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19/08/2017

Os cachorrinhos no colo dos pobres


Os nazistas tentaram corromper muita coisa sagrada, e uma dela foi a ideia do respeito aos filhos. “Não me mate, eu tenho filhos, como eles vão ficar sem mim?” Essa frase que foi aprendida a partir do século XVIII, com a invenção da infância como a entendemos hoje, por Rousseau, transformou-se no centro de uma doutrina. Não se tira o provedor daquele que é o mais fraco dos mais fracos, aquele não tem como se conduzir sozinho. Os homens de Hitler atentaram até contra isso, e quebraram Rousseau ao meio.

Uma outra forma de corromper essa ideia, diferente da maneira hitleriana, foi a de usar o fraco como isca. A frase inventada, então, foi aquela dos miseráveis das esquinas: “dê-me um dinheiro para eu  comprar leite para esta criança” – e lá estava nos braços da mulher a fonte da sua moeda de troca: o bebê. O hitlerismo invertido também quebrou Rousseau ao meio. E com efeito duplo: muita gente se tornou até insensível à pobreza da esquina por ela conter antes a isca que a verdadeira necessidade, ou simplesmente a verdade descredenciada pela astúcia tola.

Essa segunda ideia agora está transitando para um outro tipo de relação amorosa, desenvolvida de modo mais acentuado nos últimos anos. Trata-se do amor aos cachorros, principalmente filhotes, que transbordou em nossa sociedade. Nas ruas de São Paulo, os mendigos de esquinas não param mais carros com crianças no colo, mas sim com filhotes de cachorros. E o pedido é claro: “dê-me moedas para comprar leite para ele”. O olhar do cãozinho é muito mais sedutor do que o não olhar da criança. Os mendigos já descobriram o ponto fraco da classe média (ontem mesmo, voltando do Parque Villa Lobos à noitinha, presenciei essa cena, uma mulher com o cachorrinho no colo abordando carros).

O que os mendigos descobriram é o que a ciência já tem comprovado: o cão produz em nós uma mudança hormonal mensurável, e os hormônios ligados ao “instinto materno ou paterno” (um deles: ocitocina) são ampliados em nós quando os olhos de filhotes de cães ou cães adultos se movem em nossa direção. Eles, os cães, possuem o branco dos olhos, e lidam com uma expressão que nos provoca fisiologicamente. Alguns homens de ciências já aventaram a hipótese de que isso ocorre porque o cão deve ter vivido junto conosco nas cavernas, muito antes de nós sermos nós e o cão ser o cão. Essa simbiose gerou a “química” mútua. O cão não veio a conhecer o homem por conta da domesticação. A domesticação teria sido apenas um reencontro, muito tempo depois. Um destino já traçado antes. Essa hipótese não é tola, pois o homem tem muito do cão e nem sempre muito do macaco, tido como seu primo mais visível. E não falta testemunho da literatura a respeito de gente como Rômulo e Remo, fundadores da Itália, alimentados pela loba, para nos lembrar que a relação mútua não veio da domesticação. O monumento da fundação de Roma diz mais de nós do que outros monumentos erguidos a outros mitos de religiões famosas e importantes.

Mas a corrupção desse sentimento pode sim aparecer. Muitos miseráveis nas ruas com cães no colo podem nos levar, a qualquer momento, a adquirir a mesma insensibilidade que muitos adquiriram em relação a crianças pobres. Há muita gente que passa hoje diante de uma criança pobre, faminta, perdida, e já não vê nenhuma objetividade moral nesse fato que clame pela ajuda, aliás, nem mesmo uma realidade subjetiva. A desgraça não está imune à banalização. E a banalização é tudo de pior que pode ocorrer a qualquer coisa. Mas, de fato, é o câncer da subjetividade moderna.

Parece que não temos outra saída no mundo, para evitar essas corrupções dos sentimentos, senão de voltarmo-nos a uma tecla básica da ideia de urbanidade moderna: a cidade grande moderna, na situação capitalista (teríamos outra no mundo moderno?), não pode admitir que os miseráveis lhe deem unilateralmente o que ela deve ter como sua subjetividade. Então, essas cidades, não podem ter miseráveis. Ou criamos ações que façam com que as pessoas não fiquem nas ruas jogadas, ou vamos ser todos degradados não só moralmente, o que já é péssimo, mas fisiologicamente, o que seria um destino perigoso para a civilização.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 29/04/2017

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4 Responses “Os cachorrinhos no colo dos pobres”

  1. Orquidéia
    01/05/2017 at 07:45

    Lá na Paulista tem um senhor que pede esmola…para a cadela.
    Descolado, parece não ter maiores preocupações a não ser cuidar da cachorrinha.
    Nunca tinha visto isso antes.

  2. Hilquias Honório
    30/04/2017 at 08:23

    Muito tocante! E bem nessa época, em que temos, às vezes, a sensação de que a Civilização está andando pra trás. Parabéns pelo artigo e pela preocupação!

  3. Ana Paula
    29/04/2017 at 22:22

    Paulo você é meu degredo, volta e meia acabo lendo seus textos. Mas é isso ai, parece quw querer um mundo melhor hj é sinonimo de ingenuidade. Lembro do magico de oz, queria que todos os moradores de rua fossem transformados em espantalhos em fazendas organicas pq assim nao os veria mais por ai denunciando nossa miséria impagável. Alem do arco iris pode ser que alguem veja beleza onde so a veja e seus seguidores propagam horror

  4. Matheus
    29/04/2017 at 18:32

    Uma das últimas vezes que fui a SP-capital vi algo similar. Um mendigo na rua com uma cachorrinha mãe é vários filhotinhos. Olha tinhas até umas meninas fazendo transmissão ao vivo no Snapchat e coisas parecidas… Me deu um nó na garganta, pensar que só nos sensibilizamos pelos cães e já somos incapazes de empatia com alguns seres humanos e tendo quase a premonição disso que vc descreve no texto,logo nem com cãezinhos teremos empatia se isso continuar e propagar… O pior de tudo nesse aspecto anti-urbano que vivemos, pra mim foi a placa : Não dê esmola, dê cidadania. Aí eu fiquei pensando como é que eu sozinho vou dar cidadania pra alguém? Isso não é algo que a cidade como um todo deveria promover? Ao menos sei que cidadania não é um bem, uma coisa, transferível… Aquilo pra mim era o marco do fim de qlqr projeto civilizatório…

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