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27/04/2017

O novo belo da sociedade positiva – Byung-Chul Han e a vida lisa


“O polido, o delicadamente limpo, o liso e impecável é a senha da identidade da época atual. É o que coincide nas esculturas de Jeff Koons, no Iphone e na depilação brasileira”. Esta observação abre o livro do filósofo germano-coreano Byung-Chul Han, Die Errettung des Schönen (A salvação do Belo) (Fischer Verlag, 2015), ainda não traduzido para o português. De certo modo, a frase dá o fio condutor para o resto do texto. A base teórica continua a mesma da dos outros livros deste filósofo: a falta de negatividade da nossa era.

O fenômeno que Han descreve e investiga, ao menos de um modo geral, não é estranho ao que Agamben aponta como a desoneração da “vida qualificada” e o advento da “vida nua”, não é muito diferente do que Lipovetsky descreve como “aligeiramento” das relações, nem é distante do que Sloterdijk mostra na “sociedade da leveza” inerente aos “espaços de mimo”. Além disso, resulta também em pontos de contato com o “narcisismo” investigado por Lasch e a “sociedade do espetáculo” de Debord. Cada um desses seus autores tem a sua base teórica própria, mas todos eles, de uma forma ou de outra, sabem que nossa sociedade atual é uma “sociedade de mercado” e de “consumo de massa”, e que se não notamos isso como deve ser notado em toda e qualquer teoria da modernidade, ficamos apenas com uma narrativa manca.

O vocabulário que Han utiliza para a nossa sociedade, configurada pela mercadoria e pelo super consumo, é o de “positivo” e “negativo”. Nossa sociedade não tem entraves pois, de fato, é de sua natureza não barrar o fluxo das mercadorias e, portanto, da informação e do capital. Desse modo, prefere antes a diversidade que a alteridade, antes a diferença que o distinto e, enfim, antes o liso que o rugoso. O positivo se impõe e o negativo bate em retirada. A estética de nossos tempos é, para Han, uma apologia do polido, do liso, do não rugoso e do pornográfico no lugar do erótico. Trata-se do império da imagem digital e não mais da imagem natural que podia regozijar-se no belo ou no sublime ou em ambos conjuntamente. O próprio belo só é visto como belo se puder ser algo do tela do Iphone, se  vier a ganhar o padrão das esculturas de Koons e das peles depiladas das mulheres brasileiras que, enfim, não poupam mais nem as partes recônditas. Nenhuma dobra ou rebite, nenhuma emenda. O tempo das pedras do caminho deve ficar para o passado. As vias são asfaltadas até o dia em que puderem ser completamente aéreas – deslizantes.

O mundo só é mundo, posso dizer, se a inércia impera, uma vez que o que ela precisa, anunciou Galileu na entrada da modernidade, é uma superfície sem atrito. Nesse pacote veio uma igreja sem santos, uma sala de jantar que se pareça um escritório, um cinema pornô sem cenário. O mundo da democracia liberal é um mundo sem atrito. A tolerância pedida por Locke evoluiu para a suavidade exigida pelas florestas decepadas. Todo e qualquer atrito deve estar do lado de fora do Ocidente, na fronteira. Por dentro, o Ocidente não pode apresentar sombras, treliças ou burcas, mas deve seguir o projeto iluminista ditado por Descartes, o império do “claro e distinto”. Rugas, desvios, barreiras e negatividade não são bem vindas nesse mundo que tornou pejorativa a palavra rococó. Trata-se do mundo em que até professor de filosofia pede para o estudante que pegue e destaque “os pontos principais do texto” ao invés de problematizar o texto e fazê-lo crescer.

Pensando nas observações de Han, ponho minhas cartas na mesa: as últimas rugas existentes eram as do teclado e as dos rostos das mães. Ambas desapareceram nos últimos anos. O teclado com saliências foi substituído pelo pornográfico e bem liso aparelho touch; os rostos da mães, e até de avós, foram autorizados a se plastificarem como os de qualquer estrela da TV. Sem rugas não se conta história, nem é possível demarcar espaços. As mães se confundem com as filhas e as mensagens podem ser mandadas por cães e bebês. O pensamento se transforma no “vá direto ao ponto”, ou seja, no simples e liso, e o simples e liso também abocanham o belo, que não deve fazer pensar, mas apenas ganhar um “curtiu” ou “não-curtiu”. A própria democracia muda de rumo, os jovens querem resolver tudo em forma de plebiscito, como se a vida política pudesse ser um grande parque de Pinochet, decidindo coisas nos moldes do “fica ou não fica na casa” do BBB, ou “like it” ou “not like it” do Facebook. A linguagem se simplifica como a superfície lisa, e não à toa o presidente americano com menos vocabulário entre todos os outros é o atual, Donald Trump, o homem da esposa lisa, completamente plastificada. Ele é o homem de um só ideia: “America First”.

A própria subjetividade fica lisa, perde interioridade, submete-se a uma simplificação do aplainar e do polir. Desse modo, não à toa surgem as terapias em que o terapeuta não intervém, as pedagogias da abstenção, o culto religioso do repetitivo, a homilia da leitura sem hermenêutica, a aula em forma de palestra stand up, os meios de comunicação de todos com todos sem mediação e, enfim, a possibilidade de não usarmos os outros sentidos senão o tato. Todos se tornam infantis, ou seja, os infantes, os que não falam. São os que, procurando o liso, só podem tocar. A geração touch.

Aquela velha lição de nossas mães do começo do século XX, que fazia a criança colocar as mãos para trás quando de visita à casa estranha, de modo a não tocar em nada, já não existe mais. As mães agora, elas próprias, tocam em tudo. O próprio sexo, que preferia o beijo sem as mãos, agora se tornou o sexo touch, ou seja, a masturbação de mulher e homens solitários ou, quando juntos, masturbando-se uns ao outros de modo rápido. Tudo é preciso jorrar sem entraves. Exige-de da mulher o gozo com jorro, como o do homem! Canais positivos. Desobstrução geral. Transparência de tudo.

Sem entraves, sem o negativo, não formamos uma subjetividade distinta, mas sempre igual – o distinto é distinto, não é o simplesmente diferente ou diverso. Como disse, agora vale antes o diferente que o distinto. O liso é também algo que, se não é só para o toque, mas para a visão, já não tem qualquer objetividade ou entrave, pois se torna no seu polimento praticamente um espelho. Sempre devolve ao sujeito o próprio sujeito, mas funcionando como elemento do liso, como superfície, e não como self. Uma sociedade polida é, nesse sentido, uma sociedade acolhedora do narcisismo de nossa época.

Se o tato é então o sentido imperativo de nossa época, temos de voltar a Heidegger. Ele viu a nossa época como a época do sujeito que é sujeito como homem, como manipulador. Ele viu o problema da técnica enquanto expressão do conhecimento moderno, ou seja, a ciência. Sempre quando falo em Heidegger, não posso deixar de apontar o monstro com os olhos nas palmas das mãos, do filme O labirinto do Fauno. Ele é a criança crescida da geração touch. A geração que não sabe deixar o belo vir e o sublime ocorrer. Quero estar bem rugoso, para infernizar essa geração quando ela estiver no poder. Pois sei bem que se trata de uma geração do profanar.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo, 31/03/2017

Gravura: obra de Jeff Koons.

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Filósofo