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19/08/2017

O olhar filosófico sobre o “machão”


José Mayer nunca foi somente “o macho” ou “machão”. Interpretou papeis suaves, gays, mocinhos e bandidos. Fora dos palcos, ganhou também a fama de um homem polido. Mayer pode ter em algum momento, como ocorreu com Vera Fischer por um tempo maior do que ela desejou, incorporado seu último papel e homem ofensivo com as mulheres. Nenhum ator está livre disso. Atrizes e atores que hoje o estão julgando, se não sabem disso, é porque se pensam atrizes e atores, mas não são. Não sabem nada do poder da arte. São apenas saguis na frente da câmeras da Globo. E gente como Thaís Nicoletti, que quis transformar na Folha de S. Paulo (08/04/2017) a carta de desculpas de Mayer em uma enganação, é o que provoca profundo sentimento de pena. Uma jornalista NÃO deve fazer isso.  Mas, enfim, tudo isso é conhecido. Não nasci para falar disso. Meu campo é o da filosofia.

No campo da filosofia como crítica da cultura, que é o que faço neste site (não é o que faço na academia), o que me importa é tomar o “episódio Zé Mayer” para uma reflexão sobre a contemporaneidade. E o faço a partir de uma frase do texto da Nicoletti aludido acima: “Para além do beijo gay, o desafio dos novelistas agora é desconstruir essa imagem tosca de virilidade, que, no fundo, é muito frágil”.

A frase é um pedido para que novelistas sejam pedagógicos e passem liçãozinha na população, para que esta renegue a “imagem tosca de virilidade”. Nicoletti pode criar seus filhos assim, mas pedir para novelistas tal coisa, Deus nos livre, ninguém aguentaria mais pedagogismo em novelas do que elas já têm. Novela é folhetim, é história segundo um estilo bem conhecido, e quando é lançada por vanguardas professorais que querem mudar o sentimento popular, torna-se material para a antiga disciplina de Educação Moral e Cívica, da nossa Ditadura Militar, que aliás seduz muito as feministas atuais. Quanto ao conselho de Nicoletti, então, nada de útil encontramos na frase escolhida. Todavia, há algo interessante nessa frase, sim, que é a questão dela falar na imagem de virilidade que deve ser abolida.

Por que a imagem de virilidade deve ser abolida? Nicoletti não sabe e talvez alguns outros também ignorem, mas a questão não é a imagem de virilidade, tosca ou não, que deve estar sob nossa atenção. A questão toda é entender que faz muito tempo que a virilidade tradicional já se esvaiu. Peter Sloterdijk atenta para isso como um dos efeitos da “ampliação do espaço de mimo” (1) ligado ao mundo onde o trabalho baseado na força física e nos aspectos guerreiros, próprios da sobrevivência do mundo não moderno, já não têm mais razão de ser. Faz muito tempo que o macho mudou de atitude e que o “machão” é caricatura. Achar que estamos descobrindo isso agora, que é nesse momento que tal figura está entrando em crise, é ter uma leitura da história da cultura que está aquém do que deveria ser aprendido no ensino médio.

Tanto o cavalheirismo do macho quanto a agressividade do machão entraram em colapso com o advento da eletricidade e, portanto, com a possibilidade, por causa disso, da entrada da mulher no mercado de trabalho. O mundo se tornou mais suave, mais rico e abundante, menos afeito à necessidade e mais ligado à liberdade, e esses fatores é que colocaram a mulher como elemento possível no mundo do trabalho. Esse processo está em continuidade, com as mulheres, agora, abocanhando o maior número das profissões mais contemporâneas, ou seja, as menos manuais. Em dezenas de países há já mais professoras universitárias que professores. No campo do Direito, então, essa inversão está andando a passos largos. Um mundo de mimo faz o homem mais suave e tende a dar mais chance às mulheres. Esse é um longo processo iniciado no Renascimento, revolucionado no início do século XX com a eletricidade e o motor a explosão dando guia para tudo, e depois com os meios de liberdade diante da prisão da natureza que existia sobre a mulher por conta do útero. Desde então, todos os movimentos de neovirilidade são apenas atos espasmódicos recriados artificialmente.

Desse modo, estão certos os que dizem que a geração de Zé Mayer, que é a minha, não foi educada como ele pensa que foi. Nunca vi meu pai desrespeitar uma moça. Nunca vi meu pai chamar uma mulher de vaca, nem mesmo numa rodinha de amigos. E eu nunca aprendi nada disso em casa, embora a TV, os jornais e meus colegas pudessem, aqui e ali, chamar uma mulher de “vagabunda” – mas não de modo tão diferente do que as próprias mulheres se chamam, quando falam “da outra”. É mais fácil entender Zé Mayer, então, pelo efeito do neomachismo espasmódico, caricato, que surge de vez em quando na sociedade, exatamente como um tipo de reação final de algo que morreu.

Tudo se passa como naquela conversa de um texano que diz que vai para o Afeganistão para matar aqueles que estupram suas próprias esposas. Vários generais americanos disseram isso na época daquela invasão. Viraram machos protetores de mulheres do lado de lá, justificando atos de pseudo-heroísmo. Esses mesmos texanos, não raro, são processados nos Estados Unidos por ofensa às suas próprias mulheres. São estilo Trump, em oposição ao estilo Obama. Isso não é a regra do mundo, ainda que possa ocorrer, mas é o movimento de neovirilidade que está na contramão da nova virilidade que caminha para ser hegemônica na atualidade. Se olharmos o perfil dos jogadores de futebol, que Sloterdijk insiste corretamente de classificar como tipos “hermafroditas”, vamos entender perfeitamente que a nova masculinidade já venceu, e que reclamações desses que puseram camiseta contra Zé Mayer são gente do passado mais do que o Zé Mayer. Ou seja, nem mesmo nos “esporte dos machos”, o futebol,  há lugar para o guerreiro de sexo muito definido.

Quando olhamos pelo olhar da Coruja de Minerva, Zé Mayer é um ponto de inflexão de um mundo onde a virilidade tradicional morreu faz tempo, e não uma figura de proa do machismo.

Cuidado com o conceito de mimo de Sloterdijk. Note meu livro Para ler Sloterdijk, da Editora Via Vérita, 2017.

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4 Responses “O olhar filosófico sobre o “machão””

  1. Matheus
    10/04/2017 at 14:27

    Talvez os únicos “machões” atuais sejam os astronautas – que ainda se aventuram em algum desconhecido – não à toa são aqueles que não podem existir aqui, na terra.

    • 10/04/2017 at 14:29

      Não, estes foram os primeiros a ficar hermafroditas.

  2. Mario
    09/04/2017 at 10:39

    Como no mundo de hoje tornar legítima certa masculinidade, já que do outro lado, o movimento feminista conseguiu tornar legítima aquela feminilidade mais “ousada”, fora daqueles padrões da sociedade tradicional da boa mocinha, recatada e do lar. Vemos mulheres protestante pelo direito de usar uma roupa decotada, de usar mini-saia ou talvez mostrar um decote. Mas o que acontece com aquele homem que até nos anos 80 começava a usar um calça marcando algo a mais, mas que hoje poderia sofrer graves críticas e graves mal entendidos.

    • 09/04/2017 at 10:58

      A moda atual é a miscelânea pós-moderna. Não notou?

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