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26/09/2017

O capitalismo contra a direita


Nos anos trinta do século XX os Estados Unidos descobriram o chamado “novo liberalismo”. A ideia básica era semelhante àquela vinda da social-democracia européia, mas com uma marca profundamente americana, ou seja, um lastro antes da filosofia de Dewey que da de Marx. Por essa época, boa parte dos sindicatos americanos e dos intelectuais já havia se convencido que a revolução bolchevique tinha se desencaminhado. Era até mais fácil ligar Trotsky com Dewey do que com Marx – o que de fato foi feito pelo partido socialista americano.

Na prática política esses novos parâmetros desembocaram no chamado New Deal de Roosevelt. Dewey não apoiava esse homem. Tomava-o como um político embusteiro. Todavia, o destino histórico acabou fundindo o New Deal, o grande acordo americano entre capital e trabalho, com o projeto filosófico social da democracia de Dewey. O liberalismo manteria seu apreço pela liberdade individual, mas ganharia uma face soft, capaz de criar pequenos mecanismos de socialização de modo a alavancar uma classe trabalhadora depauperada. Deu certo. Os Estados Unidos seguiram o curso de grande potência, tornando-se a mais procurada terra de todos os imigrantes do mundo.

Mas a força americana de divisão de riquezas nunca foi atrelada diretamente ao projeto do novo liberalismo, no que ele tinha de mão estatal. A força americana sempre veio de uma tradição anterior, a doação dos mais ricos, e até da classe média, em favor da formação de bens comuns (às universidades e museus à frente) de uma nação para a qual a democracia nunca foi um regime de governo, mas uma situação existência, social, uma experiência civilizatória. A maior parte dos americanos, diferentemente dos europeus e de nós, nunca tomou a democracia como alguma coisa trocável, mas como o terreno sólido sobre o qual o mundo deve estar. Democracia ou barbárie – este foi o lema americano desde sempre. Foi com esse lema que os Estados Unidos enfrentou a maior potência militar do planeta, a Inglaterra, e a venceu por meio de uma revolução de independência. Foi com esse lema que os Estados Unidos atravessaram o século XX, “o século americano”, para o bem e para o mal.

Esse liberalismo soft foi encarnado mais recentemente pela família Clinton e, de modo especial, heroico e profundamente honesto pelos Obama. Não há nenhuma dúvida que esse projeto, especialmente em seus ideais maiores, conquistou o mundo e se fundiu com os ideais de um regime econômico que, para muitos, seria antes seu adversário que seu irmão: o capitalismo. Todavia, quem leu direito Weber e quem entendeu Tocqueville para além de seu suposto conservadorismo, soube muito bem ver que Marx não estava de todo errado ao enaltecer a “missão civilizadora do capital”. A mercadoria precisa, para andar, antes da paz que da guerra. Ela é o arauto da suavização das relações. É o que assistimos agora. A sociedade de mercado associada à sociedade fordista que faz nascer a sociedade de consumo, é também o campo propício para o consumo de ideias e ideais que os europeus, até pouco tempo, viam como sendo de esquerda.

Grandes empresas americanas, sendo elas de proprietários filantropos ou não, têm percebido que o capitalismo deve agir contra a direita política, e que certos ideais da esquerda e do liberalismo soft não são só essenciais ao seu desenvolvimento, mas são, eles próprios, agora, mercadorias ou veículos de brands que são, também, mercadorias. As marcas se vendem pelo seu bom-mocismo. E são as marcas, agora, no regime fordista de consumo de massa, que precisam ser vendidas, não propriamente os produtos enquanto mercadorias. O brand associado ao bom mocismo ou liberalismo soft é a mercadoria.

