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20/11/2017

O óbvio de Antonio Gramsci


Este artigo é indicado para o público em geral

Em um belo artigo na Folha, onde é seu diretor máximo, Otávio Frias Filho escreveu sobre Antonio Gramsci. Disse o óbvio. Mas como não falaria o óbvio? Gramsci é o autor do óbvio. O que Gramsci ofereceu aos comunistas como novidade, justamente contra certo tipo de leninismo ter se tornado fã do golpe de estado ao invés da revolução, nunca foi uma novidade para historiadores e filósofos. Toda luta política só é uma boa luta se é uma luta cultural.

Essa fórmula é óbvia porque qualquer aluno de colégio aprende que os romanos dominaram os gregos politicamente, mas que foram por eles dominados em todo o resto. Ao fim e ao cabo, Roma manteve-se como capital política, mas os filhos de suas elites iam para Alexandria, se queriam estudar medicina e as matemáticas, e para Atenas, se queriam estudar filosofia e retórica. Na verdade, o domínio de Roma sobre o mundo nunca foi outro senão a recolonização do Ocidente pela liga greco-macedônia, ou seja, o império de Alexandre, aluno de Aristóteles.

Também no colégio aprendemos o exemplo direto, positivo, diferente do exemplo Grécia-Roma: o da Revolução Francesa. Esta é o símbolo da “revolução burguesa”, mas assim é exatamente porque se integra no movimento de outras revoluções: a Independência Americana, a anterior Revolução Gloriosa e, enfim, a “revolução industrial”. Nada disso teria ocorrido sem as transformações culturais vindas com as Grandes Navegações e, depois, com o Iluminismo.

Quem frequenta a escola aprende essas coisas lentamente, de modo a poder refletir, e entende a mediações entre cultura e política. Quem aprende sem a disciplina dos anos escolares, na verdade não aprende. Perde-se no não entendimento das mediações.

Hoje em dia há uma patuleia da direita que ouviu falar de Gramsci, mas não fez o colégio e não tem ideia de como a cultura funciona. Assimilaram essa ideia, que acreditam ser de Gramsci, de que a cultura muda a vida, mas por conta da falta de estudos escolares encaixaram tudo isso numa teoria da conspiração. Abre-se espaço para o tolo e infantil. Gente assim diz que os comunistas (existem comunistas!) desistiram de tomar o poder, e agora, numa grande reunião feita não se sabe onde (há os que localizam: “Moscou” não existe, então, há o Fórum de S. Paulo!), eles decidiram que vão falando aqui e acolá de temas tabus, e de tanto falar as pessoas vão se acostumando, os tabus vão caindo e … pimba! eis que um dia amanhecemos no “comunismo”, ou seja, um lugar onde não existe família (todos são gerados pelo estado, num casamento entre crianças e adultos, o reinado da “pedofilia”), onde não existe mais homem e mulher (todos viram hermafroditas) e, enfim, todos serão roubados em suas propriedades e ficarão 24 horas por dia vendo museus com imagens de sexo. Tudo adrede preparado pelos “comunistas” da “nova ordem mundial”. Assim, para esses infantilóides, o bom é não falar sobre nada que seja novo, pois tudo que é novo é introduzido na conversa por essea “nova ordem”, para que a população se descuide. O importante, diz essa direita, é cada um ter sua arma, para atirar nas pessoas que começam a falar coisas novas. Os eleitores de Bolsonaro, que agora sabem tudo sobre Judith Butler, já sabiam tudo sobre Gramsci! São doutores. Povoam o Facebook e registram lá, no quadrinho que pede a ocupação: “autônomo”, ou seja, desempregado. (1)

Ríamos dessa gente. Mas o número de escolarizados ou semi-escolarizados no Brasil cresceu a ponto desse tipo de gente estar aparecendo em todo lugar. É gente intelectualmente limítrofe, no sentido médico do termo. Mas limítrofes são capazes de exercer profissões, não são barrados no mercado. Ocupam posições secundárias, mas isso não quer dizer que não possam vir a exercer cargos importantes. Nos Estados Unidos, por um descuido da democracia, elegeu-se um limítrofe desses para a presidência. O preço está sendo alto.

