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20/11/2017

A onda de denúncias sobre assédio revela a morte da alteridade necessária


Este texto é indicado preferencialmente para a comunidade acadêmica

Cresce de maneira assustadora a onda de denúncias sobre assédios de todo tipo, ocorridos num passado remoto. E nesta semana surgiram também casos de seguranças, câmeras etc., denunciando atrizes. O jornalismo fala disso, mas não explica. Não pode explicar. Os teóricos sociais jogam o fato para o campo da fofoca de celebridades ou, então, põe tudo no lombo do “politicamente correto”, que no Brasil, dado a desescolarização, voltou ser comentado há uns anos. Por sua vez, a psicanálise didática do meu amigo Contardo Caligaris acerta o alvo. Por dever de ofício, pego um caminho diferente do dele, mas que não creio que se indispõe diante do seu texto (Folha de S. Paulo, 09/11/2017)

Mas, afinal, o que está ocorrendo? A filosofia social pode dar uma resposta. Mas, como filosofia, ela sempre exigente com o leitor. Tomo Hegel e outros para tentar levantar uma heurística sobre o assunto.

Não é possível a vida civilizada sem inimigos. Grosso modo, digo que Hegel escreveu a “dialética do senhor e do escravo” para mostrar que a vida humana depende do homem como homem, a pessoa consciente de si. Uma consciência de si precisa de seu Outro, ou seja, outra consciência de si. O processo que se estabelece nesse encontro entre o Um e o Outro não é nada pacífico. Hegel traçou essa história na base de duas noções: desejo e reconhecimento.

Resumindo ao máximo, o esquema é o seguinte. O homem é ser desejante, e nisso se faz sujeito, pois procura no objeto o que não tem, a sua satisfação. Ao encontrar o objeto, se apropria dele e, enfim, o consome. Esse processo do desejo não forma propriamente o homem no seu  desiderato de se ver como consciência plena, com homem, pois ele não encontra no outro um objeto estável, de contraponto, ele o faz desaparecer, o mata, e assim volta para si na sua solidão, sem a força e riqueza da alteridade. Então, para que o homem efetue seu desejo e este lhe proporcione a completude de homem, precisa mesmo de um outro que lhe faça resistência, que acolha seu desejo mas não se deixe consumir. Os homens então se encontram com outros homens, num processo de amor-ódio. A guerra não é nada senão essa necessidade do homem encontrar outro homem, vivida em várias instâncias e formas. Mas a guerra não pode ser a da extinção.

Instaura-se aí a “dialética do senhor e do escravo”, uma das maneiras de Hegel expor o caminho do desejo e a busca do reconhecimento. O senhor se apropria do escravo e o põe, sob ameça de morte, no trabalho. Este aceita viver, não morrer, e então para tal se deixa escravizar. O senhor mira o escravo, e se faz desejante. Ele quer do escravo? Que este o ame como senhor, lhe obedeça, o reconheça como senhor, para que sua identidade se confirme, para que ele realmente experimente o desejo e este seja completado, cessado. Mas o escravo não retribui dessa forma esperada, pois seu reconhecimento não é espontâneo, não é livre, é o de alguém que aceita a escravidão para escapar da morte. O escravo está degradado. E, afinal de contas, seu reconhecimento não serve ao senhor, pois o próprio senhor o despreza, não tem em alta conta qualquer reconhecimento vindo do escravo para se confirmar homem enquanto senhor. No entanto, as coisas começam a tomar outro rumo quando o escravo é posto para trabalhar e modificar a natureza, e nesse processo percebe que sua capacidade de criar, de mudar a matéria, lhe dá capacidade de objetivação e de pensamento – de conceituação e realização, de fusão de teoria e prática. Adquire um nível de consciência de si por meio do trabalho. Sim, o trabalho! Coisa que o senhor não pode fazer, pois se relaciona com a matéria apenas como consumidor, por meio do trabalho do escravo. Assim, está embutida a ideia de que o homem, na figura do escravo, pode chegar a se ver como homem universal. Se vê no confronto com o senhor e percebe que pode morrer. A consciência da morte o põe como quem tem nesta o fator comum e universalizante, e depois, por conta do trabalho, do fato de ter a experiência comum com outros homens (escravos) e moldar a matéria pondo nela seu conceito (a construção de um objeto que estava só na mente, a efetivação da cadeira, na prática, que estava só projetada na mente). Assim, está em germe no escravo, não no senhor, o caminho para a universalidade – pela consciência de morte e pelo trabalho. Mas sem essa dialética de desejo e guerra e busca de reconhecimento, o homem não se faz homem.

