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24/09/2017

O fluxo das camisetas


Em um brilhante artigo da época do governo Collor, a professora Marilena Chauí denunciou a estratégia populista do presidente jovem. Ela apontou para sua prática de vestimenta. Collor mandava recados diretos para seus eleitores, sem mediação de partidos ou porta vozes ou até mesmo de seu próprio discurso, por meio de slogans grudados em seu corpo malhado, através de dizeres em camisetas. A cada dia era uma camiseta com dizeres diferentes. Chauí soube mostrar, naquela época, algo que hoje ganhou conotações mais diversas e mais explícitas, até mais fáceis de interpretar. A relação entre o simplório e o corpo.

Hoje não faz sentido um governante querer se comunicar pelo corpo com seus eleitores, e isso por uma razão simples: todos nós passamos a fazer isso. A novidade disso caiu por terra. Twitamos em nosso corpo. Andamos por aí com camisetas com dizeres que defendem causas. Somos marcas misturadas a causas. Uns são Beneton-anti-racismo, outros são Globo-contra-assédio e assim por diante. Cada mercadoria é substituída pela sua marca e segue um fluxo ainda maior que o da própria mercadoria. De certo modo, a marca-ajustada-a-uma-causa é que é a mercadoria do momento. Trata-se de um fenômeno notado por Lipovetsky e outros no mundo todo, mas falta sobre isso um olhar brasileiro, que possa captar o ridículo de nossas vidas.

Claro que essa marcas podem se utilizar de causas que nos arrepiam, ou que nos despertam simpatia. O mercado onde a mercadoria é a marca-causa sabe-se fatiado; e sabe que a classe média cresceu o suficiente no mundo da abundância e do “consumo como dever cívico” (Sloterdijk) para se dividir entre os que gostam de salvar os macacos por meio da marca da blusa X e os que querem que a Rússia continue como está por meio da marca da blusa Y. Talvez até já exista alguma marca com os dizeres “Só Trump salva Deus”. A maquiagem está em super alta exatamente por causa disso. O corpo fala. Só que não fala mais no sentido dos herdeiros de Reich ou Marcuse, mas no sentido de uma crescente desoneração e reoneração em nível outro. É necessário nos livrarmos do peso da reflexão, e então deixarmos as causas fora do cérebro, na nuvem, para download (descarregar!), e então depois de traduzidas por slogans, recolocá-las em forma de tatuagem para alguns e, na maior parte, em forma de camisetas a La Collor para outros. A reoneração se dá por meio de se pagar a camiseta ou então defender seus dizeres com quem defende realmente uma causa que não está só no slogan. Sem uma mínina reoneração a desoneração levaria à “insustentável leveza do ser”.

A ideia de que os seios e o peitoral podem falar por meio de um twitter na camiseta mostra o império da mídia dos tempos contemporâneos, onde nada pode estar ligado à reflexão, ao demorado, ao saber ouvir. Tudo precisa vir em forma de flash, so o comando de bandos e matilhas. Os Camisas Pretas são substituídos pelos grupos de lindas jovens de camisetas brancas. Mas o fascio ainda é o fascio.

Algumas pessoas que ainda são old school, do tempo que o pensamento era complexo e precisava ser complexo, podem tentar fazer perguntas para os jovens: por que está usando essa camiseta com esses dizeres aí? É uma tentativa de ver a estupidez brotar, mas é também uma forma válida de trazer para o uso do retrovisor aqueles que estão dirigindo em alta velocidade, ultrapassando todos, dando sinal de seta só de vez em quando.

Paulo Ghiraldelli Jr.., 59, filósofo. São Paulo, 05/04/2017

Gravura: camisetas da empresa de Luciano Huck, que diz que ajuda populações em risco com o dinheiro da venda.

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3 Responses “O fluxo das camisetas”

  1. Guilherme Picolo
    16/04/2017 at 17:19
  2. Eduardo Rocha
    07/04/2017 at 15:37

    Paulo, você viu o último texto do Pondé na Folha? “Quanto menos burocrata no MEC, melhor qualidade na educação”. Doeu os olhos.

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