”. São 10 a 20% da população. A maior parte segue a vida normalmente, de forma pragmática. Mesmo os “ideologizados” ou os “politizados” não passam de 40% da população, e isso numa avaliação bem generosa. A vida das democracias permite que as crianças se tornem jovens e neguem os seus doutrinadores. Podem até fazer isso em sentido também doutrinário, mas fazem. Por exemplo, aquele garoto que escreveu para um colunista da Folha de S. Paulo, denunciando o “marxismo na escola”, e encantando o receptor que aproveitou a cartinha para endossar a falta de vontade de estudar do remetente – afinal, era só isso a reclamação. O colunista é na verdade doutrinado e doutrinador de direita. Ora, no geral, a democracia faz a maior parte das pessoas perceber que os políticos são uma desgraça, são falsos, e que precisamos deles como precisamos de sindicatos, mas que nem por isso vamos nos casar com políticos ou sindicalistas – Deus nos livre disso!

Os fenômenos de aparente doutrinação popular, como na URSS e na Alemanha Nazista, quando postos como causa de guerras e confrontos de todo tipo, geram explicações pueris. Acreditar que o povo da URSS era comunista ou que o povo da Alemanha era nazista é desconhecer o estado policial que se instaurou nesses lugares na base de golpes, de violência material, simbólica e psicológica. Um país doutrinado não precisa de polícia política. E a URSS e a Alemanha Nazista tinham como ponto central para a perpetuação dos seus regimes a polícia política que tudo via e tudo avisava, inclusive em determinados momentos se mantendo como governante para além dos próprios chefes políticos. A maneira como os nazistas e comunistas assassinaram seus heróis internos aos seus exércitos é que deve nos vir à mente nessa hora. O domínio da bala nesses lugares sempre foi maior que o domínio da doutrina.

A única doutrinação que funciona no mundo moderno é justamente aquela que consideramos como não sendo doutrinação. É a da sociedade do consumo, o reino da mercadoria associado, na maior parte do tempo, à democracia liberal. Esta sim nos dá a sensação de sermos responsáveis por nós mesmos e empresários de nós mesmos pelas regras da disciplina Empreendedorismo, a ideologia escolar máxima do capitalismo atual. Isso funciona sem o revolver  que atira, mas o revolver como simbolismo e que é também uma mercadoria e o aríete de uma ideologia. No mundo moderno o revolver não serve para atirar, ainda que atiremos uns nos outros, mas para mostrar que se pode comprar um dispositivo que tem o dom de eliminar outros, de ser Deus. Até isso a liberdade do mercado proporciona. Essa crença na individualidade liberal como contendo sujeitos, mas que contém na verdade como protagonistas pseudo-sujeitos, é realmente a única coisa que convence e que doutrina, mas isso, sabemos, é o que consideramos a anti-doutrinação. E não estamos de todo errados ao pensarmos isso.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 09/04/2017

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15 Responses “Os conservadores e seu medo irracional da “doutrinação””

  1. Romero
    28/04/2017 at 05:51

    Paulo, eu tenho minhas dúvidas se a reforma trabalhista é ruim. Os trabalhadores hoje querem trabalhar em países em que não há tantos direitos trabalhistas, como os Estados Unidos. Nenhum norte-americano sonha em trabalhar no Brasil, cheio de direitos e com tudo o que a CLT pode oferecer. Pelo contrário, somos nós é quem fugimos para lá, acho que precisamos rever nossa crítica. Hoje em dia é insustentável dar aos trabalhadores todos os direitos que a CLT estipula, tanto que a maioria trabalha em desacordo com as regras, na informalidade, chegando a ser porta de entrada inclusive para o tráfico

    • 28/04/2017 at 21:27

      Romero essa reforma que está aí (e não outra) vai trazer o emprego de volta, mas o conteúdo dela é muito pesado para a situação posterior e vai desorganizar bem as relações capital x trabalho.

  2. Jonas Saldanha
    11/04/2017 at 10:51

    Eu não vejo problemas no professor que diz de seus posições políticas, que dá aulas ideológicas. Se ele fizer isso sem autoritarismos, sem condicionar as boas notas a mera reprodução em prova dos seus gostos ideológicos, acho que não tem problema. Toda pessoa tem sua ideologia, acho mais honesto aqueles que assumem isso do que alguns que tentam esconder atrás do discurso da neutralidade da ciência.

    • 11/04/2017 at 11:04

      Jonas! Aula ideológica é aula para sindicato e para partido, não para a escola. Acho que você não está levando a sério o conceito de ideologia, talvez esteja pensando em ideário.
      Outra coisa: não é falta de autoritarismo que resolve a coisa. Se ficar mostrando posições fosse aula, bastaria o livro. O professor é quem dramatiza as perspectivas. Ao fazer isso, ensina o aluno a ler, ouvir e cheirar perspectivas, consegue lhe dar instrumentos para a crítica da ideologia. Só consegue fazer isso o professor que sabe ir além das doutrinas que ele mais ama.
      Agora, sobre neutralidade da ciência, ela guarda uma aspiração de objetividade que você não está percebendo. Por conta de gente como você que os Karnais da vida funcionam, dando para a esquerda instrumento pífio de análise.

    • LMC
      11/04/2017 at 11:16

      Quando Karnal falou sobre a
      tal Escola Sem Partido,os
      reaças criticaram.Mas,nada
      como um dia após o outro.
      Se o Bolsonazi for Presidente,
      acho que o Holiday pode
      ser Ministro da Educação.
      kkkkkkkkkkkk

    • 11/04/2017 at 11:29

      Holiday é viado, Bolsonaro só aceita isso nos filhos dele.

    • LMC
      11/04/2017 at 12:18

      Holiday e Bolsonaro são
      iguais,politicamente falando.
      É como queijo e goiabada.

    • 11/04/2017 at 13:10

      Não, queijo e goiabada não gostosos.

  3. José Resende
    10/04/2017 at 17:06

    Tem de ser muito idiota pra achar que professor consegue doutrinar alguém. Se tivéssemos mesmo esse poder doutrinador, doutrinaríamos os alunos para não serem indisciplinados, para não atrapalharem as aulas, para terem foco nos estudos, fazerem as suas atividades tanto em sala de aula quanto em casa. Doutrinaríamos para pesquisarem mais, lerem mais, ouvirem mais. No entanto não temos esse poder e grande parte das salas de aula Brasil afora se configuram como ambientes caóticos desprovidos de estrutura, totalmente deixadas de lado pelo poder público, onde professores têm de praticamente fazer milagres para conseguirem lecionar para jovens, muitos dos quais muitas das vezes não tem qualquer suporte ou acompanhamento dos seus pais. Só os apedeutas, os desonestos intelectuais e pessoas que odeiam a perspectiva de que alunos são seres pensantes (pois são pensantes e inteligentes sim) é que apregoam o absurdo de que professores doutrinam os seus alunos. Esses que fazem esse discurso podre e idiota da doutrinação deveria fazer um curso de licenciatura e experenciar o que é de verdade uma sala de aula com 40, 45 alunos, cada um com pensamentos, ideias, valores, dramas, desejos e sensações diferentes uns dos outros. E todos, em sua diversidade de pensamento, querendo se expressar das mais diversas formas e maneiras. A doutrinação só existe na mente doentia de indivíduos desonestos que desconhecem o que é uma escola, como é uma sala de aula e que vomitam conceitos também doentios configurados no que chamam de escola sem partido.

    • João Valentim
      18/04/2017 at 19:16

      Comentário cuja precisão é cirúrgica, isto é, de uma pessoa que conhece a realidade de uma sala de aula.

  4. Luciano
    10/04/2017 at 12:08

    Na minha graduação estagiei numa escola e fui professor temporário por um mês em outra. Essa molecada não quer nada com nada, quanto mais ser doutrinada.
    O conservadorismo fala em doutrinação, em mises, em marxismo cultural, em ditadura comunista… Embora a esquerda infelizmente esteja se esforçando, não existe nada mais burro e desconectado da realidade do que o conservadorismo.

  5. Thiago
    09/04/2017 at 17:08

    Onde ensino, só temos duas aulas de História de 50 minutos por semana em cada turma. Não dá para trabalhar o programa planejado pelas diretrizes curriculares de forma decente.

    Esses conservadores “paranóicos” demonstram total desconexão com a realidade das escolas públicas brasileiras.

  6. Afrânio
    09/04/2017 at 17:05

    Snowden que o diga….

  7. 09/04/2017 at 10:54

    Fui professor por quinze anos na rede pública. Oriundo de cursos de humanas, lecionei com forte tom anticapitalista. A maioria dos meus alunos hoje exibe uma forte atração por personagens como Bolsonaro, inclusive estampando-o em suas fotos de perfis.

    Realmente a doutrinação que funciona é a que não se apresenta como doutrinação.

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