O que tiramos disso? Um mundo de teorias as mais diversas, a começar por Marx. Este foi um dos primeiros a pegar essa parte da obra hegeliana com carinho, um setor dessa obra que se tornou uma dos trechos mais comentadas da história da filosofia. Atualmente, o filósofo germano-coreano Byung-Chul Han lançou a tese de que estamos vivendo, por conta da positividade e da grande abrangência do capitalismo moderno e da hegemonia liberal, uma vida sem inimigos. Afinal o capitalismo atual é o regime dos adversários, os concorrentes, não propriamente dos inimigos, do Outro. Estamos vivendo a hegemonia da democracia liberal ocidental, e nesse mundo há espaço para a política da diversidade, mas não da real diferença. Há outros que, na diferença, são iguais. Não há singular, o Outro que nega realmente outros. Algo também constatado por Fukuyama, cuja tese do “fim da história” não foi entendida por muitos, talvez por falta de se notar que o que ele quis dizer é que não há mais, na vida da população e dos estados, contrapontos reais. Vivemos uma situação pós-histórica, nenhuma real novidade ocorre se o Outro desaparece. Sócrates não era um homem da diversidade, era um homem da diferença, na sua singularidade era sempre a negação, ele mesmo se via como a consciência de Atenas. Lembro de Sócrates para dizer que não estou dizendo “os outros”. Estou dizendo o Outro, aquele que é realmente desejado e faz o jogo de amar e odiar se manter, o jogo do ceder mas não se deixar consumir.

Até aqui, Hegel, Fukuyama e Han. Daqui para diante, eu mesmo.

Utilizo dessa teorização do contemporâneo (1) para pensar a onda mundial pela busca de um Outro. As pessoas estão desesperadas no sentido da instituição da luta por reconhecimento, que é o trabalho do desejo e que ganha uma boa descrição na “dialética do senhor e do escravo”. Nessa hora, o recurso que sobrou num mundo positivado, pacificado, surgem todos os tipos de falsos inimigos. Na parte política, um Trump falando contra a Coreia, numa agenda bélica inútil, falsa, repleta de uma busca desesperada pelo Outro. No plano individual, a onda explosiva de pessoas que recuperam conflitos do passado que já não eram conflitos, nem foram conflitos: a espiral de denúncias de assédio e similares de todos contra todos. Todos e cada uma precisam de ter o seu Outro, não tendo, o criam ou recriam ou se lembram mesmo de conflitos onde algum tipo de reconhecimento, formador da pessoa, se faz necessário. É como se cada uma dessas pessoas ainda não estivesse se completado como consciência de si, com identidade minimamente estruturada, e não tendo na prática atual um Outro, acredita poder achar no passado, de acordo com incentivo das mentalidade atual, a chance de eleger seu Outro.

As empresas que empregam os predadores sexuais – homems e mulheres do passado agora trazidos à cena – logo os demitem (seja ou não verdade a acusação isso é o que menos importa para todos, menos para os denunciados, claro), e desse modo frustram aqueles que esperavam que o confito demorasse um pouco mais, que o Outro cumprisse sua função de Outro, de negativo, de desenvolvedor do amor-ódio. A cada demissão de um denunciado ocorre a frustração do denunciante. Ele não queria vingança, e em vários casos, não se importava com o dinheiro, o que queria era a recuperação do conflito, ou a própria criação do conflito, para a vida cotidiana reposta como vida humana.

Não sei o ponto de chegada dessa situação, nem sei se isso tem destino. O que sei bem, se estou certo no que falo nessa análise rápida em filosofia social, é que o vazio  virá para o centro de denunciantes, denunciados e juizes (da lei ou das empresas), na desesperada busca de um espectro de fantasmas que traga o Outro.

(1) Há outros caminhos para mostrar a destituição da alteridade, um deles é o de Sloterdijk, explicando nossa perda do Outro por conta da abertura da modernidade a uma situação de desconsideração do elemento placentário – desenvolvi isso em Para ler Slorterdijk, (Via Verita, 2017).

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 10/11/2017

Paulo Ghiraldelli Jr. é doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

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2 Responses “A onda de denúncias sobre assédio revela a morte da alteridade necessária”

  1. LMC
    10/11/2017 at 14:54

    Estou esperando um artigo do
    PG sobre aquela babaquice da
    condução coercitiva que querem
    fazer no Senado com o curador
    do Queermuseu e o artista do MAM.

  2. Eduardo Rocha
    10/11/2017 at 13:48

    Paulo, se não há alteridade significa que eu estou cansando de mim mesmo e ficando doente por isso? Há síndrome de competição e de performance em tudo que faz. A vida na pós-história virou uma vida contemporânea do passar o tempo e do passa tempo com jogos (Easy, Hard e Insane), academias, seguros em alta, Previdência Social, trabalho com happy hour, apartamentos sem pessoas, educação a distância, coaches, smarthphones, cuidadores de cães como profissão. Estamos vivendo um inferno em nós mesmos. Em vez de haver tensão negativa que alimenta a “vida do espírito”, ou seja, o outro enquanto outro é quem permite uma tensão negativa é que mantém vivo o espírito e sua dialética. Cada um volta para si mesmo com o individualismo extremado (sentir, escutar, ver, comer, libertar-se, etc) ou atingir seu limite como as propagandas dizem. Isso não potencializaria uma “sociedade narcisista” ? Voltada para cuidar de si (estética, cosméticos, cirurgias, limpeza, tatuagem, “vida saudável” e shakes. Se não existe mais alteridade como é possível haver hermenêutica?

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