Gramsci é o autor que diz exatamente o contrário de tudo que se possa chamar de conspiração ou “nova ordem mundial”. Aliás, ele combateu essa ideia, quando ela, sem os traços infantis da caricatura feita pela direita desescolarizada, atingiu os comunistas (não pense que os comunistas não compartilhem de teorias da conspiração: a direita e a esquerda acham que a Rede Globo é o satanás que irá fazer o mundo caminhar para a desgraça total). Gramsci foi aquele que notou que não se muda o mundo por conta de uma “Internacional Socialista”, nem a segunda (a social democrata) e nem a terceira (a comunista). Ele buscou estudar o trabalho dos intelectuais que, conscientes ou não, garantiam a hegemonia cultural, e que por isso favoreciam o domínio político do pensamento liberal. Nesses estudos, se deparou com uma história que ele mesmo não soube absorver. Ou seja: as transformações culturais não se dão em um ou dois séculos, elas não tem direção apropriada senão para a coruja de Hegel, que voando após tudo, racionaliza e dá um sentido para a história. Sem o voo artificial da coruja, a história continua sem qualquer sentido. Aliás, muitos passaram a desconfiar  de Hegel exatamente por conta da sua coruja. Mantiveram a ideia de que a filosofia é a apreensão da época em pensamento, mas deixaram de lado o tese de que o pensamento precisa racionalizar fatos no sentido justificatório.

Exemplifico a ideia de uma história que carrega o inusitado.

Nunca imaginamos que a luta da burguesia pela criação da dicotomia vida pública e vida privada iria sofrer o abalo atual, gerado por algo chamado Internet. Há pouco tempo, preservar a intimidade privada era não uma obrigação, mas um direito. Era um direito que veio com a vitória do mundo burguês, moderno, sobre o mundo do Antigo Regime. Hoje é dever ter facebook e escancarar tudo, caso contrário as pessoas acham que se está ocultando alguma coisa da vida própria, e se assim ocorre, há algo de errado. Essa mudança cultural não veio por obra da filosofia ou da política, mas exclusivamente da ciência e da tecnologia, que possuem vida própria. Tanta luta para se criar uma nova forma de lidar com a distinção público-privado, tantas teses, livros e filmes, e então, de uma erupção vulcânica fora da ordem de tal produção cultural direcionada, abre-se o novo. Num prazo de menos de vinte anos a “www” impôs um novo modelo, o do fim da vida privada. A coruja de Hegel corre atrás, quer levantar voo e racionalizar. Quer explicar. Já há gente como o filósofo Byung Chul Han falando da “sociedade da transparência”. Mas, agora, é diferente: ninguém vai acreditar que Han é dono da única coruja. Há mais corujas. Ou seja, há mais gente racionalizando essa situação. Peter Sloterdijk não fala de “transparência”, mas de “espumas, paredes finas”. Lendo Sloterdijk, Lypovetsky fala do “efêmero”. Em suma: realizou-se o abalo da “esfera pública” versus “esfera privada” de um modo que, nos anos oitenta, achávamos que só seria possível por meio de um novo pacto político. Ora, a Internet veio, ditou a nova politica, e encaminhou o mundo para outro rumo quanto ao que pode sobrar da noção de vida íntima. “Não exponha minhas intimidades” virou um frase sem sentido!

Gramsci estudou a cultura para fins políticos, mas ainda estava por demais preso à política. Ou justamente por vir com objetivos políticos, politizou a cultura. A política não comanda o que imagina comandar. E se olhamos a cultura pela ótica da política, não a entendemos.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 05/11/2017.

Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

(1) São aqueles que acham que sabem algo de marxismo, de Gramsci, e inventaram o termo “marxismo cultural” – que é exatamente essa caricatura exposta neste texto.

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6 Responses “O óbvio de Antonio Gramsci”

  1. Emisson
    06/11/2017 at 12:54

    Professor. Por onde começo ler Gramsci? Que livro?

    • 06/11/2017 at 13:29

      Emisson, o textos sobre os intelectuais é sempre o mais produtivo, principalmente se o pensarmos junto como que Sartre e Weber fala dos intelectuais.

    • Emisson
      06/11/2017 at 13:33

      Obrigado professor.

  2. Eduardo Rocha
    05/11/2017 at 21:01

    É possível ver essa luta política cultural na URSS? Estados menores que se dissolveram e passaram a ser “menos russas”? Ou as mulheres agora em alguns países árabes poderem dirigir, fazer esportes, talvez votar. O que falar de alguns (não raro pessoas de direita) acharem que a Europa vai ser islâmica em 20 anos e que essa expansão islâmica além de cultural irá para locais públicos, privados, trabalho, espaço territorial?

  3. Márcio
    05/11/2017 at 18:09

    O que é “marxismo cultural”?

    • 05/11/2017 at 18:24

      Nada, Márcio, apenas uma invenção de tontos desescolarizados. É o que ridicularizei nesse texto, a direita tola lendo Gramsci, ou seja, lendo outros de direita que falam de Gramsci.

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