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17/12/2017

O intervencionista é um doente? Por uma nova teoria do neofascismo


Após a Segunda Guerra Mundial a psicologia social, a filosofia social e a sociologia tentaram de toda maneira explicar não só o fascismo, mas a própria “personalidade autoritária”. Tudo se fez para identificar o que teria produzido o nazismo. As explicações a respeito do jogo da política imperialista que isolou a Alemanha não bastavam mais. Servia para os historiadores políticos, mas não para o resto da comunidade acadêmica. O jogo da política imperialista podia explicar o nacionalismo alemão, mas não a barbárie do Holocausto.

A Escola de Frankfurt buscou explicar o fascismo em geral como fruto da reificação produzida por uma modernização rápida demais. Aliás, uma explicação que não estava em total desacordo com Heidegger e nem com as imagens de Tempos modernos (Estados Unidos, 1936) de Chaplin. A ideia básica era a de que o capitalismo trouxe parte da Alemanha para a vida sob tecnologia de modo muito rápido, não coadunável com a vida da maioria da população, habitantes de zona rural que se viram tão objetos quanto as máquinas que dominaram as cidades e tudo mais. Assim, os alemães logo se sentiram como meras peças, e não entendendo muito bem sobre o que o destino lhes tinha reservado, desejaram de toda maneira algum vingador que lhes devolvesse a importância. O partido nazista prometia isso. Dizia que ia submeter os ricos, em geral judeus, aos verdadeiros alemães, aqueles da raça pura. Feito isso, cada alemão, cada patriota, voltaria a ter a sua importância uma vez que a própria nação voltaria ao podium. Foi assim que as fileiras do nazismo foram preenchidas com o tipo Zé Ninguém, o fracassado na cidade, aquele que veio do campo e não entendeu nada do que viu, ou os simplórios de todo tipo que, como o próprio Hitler, não conseguiram se adaptar ao moderno. Aliás, Hitler é o caso mais significativo. Ele foi um pintor que jamais conseguiu pintar senão o realismo barato, medíocre, e nunca entendeu o expressionismo ou impressionismo. Veio dele e de seus comparsas a ideia de chamar a arte moderna de “arte degenerada”. Sutilezas intelectuais não eram a especialidade dos nazistas. Eles eram toscos.

Hoje, não se trata mais de explicar o nazismo, mas sim o neonazismo. As explicações da Escola de Frankfurt não estão fora da jogada. Mas elas já não se mostram eficazes quando nos deparamos com juventudes neonazistas em vários lugares do mundo, em graus variados, e que já vivem há tempos no mundo modernizado e tecnológico.

A ideia de que os neonazistas na Ucrânia ou mesmo na Alemanha tem algo em comum com os que defendem intervenção militar aqui no Brasil não é descabida. De fato, quando olhamos o perfil dessas pessoas, percebemos fracasso no amor ou no trabalho ou na escola. Os estudos estatísticos continuam confirmando a tese de que o neonazista e o autoritário são os fracassados no sistema moderno do capitalismo regido pela democracia liberal. O filme estrelado do Edward Norton, American History X (Tony Kaye, escrito por David McKenna, Estados Unidos, 1998) ainda é um bom retrato. A competição perdida é o traço fundamental do indivíduo da extrema direita. Mas o problema é que o fator “vida alheia ao capitalismo tecnológico” não existe mais. O neonazista hoje parece alimentar suas frustrações de algo maior que os malefícios da transição da vida agrária para a vida urbana.

É por conta disso que lanço mão da noção de indivíduo moderno de Peter Sloterdijk ([1999] Ensaio sobre a intoxicação voluntária. Lisboa, Fenda, 2001). Para o filósofo alemão a individualidade moderna se caracteriza pela possibilidade e efetivação da experiência. O indivíduo moderno é moderno, é indivíduo propriamente dito, uma vez que coloca a conservação de si acoplada a algo que pode até negar a conservação, que é a intensificação de si. O indivíduo moderno ou, de certo modo, o indivíduo tout court é alguém que lança tendências, faz experiências consigo mesmo, intensifica sua vida até o ponto de se parecer com um suicida feliz. O indivíduo moderno é o homem do Renascimento rumo aos nossos tempos, os tempos em que cada um é incentivado a ser um designer de si mesmo. Ora, se posso considerar essa noção de indivíduo, posso levá-la para o campo de hipóteses a respeito da frustração que está na base do neofascismo, em especial o atual. Afinal de contas, contemporaneamente, esse indivíduo moderno não se realiza para uma boa parte de pessoas.

