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25/09/2017

O ódio inventado pelos bonzinhos


Pondé e Karnal são bonzinhos, eles divergem, mas polidamente. Na verdade, não divergem. São posers.  Simples midiagogos posers. Conversam amigavelmente sobre orelhas de livros que não leram e, por isso mesmo, por não acreditarem em nada do que dizem, podem falar de modo tão pomposo quanto Renato Janine Ribeiro. Agora vamos ter Bial também “conversando”. E na propaganda do programa que virá ele diz: vamos conversar no sentido contrário do ódio. Tudo no Brasil é preciso de ser feito pela regra do bom-mocismo. Um dos nossos melhores intelectuais, Monteiro Lobato, tinha verdadeira ojeriza por essa nossa mania de abafamento.

Monteiro Lobato foi acusado posteriormente de racismo, obviamente por gente inculta, por ter feito certo elogio à KKK americana. Não entenderam o propósito de sua fala. Ele não deu apoio à KKK. O que ele queria dizer é que os Estados Unidos tinham o brio de viver o conflito, enquanto que aqui permanecia a ideia de que nos amamos, que somos os gentlemans dos trópicos. Até hoje falamos isso dos argentinos e uruguaios: eles são os “brigões”. Mas até para falarmos isso, usamos de amenidades, dizemos que eles, no futebol, tem “raça”. Temos vergonha de ter raça!

Por que o mundo todo pode viver e resolver seus conflitos, e nós não? Por uma razão simples: ninguém viveu tanto tempo a escravidão quanto o Brasil. Fomos o último império escravocrata. Em nenhum lugar do mundo moderno a escravidão de negros durou tanto. Depois disso, tivemos duas ditaduras, a de Vargas e a dos militares de 64, isso sem contar o regime coronelístico oficialmente vigente durante os quarenta anos da Primeira República. Uma cultura assim formada não pode mesmo admitir a ideia do conflito: todos devem ser “bons mulatinhos”. O grito é sempre a violência dos de baixo. A violência verdadeira é a lei, que vem dos de cima, mas sendo lei, tem parentesco com a legitimidade e com a racionalidade, aquilo que pode ser feito. Então, no Brasil, quem grita perde a razão. A razão está associada ao capachismo ou ao modo sorrateiro e rastejante de ser empregado. Os anarquistas do começo do século aqui no Brasil, obviamente italianos, chamavam esse costume brasileiro de ser bonzinho como o de “lambe cu”. Aqui no Brasil os debatedores na TV ficam sorrindo e passando as mãos nas nádegas uns dos outros. Não gritam, no máximo dão gritinhos de “ui ui” quando a mão avança mais.

O Brasil é um lugar de violência policial. Mas policiais não gritam, atiram. Quem grita é o inocente que recebeu os tiros. Se toca fogo em pneus na sua vila, para protestar contra a chacina policial, então vira o tal “povo do ódio”. O ódio é o grito – assim é aqui, no país da propaganda adrede preparada. O Brasil é o lugar em que todos precisam, para aparecer, serem vítimas caladas. Até a direita, no Brasil, que no mundo todo é violenta, aqui é chorona e fica pedindo que notem o quanto a esquerda foi violenta. Aqui a jornalista de direita diz que falaram que ela deveria ser estuprada, e então vira a vitiminha, e o Bolsonaro é o cara que vive dizendo que sofreu cuspe e até atentado! E o Lula então, que quando acusado de roubar, começa a chorar! Sem contar o Mercadante, que já chorava no “mensalão”, dizendo que não sabia de onde vinha o dinheiro para a campanha. Bastou um cair na lista da Lava Jato, e a próstata fica ruim, vira doentinho. Aqui é necessário, para ter razão, ser o submisso, real ou falsamente, ser o chorão, ser o coitado, principalmente se não se é verdadeiramente coitado. O Brasil não tem maremoto, terremoto, vulcão e não tem briga, nem ódio. É o paraíso na Terra. Assim ensinavam meus professores, que evitam falar de Canudos e, quando se referiam às chacinas do Duque de Caxias, chamavam-no de “pacificador”. O Duque não matava, pacificava.

No Brasil ganha quem não acredita em nada, quem pode debater na TV vestindo saia cor-de-rosa e usando cachimbo para esconder quer o torto da boca foi feito por outro instrumento. E agora, se alguém fala qualquer coisinha de modo mais indignado, vem o tonto da Corte dizer que é “ódio”. No Brasil não podemos nos dividir nem nos dispersar? Lembram da frase energúmena do Tancredo Neves, “não vamos nos dispersar”? Tínhamos de nos manter unidos, claro, mas em torno dele!

Uma sociedade que não pode ter um Sartre dizendo que o “inferno são os outros” não conhece a alteridade e, portanto, não consegue formar sujeitos autênticos e muito menos querer mesmo estar em democracia liberal. Torna-se de modo muito rapidamente acrítico, uma pessoa gerada sem o Outro, e lugar em que vive passa a ser o de manadas de narcisos chorões. Não vai adiante um lugar assim. Vira a piada do “país do futuro”.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 24/04/2017

Foto: Bial beijando seu patrão.

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17 Responses “O ódio inventado pelos bonzinhos”

  1. Isabel
    27/06/2017 at 11:40

    Sabe, tudo isso cheira a dor de cotovelo.

    Há bons-moços posers e bem-sucedidos, mas há também quem tente ser um midiático de sucesso, fazendo canal de youtube, blog, etc… E depois se queixa do concorrente que alcançou a fama.

    Há também posers metidos a “bad boy” irreverente boca-suja. Insultar também dá ibope, mas dá bem menos. Não deixam de ser posers, apenas o personagem muda. Mas nem tanto, na verdade.

    Torço para que não seja o caso do blogueiro. Ele decidirá, no seu íntimo, se a carapuça serve ou não. E não publicará sua conclusão.

    • 27/06/2017 at 12:18

      Isabel, acho que você está um pouco se projetando nesses personagens que elencou. Quanto a mim, eis o que faço: PARTICIPO DA INTERNET FAZ 20 ANOS. Desde seu início. Por uma razão óbvia: tenho meu grupo seleto de companheiros de pensamento. Assim foi com o Hora da Coruja, com meu blog etc. É um compromisso com meu Daimon, única e exclusivamente com suas ordens. É difícil para quem não é filósofo entender esse compromisso.

  2. Everton Pacheco
    25/06/2017 at 12:17

    Ghirardelli, apenas quis dizer que achei esse texto muito retórico e pouco argumentativo, o que fica bastante aquém da sua capacidade, muito mesmo. Perdão pelo tom de minha postagem anterior, se soou agressivo para você. Perceba que não critiquei nenhuma ideia específica do texto, com o qual tendo a concordar em muitos pontos. Não se ofenda nem entre no mesmo nível da turma do mimimi defensivo que você mesmo criticou. Admiro seu trabalho, embora tenha discordâncias. Penso que um filósofo não deveria buscar apenas aplausos (vide os midiáticos mencionados por você). E, sobretudo, não prejulgue minhas leituras ou minha formação acadêmica; nem os seus nem os meus legitimam previamente nossa escrita. Quanto aos demais adjetivos a mim dirigidos, não levei a mal, e agradeço: Dostoiévski, em seu conto Bobok, escreveu que os mais inteligentes chamam a si mesmo de imbecis ao menos uma vez por mês. Um abraço.

    • 25/06/2017 at 17:13

      Everton, minha resposta continua a mesma, só que agora com mais ênfase. Já disse, textos acadêmicos estão na parte dos papers. Agora, sobre adjetivos a você, você mesmo os deu ao não entender o que ocorre com um blog. Everton, sinceramente, você está com problemas graves, mentais, não é possível que não compreenda a simplicidade de artigos de um blog e suas divisões. Se olhar o blog com mais calma verá que a uma parte para papers, e que os textos diários, do núcleo comum, são efetivamente simples. Agora, sobre serem retóricos, isso é um elogio.

  3. Everton Pacheco
    24/06/2017 at 22:26

    Não vi um argumento sequer nesse texto. Há somente opiniões, algumas melhores, outras piores. Valeria para uma daquelas divertidas conversas de bar, nas quais se falam besteiras recheadas de meias verdades, e todo mundo ri. Para um suposto filósofo, é bem pouco. Por favor, Ghirardelli, não se transforme em um novo Olavo. Ainda dá tempo, espero.

    • 24/06/2017 at 23:04

      Everton, dá uma olhadinha no meu currículo, nos meus livros, depois, comece a entender o que é um blog, feito isso, termine o ensino fundamental. Feito isso, pode voltar. Por enquanto, não deu. Daqui vinte anos estudando e parando de ser imbecil, comece a ler a parte do blog onde há artigos, a parte de papers. Aí você vai levar mais 60 anos para entender.

  4. Rodolfo Peroche
    15/05/2017 at 15:34

    Me lembra Renato Russo…..o povo brasileiro e um povo ressentido…

    • 15/05/2017 at 15:46

      Rodolfo, nada sei sobre Renato Russo. Agradeço sua leitura.

  5. Hammer
    05/05/2017 at 22:05

    pondé carnal bial…monte de viados bezuntando uns aos outros com leite de rosas…pra cima da vagabundagem poliçada!!! Pau nelles!!!

  6. LMC
    26/04/2017 at 16:51

    E o MTST do Boulos vai tentar
    fechar os aeroportos de SP na
    sexta durante os protestos
    contra a reforma da Previdência
    junto com os aeroviários.Essa
    notícia acabou de sair no site
    da Folha.Bzzzzzz……

  7. LMC
    26/04/2017 at 11:18

    Dizem que o brasileiro não sabe votar.
    Os eleitores de Fernandinho Holiday,
    Bolsonazi e os políticos da lista do
    Fachin que o digam.kkkkkkkkkkkkk
    kkkkkkkkkkkk

  8. Orquidéia
    25/04/2017 at 08:31

    Nosso jeito “cortês” é parecido com o niilismo do japonês do Japão, pelo fato do país deles ter sido alvejado por uma bomba atômica?

    • 25/04/2017 at 08:46

      Eles ficaram niilistas por causa da Bomba?

    • Orquidéia
      25/04/2017 at 22:13

      Li sobre isso em algum lugar,prof.,tomara que não tenha sido o sr.a falar no caso.

  9. Hilquias Honório
    24/04/2017 at 15:46

    Exatamente. É muito choro pra um país só. E fica mais engraçado quando vem daqueles que se julgam machões.

  10. vera bosco
    24/04/2017 at 12:13

    Legal ter mencionado o patrono da KKK .

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