Go to ...

on YouTubeRSS Feed

17/12/2017

O corpo liso, esse protagonista contemporâneo


Cresce o número de jovens masculinos, ao menos no Brasil, que não suporta o cheiro de vagina. Não fazem sexo oral com suas parceiras! Além disso, exigem que elas se depilem. A tricotomia é internacionalmente conhecida como produto brasileiro. E mais: entre as mulheres, cresce de modo assustador o “clareamento anal”. Acrescento: o Brasil passou os Estados Unidos em número de cirurgias de partes íntimas. As mulheres não querem que os lábios vaginais fiquem “de fora”. Uma “estética do liso” e do “polido” – já notada pelo filósofo germano-coreano Byung-Chul Han, inclusive quanto ao sexo – se impõe nos tempos contemporâneos. Para ele, não é à toa que estamos na época do sucesso de artistas como Jeff Koons, o homem das figuras tridimensionais em forma de bexigas (Ver meu artigo sobre isso aqui). Estamos agora, de fato, na época digital: tudo tem que ser transparente, limpo, liso, sem rugas. Tudo tem que ser tão polido quanto a tela do computador que, agora, é a tela do celular. O mundo é uma tela.

Faz parte da estética do liso e da sociedade inodora e transparente o movimento de aceitação dos corpos. Gordos e gordas querem ser aceitos. Trans querem ser aceitos. Claro que todo mundo “está no seu direito”. Mas o notável aí é que as pessoas que pedem a liberdade de escolherem seus corpos ainda não perceberam que estão escolhendo bem menos do que imaginam. O rugoso, o de cheiro próprio, o não-escorregadio está proibido. Todo o esforço das academias e das plásticas não é mais pelo fitness desqualificado. O fitness é, agora, muito bem adjetivado, é aquele que impõe a regra dos que não gostam da vagina beiçuda, peluda e com cheiro de vagina. Há uma grande assepsia no ar. Algo como prevíamos nos filmes de ficção científica, quando desenhávamos o ambiente futuro mostrando todas as casas, todo ambiente interno, como um escritório ou sala de espera de dentista. O design do impessoal bateu na porta!

Não temos outra saída senão deixar o mundo mais limpo. Ou fazemos isso, ou perecemos. Um mundo com lixões nem no Terceiro Mundo será permitido. Mas precisamos entender que esse imperativo categórico da sobrevivência planetária está no contexto dessa nossa alteração moral e estética rápida, que implica em, se deixarmos barba, termos de “arredondá-la”, e participar dos famosos “dias do noivo”, que se tornaram obrigatórios! Já não é mais a onda do homem metrossexual, mas sim o império do corpo sem arestas. Tudo tem que ser redondo, oval. Barriga de tanquinho, talvez, mas com gomos polidos. A propagada é clara: a cerveja tem de descer redonda, e todos nós devemos sair do nosso quadrado. Arestas e ângulos? Nem pensar! Isso indicaria dissidência, quebra, interrupção. Nossa sociedade é uma sociedade da pós-história, ou seja, dos lugares em que não pode haver mais interrupção. Nem revolução! Todos comungam do mesmo destino no mesmo barco: o navio da democracia liberal. Não podemos ter ideias fora disso, e não por conta de qualquer “ditadura”, mas por conta do totalitarismo estético, aquele que fez com que pudéssemos nos livrar dessa sensação de sermos como Adão, feito de barro. Barro tem rusgas, muda de cor, pega fungo!

É interessante que não se trata propriamente de uma fuga do corpo. Ainda estamos na era detectada por Nietzsche, quando o eu passa da “consciência” para o “corpo” (a Grande Razão manda na Pequena Razão, no Zarathustra). Nossa identidade é, antes de tudo, nessa nossa época, corporal. Mas adquiriu um elemento novo: o corpo que buscamos precisa obedecer a estética de visibilidade polida de nossa tecnologia. O mundo digital dá o tom, então, temos de funcionar segundo uma estética da história em quadrinhos, no campo da estilização, no ritmo da ilustração de estilo Photoshop. Não à toa uma das coisas que mais agrada os nossos olhos, hoje em dia, é o clipe “Bang”, da bela e construída Anita. O clipe é exatamente um rol de efeitos de onomatopeias de HQs, mas num movimento em que nada que não seja liso possa ser permitido. Se olharmos a própria transformação corporal de Anita, que sofre horrores para ser uma pop star, entenderemos nossa época, e muito bem. Nesse caso, vale a ideia de desoneração, trabalhada por Lipovetsky e por Sloterdijk, mas muito mais pelo último. Não estamos numa época de magreza ou gordura, de altos e baixos, de brancos e negros. O corpo é o principal, mas ele, agora, precisa seguir Jeff Koons.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo 23/08/2017

Clipe HQ, muito bom, de Anita:

Bailarina, de Jeff Koons

 

 

 

 

 

Tags: , , , , ,

One Response “O corpo liso, esse protagonista contemporâneo”

  1. Matheus
    24/08/2017 at 10:17

    Só um detalhe irônico que até uns anos atrás estava em alta homens que faziam implante de silicone nas mãos pra simular veias e tendões não desenvolvidos e dar um ar de “masculinidade” de “mão de trabalhador braçal, pesado”.

    Acho que isso já até parou o legal agora deve ser ter mão lisa de internauta e smartphone-like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *