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26/03/2017

O espaço do rosto


Espacializamos o tempo para entendê-lo e dominá-lo. Ele é fugidio, mas nós o enclausuramos modernamente nos relógios. Ferramos o tempo com ponteiros e, depois, com visores digitais. Mas esse tempo assim espacializado pertence ao mundo dos mortos.

No mundo dos vivos, nossa tentativa de apreender o tempo é uma via de mão dupla. Tentamos apanhá-lo, mas ele nos pega. Por sua conta, ele é que nos espacializa, apreendendo nosso corpo, e colocando suas mensagens em nosso rosto. O tempo faz de nosso rosto seu lugar preferido de autógrafos.

A filósofa neo-zelandesa Annette Baier diz que não dá para comer coisas com olhos. Acho muito. Não comeria nada que possui rugas de  carne.

A cirurgia plástica é uma tentativa de ludibriar o tempo dos vivos. O cosmético é outra, menos radical. A boa vida também é uma, mas que requer mais atenção e funciona só preventivamente. A cada ousadia, uma pincelada. A cada covardia, um sulco. A cada decepção um vinco. A cada viagem, new wrinkle. Qualquer tentativa de tapeação do tempo, e eis que ele responde com um artifício moderno: a perda de caráter em troca do ganho da personalidade. Adquiri-se uma máscara a mais, mas sem as expressões de identidade e, portanto, com o caráter possível de não poder mais se expressar. Um novo rosto para velhas ideias nem nos ajuda.

Há vincos no rosto que são como cicatrizes. A musculatura começa a mexer sozinha, como quando está cansada, e eis que após algum tempo, o traço produzido se fixa. Transforma-se numa burrice denunciadora. Pois a cicatriz e a burrice são sinônimos. São marcas do tempo que o fixam, dizendo passei por aqui e neste exato ponto, empaquei. Assim, nosso rosto, é uma produção estética da completa falta de estética e da entrada de tudo que pertence à moral. Nossa porta estética é, no fundo, uma porta ética. Duas janelas, uma porta. Um rosto é uma casa. Lugar de acontecimentos morais e de sustos éticos.

Todo o encantamento do Santo Sudário se fez exatamente por conta dessa fantástica vingança do tempo, que conhecemos bem. Esperava-se recolher não o rosto de Jesus para sabermos como ele era, mas o que se queria era entender de fato como será ao final o nosso rosto ao meio do nosso Calvário. Colocamos o relógio no bolso, no pulso ou no celular, e o prendemos. Não! Ele já deu o troco. A cada dia, ele deixa seu aviso no nosso sudário. Ler isso na pessoa amada é uma arte antes que uma alfabetização. A geologia de rosto é tudo que devemos saber apreciar após cupido ter peregrinado por uma tal região.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo. São Paulo, 18/02/2017

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