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19/11/2017

O goleiro Bruno é a minha salvação! Considerações sobre a Síndrome de Ícaro


A indignação das pessoas nas redes sociais a respeito dos selfies com o goleiro Bruno é bem justificável. Por que alguém corre para abraçar um outro e tirar um selfie, quando este outro foi preso por matar sua bela namorada e mãe de um filho seu, cortar seu corpo e dar para o cachorro comer?

Os primeiros selfies com Bruno foram de mulheres. Bem, até aí, nada de novo. A história de assassinos que, justamente por esta condição, atraíram milhares de mulheres é bem conhecida nossa. Serial killers são os mais procurados para casamento. Há dezenas de teorias psicanalíticas para resolver o assunto. No entanto, ha narrativas alternativas. Em especial quando vemos que também homens tiraram selfies com Bruno, e quando notamos que na mesma semana, já com a prisão decretada e sendo mostrado como o maior engodo da história recente, Eike Batista também foi chamado para selfies junto de populares, no aeroporto. Nessa hora, esses selfies começam a ficar mais distante do domínio exclusivo da psicanálise para se aproximar do que pode ser dito dos selfies de Nana Golveia (ex-garota da Banheira do Gugu), sempre tendo como fundo uma catástrofe. O senso comum chama tais pessoas por meio da expressão “sem noção”. Mas é pela união dos selfies dos “sem noção” que talvez a filosofia possa também falar alguma coisa sobre o selfie com Bruno.

O que é um selfie? O filósofo germano coreano Byung-Chul Han diz que se trata não de um sadio amor-próprio, mas “o caminhar por um vazio de um eu narcisista que terminou sozinho”. Em vista do “vazio interior”, ele, o autor do selfie, trabalha em vão para “produzir-se a si mesmo”. “A unica coisa que reproduz é o vazio”. Han ainda acrescenta um segundo ponto, até mais curioso: o detonador do click fotográfico está em conexão com o detonador da bomba amarrada ao próprio corpo, no caso do terrorista. Eis a tese: a agressividade de um narciso, que não tem exterior, só pode ser contra si mesmo, e o selfie auto-destrutivo parece-se com a agressão adolescente contra seu próprio corpo e com o ato terrorista de se explodir e, depois, ter suas fotos nos jornais, ser reconhecido, e ainda por cima ganhar um lugar além do nosso mundo, no qual será eternamente bem aventurado. O narciso dos selfie é um grande carente.

A tese de Han é alvissareira, mas tenho nas mãos alguma coisa a mais, que pode ajudar. A teoria da “sociedade da leveza” de Peter Sloterdijk é uma boa pedida para o caso. Sloterdijk fala da “sociedade da leveza” ou da “desoneração” como o campo no qual a cada patamar alcançado, na verticalidade que segue segundo poderes anti-gravitacionais, mais a vida se torna fácil, e eis que em determinado momento o chamado “pés no chão” somem. Nessa hora, pressentimos que estamos para além da “realidade”. O momento é propício para a cobrança de alguma ontologia, pede-se um novo chão, pois a síndrome de Ícaro tem aí momento crucial. A pergunta que surge é desesperadora. E a pergunta sobre “onde está o chão?”

Será que ainda estou no real num mundo em que tudo se tornou fácil? Nos últimos cem anos produzimos uma sociedade que, mesmo para os pobres, só tem problemas chamados “problemas de ricos”. Temos penicilina, temos pílula do dia seguinte, temos Viagra, temos carros e internet, e tudo isso, claro, com “efeitos colaterais”, mas que sempre são secundarizados como “um preço a pagar”. É como diz o cachorrinho Pipoca na propaganda da Net: “meus humanos podem tudo!”. Sim, se podem tudo, então querem poder também não sair para longe da realidade a ponto de não conseguirem mais distinguir o que é o real e o irreal, o falso do verdadeiro, o verdadeiro do mentiroso. Pois o mundo fica ininteligível quando isso ocorre. O mundo da hiperrealidade assusta. Nessa hora, é bom que eu encontre um ancoradouro. É bom que eu, solitário e anônimo, encontre um ancoradouro ontológico. Preciso garantir minha realidade, minha existência. O selfie junto de quem tem realidade é o melhor meio de mostrar para mim mesmo – sendo eu de fato narcisista – que estou no real, que tenho lugar na Terra. Não sou um vampiro que olha para o espelho e não se vê. Um vampiro narcisista seria a maior tortura de todos os tempos. E de fato, assim é, pois os vampiros são narcisistas.

Fotografo com aqueles que estão na realidade, porque o mundo virtual e da mídia, que funda uma nova ontologia, os está colocando na realidade,  e então minha presença com a realidade é essencial para que eu esteja existindo. Como poderei desconfiar que sou um vampiro se, uma vez no espelho do selfie, estou do lado de alguém que todos atestaram ser real. Há alguém mais real que o Bruno esquartejador, que Eike pilantra e as desgraças da paisagem de Nana Golveia? Não! Se a mídia diz que é isso o real, eu então recobro minha posição no real estando do lado daquilo que tem peso, ou seja, das desgraças da vida, que nos faz dizer “Ah, estou com os pés no chão”.

Com Byung-Chul Han posso explicar o selfie, e talvez Bruno no selfie. Mas levando em consideração a tese do narcisismo do coreano, agrupando-a com a do movimento antigravitacional de Sloterdijk, explico o selfie e também, certamente, Bruno no selfie. Ele, Bruno, funciona como uma linha guia que faz com que nós, como Ícaros, não possamos voar longe a ponto de nos perdermos perto do sol, e cairmos vertiginosamente.  Chamo isso de síndrome de Ícaro, essa nossa preocupação em recuperar o controle de voo, de sabermos que podemos pousar, por que ainda há o chão.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 06/03/2017

 

4 Responses “O goleiro Bruno é a minha salvação! Considerações sobre a Síndrome de Ícaro”

  1. João Ribeiro
    08/03/2017 at 20:20

    Professor, no seu texto “A (in)suportável vida contemporânea”, o senhor fala sobre uma sociedade de espetáculos e da ascenção de tipos como os novos rostos obrigatórios para mim e para o espetáculo que proporciono ao outro quando exibir meu novo rosto. Isso não seria um narcisismo ou egoísmo, muito menos egocentrismo, já que não há um eu próprio. Eu fujo do eu como homem ou mulher que fui, pois a razão e o pensar me mostram o nada, o que é desesperador.
    Assim, como se relacionam os chamados “homens de Pascal”, sem eu próprio, com os selfies que segundo Han são uma espécie de narcisismo?
    Fiquei confuso quanto a isso. Obrigado!

    • 08/03/2017 at 21:42

      João Ribeiro, é necessário ir pensando esses diversos textos. É o que estou fazendo junto com vocês nõ curso aos domingos. Venha junto.

  2. Orquidéia
    07/03/2017 at 07:18

    Fantástico,prof.Ghiraldelli!

    Compartilhei!

    https://www.facebook.com/orquideia.goncalves/posts/2093955280831134

  3. Everaldo Barboza dos Santos
    06/03/2017 at 17:46

    muito bom, obrigado

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