Go to ...

on YouTubeRSS Feed

17/12/2017

O que fez o juiz da tal “cura gay”?


O fato: o juiz de Brasília indiretamente lidou com a homossexualidade como se ela pudesse sofrer intervenção clínica, e o fez em nome da “liberdade científica” (confira aqui a matéria do Estadão). Sobre esse assunto, há o aspecto jurídico e o aspecto filosófico, ou seja, metafísico. Abaixo, abordo ambos, de modo breve.

Sobre o aspecto jurídico, o juiz errou duas vezes. Ele diz que não contraria a regra da OMS. Mas contraria sim! Sua liminar dá margem para que a psicóloga invoque a “terapia de reversão sexual”, direta ou escamoteadamente. Esse é o primeiro erro. O segundo é ele acreditar que liberdade científica pode ser exercida em clínica, indiscriminadamente. Em clínica há pacientes, não cobaias. Clínica não é laboratório. As atividades da clínica e do laboratório se cruzam, mas há limites éticos que precisam ser preservados até porque são estes, e não as paredes, que distinguem uma coisa da outra. Essa história de “avanço da ciência”, após o século XX, não é uma boa justificativa.

Sobre o aspecto filosófico, a questão é da ordem dos imperativos metafísicos que predominam na sociedade moderna, mesmo sendo ela a autora da ideia de que a metafísica morreu (“Deus está morto”). O que quero dizer é que nossa semântica atual resguarda a dualidade sujeito-objeto em associação à dualidade interior-exterior. Ou seja,  nosso vocabulário indica a presença de um tipo de metafísica. Historiando a cultura, sabemos que vivemos a “metafísica da subjetividade” como metafísica moderna (é difícil não dar razão a Heidegger nisso, especialmente em seu texto “A época da visões de mundo“), justamente a metafísica que garante o pensamento moderno, ou seja, o pensamento científico e o prestígio, entre nós, da tecnologia. Segundo essa metafísica, o ponto absoluto que devemos procurar está no tal “interior” e, no âmbito humano, no interior do homem – a sua subjetividade (subjetividade, para gregos e medievais, não é interior humano!). A alma humana é transformada em mente, e nesta estão, então, os segredos de tudo, e inclusive Deus. Santo Agostinho colocou o absoluto dentro do homem, e a psicologia tornou-se, depois, a substituta da teologia. Investigamos Deus, o Absoluto ou a Verdade, dentro do homem. A neurociência é uma derivação materialista disso, uma espécie de metafísica invertida, uma metafísica materialista. Sendo assim, quando um juiz dá aval para a psicologia (tomada como façanha do psicólogo individual) fazer o que ela quiser, ele não está agindo como um senhor de tudo, ele está apenas legislando em favor de um senhor maior que ele, o novo governante da República sem Platão: o Rei-Psicólogo que substituiu o Rei-Filósofo. Se a Organização Mundial da Saúde (OMS) quer diminuir o poder do déspota esclarecido, lhe dando uma Constituição, o juiz afirma que o Rei-Psicólogo é mais legítimo que a OMS, pois está em contato com o povo, e que seu governo é de tipo absolutista, não constitucional. Em favor do povo, pensa o juiz, legislo eu, e autorizo ao Rei-Psicólogo que ela exerça o poder que já tem.

Desse modo, do ponto de vista jurídico, o juiz errou. E do ponto de vista filosófico, que não cabe dizer se ele errou ou acertou, é necessário dizer que ele não legislou senão seguindo a metafísica de nossa época.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 20/09/2017

Tags: , ,

2 Responses “O que fez o juiz da tal “cura gay”?”

  1. Vieira
    21/09/2017 at 12:43

    Então professor, sou homosexual, estou infeliz e não satisfeito com minha condição, pois bem para vc tenho que viver desta forma sem que possa procurar ajuda profissional para uma devida reorientação se assim o quiser!?

    • 21/09/2017 at 23:56

      Vieira, você não é homossexual. Os homossexuais são, em geral, pessoas inteligentes que conseguem entender os meus textos. Mas, enfim, tente ler mais vezes. Talvez depois de ler mais vezes perceberá que meu texto não proíbe você procurar psicólogos e pedir para eles que quer se transformar no Homem Aranha ou Mulher Maravilha ou qualquer coisa que tiver em mente. Agora, se o psicólogo falar para você que consegue, sugiro que não acredite.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *