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26/09/2017

Orgasmo e metafísica em Peter Sloterdijk


Apesar de ter dez anos a menos que Sloterdijk, em grande medida pertenço à sua geração. Já estava na escola em 1968 e, dado o meu contexto familiar, sabia o que ocorria no mundo, dentro das possibilidades de uma criança inteligente de dez anos. Era uma criança que convivia com adultos culturalmente acima da média. Quando 1968 fez dez anos e a mídia promoveu um primeiro balanço da revolução que não houve, e que depois se tornou praxe a cada década, eu já estava na Universidade e na militância pela Anistia, que veio no ano seguinte, 1979. Li tudo sobre o assunto, para entender o que havia ficado gravado na minha memória, e de quem falávamos quando falávamos em trazer de volta, para o Brasil, os exilados da Ditadura Militar.

Foi nessa época que comecei a entender que desde o colégio, eu era um fruto tardio de 68. Pois no colégio não li primeiramente Marx, mas Reich – ele era o carro chefe para me situar na fome por filosofia, sociologia e literatura. No meio disso, Marcuse, claro. O corpo e o sexo tinham lá seu encanto! Recentemente, vendo Sloterdijk recordar 1968, seus encantos e desencantos, leio embevecido e, confesso, com uma nostalgia não legítima, o seguinte trecho, de 1994:

“O orgasmo – é o que te interessa, por meio da máscara ontológica, não? – elevamo-lo num pedestal nas não enquanto episódio biológico, como acontece hoje em dia, em que a vida é uma categoria da medicina desportiva, mas como uma monumento da liberdade humana, não é? Bem, eu sei, tudo isso soa hoje tão longínquo como as guerras gaulesas” (1)

Algumas páginas antes desse trecho, Sloterdijk pondera sobre a doutrina de 68:

“(…) Anunciávamos uma sexualidade branca, ou cinzenta, se se quiser, uma sexualidade de desgaste sem medo do mês seguinte. A minha barriga pertence-me e todos os restantes órgãos me pertencem. Por outras palavras, sexualidade torna-se consequência do fato de os órgãos genitais serem uma propriedade privada. E nós sabemos bem o que os proprietários privados podem fazer da sua propriedade, nomeadamente tê-la à disposição. Os órgãos genitais são uma coisa de que temos muita propriedade, não é? Uma coisa assim nunca se dá, se de empresta”. (2)

Assim, de 1968 ganhamos essa linha de conduta: o sexo com orgasmo liberta, e o sexo e tudo o mais relativo a ele é algo privado do indivíduo e só dele. Não se sabia que o sexo com orgasmo iria se tornar conselho médico e ministerial associado ao brado do feminismo atual que impensadamente diz “meu corpo minhas regras”. Em 68 tirou-se o sexo do campo da reprodução, da família e do amanhã-com-fraudas-e-mamadeiras para colocá-lo no conjunto do que era o apogeu do individualismo. A própria ideia de apogeu, de ponto de chegada, é a ideia de orgasmo. Valorizar o orgasmo é, para Sloterdijk, uma prática europeia de cultivar a noção de apogeu, de história escatológica; talvez, eu arrisco, de romances que possuem clímax. Sloterdijk não comenta, mas sabemos bem que a noção de apogeu estava na filosofia da história dos nazistas – toda civilização tem seu auge e depois decai. Uma ideia disseminada em várias formulações pelos mais diferentes setores: alguém carrega uma cruz, sofre, morre e então sobe aos Céus. Um lutador ou um artista tem seu dia de glória e depois o sumiço num asilo. Uma sociedade criada na ideia de apogeu um dia iria fazer do orgasmo sua receita final para a liberdade, ou para qualquer coisa distinta como perfeitamente humana.

Sloterdijk diz com todas as letras que “o pensamento sob forma de apogeus é uma maneira de ser cultural profundamente ancorada em nós”. Ele insiste em dizer que “nunca pusemos este aspecto da metafísica em causa”. Sua tese é a de que no erotismo são travadas as últimas batalhas metafísicas”, e a “sexualidade é o último bastião deste habitus dos europeus que consiste em justificar sempre a vida pelos apogeus”. (3) Para ele, essa ideia do apogeu parece não ter onde se apegar. Os apogeus se acabaram. Pois até a morte não é mais um apogeu, uma elevação. Então, Sloterdijk comenta, “só o sexual reata como último anônimo da fé metafísica nos pontos culminantes”. Talvez a verdadeira herança transmutada de 1968, a do sexo livre como elemento da liberdade enquanto ponto culminante, esteja nesse contexto de uma metafísica do apogeu ou da ideia de apogeu com última força da metafísica. 

Mas aqui, gostaria de colocar nessa sopa algumas colheradas do meu tempero. Talvez tenhamos que ver a divisão entre sexo e gênero, e todos os movimentos de privatização do corpo, que são atuais, não apenas como o que é banalmente dito herdeiro da libertação imposta pelos Sixties. Seria banal afirmar isso. Verdade, mas banal. Talvez fosse mais interessante notar que as lutas de nossa época pelas identidades étnicas, ou de alguma forma identidades que passam pelo corporal, incluindo aí, claro, a das mulheres, gays, lésbicas, trans, deficientes de todo tipo, anões etc., são ainda frutos dessa luta pelo direito de se ter clímax, direito a apogeus aos sábados. Ninguém mais pensa em grandes apogeus. Nem o orgasmo é grande apogeu. Mas é o apogeu que sobrou, agora mascarado por frases nada grandiosas e pela ajuda do Viagra. Enquanto houver uma resto de metafísica no pensamento Ocidental, pode ser que o sexo ou variações deste possam funcionar como pequenas garantias para o núcleo dessa forma de nosso pensar e sentir, então o culto do apogeu estará vivendo em sua última casinha. Isso pode durar muito, muito tempo. Podemos estar longe, infinitamente longe, do dia do fim do sexo e fim da busca de orgasmo. Mesmo que essa busca venha a aparecer em revistas antes chamadas de “femininas”, em todo tipo de enquete e sugestão mensal sobre a … “felicidade sexual” como a última das felicidades.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 30/08/2017

  1. Sloterdijk, P. Ensaio sobre a intoxicação voluntária. Lisboa: Fenda, 2001, p. 85.
  2. Idem, ibidem, pp. 70-1.
  3. Idem, ibidem, pp. 81-2

Foto acima: Jane Fonda como Barbarella, clássico de 1968.

 

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