Intensificação de si como base da individualidade só pode ser conseguida por quem realmente tem poderes para a experimentação – o auto-lançamento em identidades novas que torna cada um de nós algo mais que o indivíduo, fazendo-nos sujeitos. Ou seja, não se trata de coisa para medíocres, não é algo à mão daquele que está em seu canto, sempre subalternizado, incapaz de viver as inúmeras identidades sociais cambiáveis, expostas potencialmente às mãos dos adolescentes. Não tendo aptidão para essa recriação pessoal e identitária a fim de experiencias de intensidade, muitos jovens podem simplesmente optar pelo desejo de destruição desse mundo moderno. Brota-lhes a opção da criança birrenta diante do brinquedo que não a obedece: quebrá-lo. As várias minorias que mostram identidades novas, os grupos urbanos vários que são capazes de se mostrarem criativos e potencializadores de experiências, são então os odiados pelos tendentes ao neofascismo. Assim, cria-se o fracassado recolhido, que odeia o moderno, que odeia quem pode realizar a identidade moderna mesmo no mundo contemporâneo, o que de fato não pé nada fácil. E surge também aqueles que, por esse mesmo motivo, pensam poder ter suas experiências de pseudo-intensificação participando do próprio grupo de fracasso, o grupo neonazista.

A frustração diante do novo projeto de indivíduo moderno, que é a intensificação de si, gera o fracassado típico de nossa era, o frustrado não só no amor, na escola e no trabalho, mas fundamentalmente o frustrado diante do que lhe parece a nova regra, que é a possibilidade de viver novas experiências. Esse frustrado se recolhe então em grupos na Internet, em geral grupos que expressam ódio e a total impotência. Podem ser grupos de evangélicos ultra conservadores, grupos terroristas, grupos de caça a algum demônio (pedófilos) ou simplesmente grupos neonazistas que recriam a “supremacia branca”, como nos Estados Unidos, ou que recriam a adoração de pseudo-homens fortes das Forças Armadas, como nos movimentos intervencionistas no Brasil. É interessante notar que esses grupos possuem em comum o ódio aos gays, aos travestis, aos trans, aos artistas, aos intelectuais etc., bem como escolaridade fraca. Todos que se mostram intensificadores de experiências por suas próprias individualidades e aquisição de identidades maleáveis, são os odiados pelos neonazistas atuais, os que não conseguem ter criatividade e coragem para viver experiências identitárias de intensificação da vida. A vida no fluxo da “vontade de potência” é o elemento odiado pelos frustrados das fileiras da extrema direita atual, no mundo todo. E nós aqui, sabemos, já fazemos parte do mundo há algum tempo.

O intervencionista brasileiro é, então, um caso patológico? Não! Ele não tem tratamento. O que se pode fazer socialmente é apenas expandir as chances sociais para todos,  mas sempre haverá esses grupelhos neonazistas de fracassados, que irão sempre pedir que algum pseudo líder, tão fracassado quanto eles, façam alguma coisa em termos de vingança. Eles querem se vingar do mundo que os empurrou para o gueto dos não aceitos. É interessante notar que o rosto dessas pessoas, já na identidade do Facebook, mostra isso – são os eternos losers. 

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 24/09/2017

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11 Responses “O intervencionista é um doente? Por uma nova teoria do neofascismo”

  1. Thiago
    29/09/2017 at 05:53

    Rapaz… a figura do “suicida feliz” é precisa demais. Juntaste a intensificação de si com o ideal consumerista de felicidade.

    Porra… … se um dia eu quiser utilizar essa expressão, por favor me conceda.

    Agora, me surgiu uma questão curiosa em relação à ressignificação do nazismo, o neonazismo.

    A nomenclatura “neonazismo” não seria obsoleta e perigosamente preguiçosa em tempos de decantação das narrativas históricas e recentes? Explico. Tirania por tirania o mundo tá cheio de história pra lembrar e algumas acontecendo, independentemente da orientação política e ideológica.

    Como disseste, a Escola de Frankfurt está (semi) ultrapassada porque as circunstâncias mudaram em relação ao objeto de estudo. Superada a ausência ou hiper-restrição da experiência de intensificação de si pela atual e histórica plenitude material e tecnológica por todos os lados, bandeiras e agremiações, pergunto: seria coeso aplicar a fomentadora intolerância inerente desses dois movimentos para apenas um lado político e/ou ideológico? Explico. O nazismo era extrema direita. Ponto. Já o neonazismo não seria apenas uma alcunha repaginada de símbolos e pautas já conhecidas por todo mundo?

    Não me refiro aos movimentos de rebeldia ao status quo ou dissidentes, mas a movimentos originais similares exclusivistas em essência como o da supremacia branca, em diferentes segmentos sociais, seja na religião, em partidos políticos, etnias, etc.. Sei lá, parece tudo coisado. A “banalização do mal” se difundiu.

    O ponto – e meu receio esbugalhado – é que não me parece ser mais um movimento exclusivo de uma extrema direita em sentido clássico.

    Ainda mais quando o conceito de esquerda me parece em franca desvinculação da política rumo à moral, sendo remodelada para a identificação da ideia de direitos humanos. O que causa uma puta confusão e óbvia resistência por justamente os direitos humanos não serem por gênese exclusivistas, que dirá sectário.

    Não haveria um engodo hermenêutico e ardiloso quanto ao direcionamento exclusivo do neonazismo para a extrema direita?

    *Para não fugir de um elemento central do artigo, me parece que o pedido de intervenção militar é “apenas” uma entre muitas outras insanidades que vão se agravando da categoria Equívocos à categoria Aberrações.

    **achei pertinente a aplicação da teoria do Sloterdijk à época do nazismo, mas não de Frankfurt à atual. Estaria correta?

    • 29/09/2017 at 09:17

      Não digo algo correto ou não correto nesses casos, apenas acho que é preciso sempre “ouvir uma segunda opinião”. Agora, realmente não entendi você querer insinuar que nazismo (a expressão neonazismo pode ser substituída por nazismo no artigo – nazismo não se caracteriza por tirania, mas por supremacia racial e hierarquia) não são de extrema direita. O nazismo é a extrema direita, nada é de extrema direita a não ser isso.

    • Thiago
      29/09/2017 at 13:07

      Ué? Mas o Nazismo foi um regime tirano com os elementos hierarquia (“pleonasmo”) e supremacia racial, além de, como disse, ser de extrema direita.

      De fato “nada (ser) de extrema direita a não ser isso”, tampouco ignoro a retomada dessa doutrina, o neonazismo.

      Durante a leitura do teu artigo, pensei se seria só isso mesmo ou se atualmente o neonazismo seria realmente o único problema, o principal problema, o maior dos problemas, ou se a retomada da tirania é que é o x da questão; porque não é só o neonazismo que está dando as caras (esse é de fácil identificação), mas essa onda antidemocrática na qual “se vc não pensa igual a mim, vc não presta e, se possível, suma”.

      Não sei se somente o medo tá causando esse tipo de comportamento de um certo estranhamento de alta combustão. A concordância plena que antes se aprimorava por um longo convívio, está virando critério inicial nas novas relações. E a internet é o canal dessas interações; capenga ao toque. Os likes do facebook são um inocente indício dessa ânsia pelo pleno em sentido total e imediato, que talvez tenha a ver com a intensificação de si replicada em pares, potencializada.

      Lembrei daquele vírus da Matrix que se multiplica anulando a identidade dos outros para num modo horda de doppelgangers dominar.

      Por mais estranha que essa reflexão como nota de advertência pareça, ser mais atento às nuances do cotidiano “vis-à-vis” do que os berros que o vento leva, ou se ater exclusivamente à guia do noticiários, é substancial.

      Tô é com um pressentimento ruim dessa coisa pelo total.

    • 29/09/2017 at 16:46

      Neonazismo não se define por tirania. Seria loucura chamar qualquer comportamento tirânico de neonazista. Agora, sobre intolerâncias em geral, eu não falei, falei especificamente do comportamento neonazista.

  2. LMC
    27/09/2017 at 12:01

    Ainda bem que largaram mão
    daquele delírio do Lula Lelé
    do Brasil estar no conselho
    de segurança da ONU.Não
    conseguimos cuidar da
    segurança no RJ.E outra:
    já imaginaram se o Bolsonazi
    fosse Presidente?Brincar
    de polícia do mundo é
    coisa de país rico.

  3. Ribeiro das Neves
    25/09/2017 at 20:54

    A Escola de Frankfurt teve lá seu papel nos estudos sobre o autoritarismo, ainda mais que alguns dessa escola ou talvez seus principais pensadores tiveram por perto de algum modo a experiência do nazismo.
    Tomara que a mentalidade conservadora não se crie no Brasil, pois infelizmente muita gente tem sido levada por certo rancor as diferenças. Acho que as Ideias normatizantes e de controle social extremado podem produzir um país ainda mais problemático.

  4. LMC
    25/09/2017 at 11:53

    Esses jegues acham que a Venezuela
    é uma ditadura-na verdade é uma
    democracia populista-e ficam
    quietos sobre a Arábia Saudita.
    Sem contar outro fetiche que
    eles inventaram,a Escola Sem Partido.

  5. Guilherme Picolo
    24/09/2017 at 23:25

    As ditaduras conseguem o suporte popular para sua instalação em momentos de grave crise, colocando-se com única opção palpável diante de um quadro de desolação / desilusão coletiva, que normalmente decorre de uma crise econômica aguda / carência material (fome, desemprego) e pobreza generalizada.

    Os ditadores são geralmente hábeis manipuladores, que conhecem psicologia (ao menos intuitivamente) e que conseguem tirar proveito de uma massa empobrecida e desesperada, ávida por encontar um “guia”, “mestre” ou “messias” para depositar suas esperanças e dores, assim como um “culpado” para descarregar seus ódios e frustrações.

    O primeiro passo do ditador de “sucesso”, como mostra a História, é se colocar como a novidade “contra tudo o que está aí e sempre deu errado”, depois afirmar-se como única opção política possível, prometendo soluções mágicas e imediatas para problemas conjunturais complexos; e a seguir “provar” para seu público que as soluções legais e ortodoxas “não dão certo”, elegendo o inimigo público número um a combater, que pode ser uma etnia (judeus ou imigrantes latinos, por exemplo), um país estrangeiro, classe ou segmentos da sociedade.

    Uma vez que conquiste algum poder, não raro o ditador padrão lança medidas populistas e usa a noção depravada de democracia para destruir a as próprias instituições democráticas (vide Maduro e suas alterações na Constituição venezuelana).

    O sucesso de Mussolini é emblemático: colocou-se como o grande líder em meio à miséria absoluta da Itália e à decrepitude moral da família real (Victorio Emmanuele), em momento de conturbação política, prometendo restaurar o “orgulho romano” (apelo psicológico).

    Até morrer, eu tinha uma tia que falava sobre Mussolini: que ele foi ruim, mas que ao menos drenou os pântanos para o plantio, colocou os trens para funcionarem e que servia chocolate como merenda nas escolas…

    • Antônio Oitibó
      25/09/2017 at 10:14

      Posso compartilha seu texto amigo? Achei muito bom.

  6. 24/09/2017 at 13:33

    Excelente texto.

    • 24/09/2017 at 15:40

      Ajude a divulgar Ricardo, e quando tiver texto para fazer o mesmo, só falar comigo.

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