Sendo assim, ecologia, liberdade de imprensa, proteção ao planeta, feminismo, direitos humanos, proteção à infância, direitos dos negros, orgulho gay, diversidade transformista, pluralidade étnica, diversidade fenotípica oriundas de causas diversas (inclusive patológicas), direitos dos animais, cuidado com refugiados e imigrantes, ligas em função da educação mundial e uma série de outras bandeiras que implicam em consumo diversificado foram incorporados aos brands das empresas, aos ideais de capitalistas, e também, esses próprios ideais, acabaram por se transformar antes em mercadoria mesmo, indo além do mero pertencimento ao marketing dos produtos. Eles próprios abriram novos tipos de mercado. Na verdade, tais ideias e ideais do liberalismo soft se transformaram, eles mesmos, em marketing da própria sociedade de mercado como um todo ou, em termos antes sociológicos que econômicos, rostos da civilização ocidental. Essa democracia associada ao capitalismo e ao lilberalismo soft nos deu um novo mundo. Nenhum grego do tempo de Sócrates, acostumado à democracia ateniense, reconheceria nas democracias dos países ricos de hoje, e que geram a hegemonia de desejos ao mundo – o novo americanismo -, alguma coisa que se pudesse chamar de democracia. Mas que o que temos é democracia, não há dúvida. É a nossa democracia. É o que alguns chamam de a contemporaneidade feita nas grandes bolsas de riqueza, cujos desejos também se espraiam pelos quase pobres que se pensam quase ricos.

Nesse mundo, não há mais espaço para gente como Trump ou Bolsonaro, ainda que, para que exista bobo da corte também fora da Corte, pode-se ter por aí um Erdogan ou um coreano de corte de cabelo esquisito no comando de uma última ditadura do passado. São o esterco engraçado que geram em alguns lugares os malucos que combatem o comunismo ou que se declaram héteros. O liberalismo soft adentrou para o mundo cavado pelos Beatles. A juventude de classe média do mundo todo, de um modo geral, expressa no Rock e na pop music esses ideais todos do Ocidente, inclusive nos países árabes. Trata-se de uma avalanche cultural forte, e que levará os filósofos e outros teóricos a voltar a estudar de modo profundo, se quiserem fazer uma crítica séria da vida contemporânea e do capitalismo. Nossa crítica do capitalismo terá de se sofisticar para além do que pensamos que era sofisticado, ou seja, o neomarxismo herdeiro dos frankfurtianos. É nessa hora que a trilha aberta por Peter Sloterdijk deverá vingar.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 04/07/2017

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14 Responses “O capitalismo contra a direita”

  1. Edielson
    07/07/2017 at 01:28

    há um contrassenso moral no seu texto. Não pode haver influência do comportamento humano em massa, na inexistência de um sócio construtivismo, não é lógico associar a oferta as preocupações do individuo, e sim as realizações, por ex: Alguém que é gay, não vai comprar um smartphone porque o produto é adequado a ele, e sim, porque o produto oferece interatividade a sua própria escolha.
    Você pode até pensar que, moral é discutida a séculos, mais em seu texto, você aborda matéria política global. Não da pra você assinar que é comunista, e querer que todos sejam iguais a você.

    • 07/07/2017 at 03:25

      Edielson, ninguém aqui é comunista, só há uma certeza desse seu texto: você não entendeu nada e, pior, seu escrito não diz nada, é uma confusão total de quem não consegue entender textos não doutrinário. Sócio construtivismo? De onde tirou isso? Você parece não ter a mínima ideia do significado dessa expressão! Termina o ensino fundamental cara. E pára de invocar com gay! Com tanto assunto no texto, foi isso que foi mexer com você? Meu Deus! Só uma pessoa perturbada tiraria a conclusão de que alguém é gay e vai comprar smartphone porque o produto é adequado a ele. O texto não tem nada a ver com isso! O texto não fala de produto, mas de marca, de tendência, de mercadorização e marketing como elementos para vermos comportamentos. Esses estudos estão em dezenas de pensadores do contemporâneo. Putz cara, olha, quer saber, se mate, você não tem salvação não.

    • Edielson
      07/07/2017 at 14:26

      Em primeiro lugar eu não me aprofundei em falar dos gays. Eu deixei bem claro no exemplo que a associação do consumo ao comportamento premeditado do consumidor é ilusório, quando se pensa na origem do mercado. Talvez você pensa o contrario, sendo você um filosofo formado acima do limbo, mas em seu texto, você contextualiza o mercado no comportamento compulsório de quem vende, e de quem compra, se o capitalismo funcionasse assim, ele não existiria, pois não pode haver na venda, uma oferta a um consumidor prolixo.

    • 07/07/2017 at 19:07

      Edielson o texto é claro, mas ele não é para você, é para quem passou pela universidade e está habituado à filosofia social. Você não entendeu, nem vai entender.

    • Edielson
      07/07/2017 at 20:37

      O que você gostaria que eu comentasse?
      Que a economia de mercado atravessa tempos da aurora progressista, que os desafios da atualidade não traz benesses a conservadores e nem a esquerda. Cara, por favor, não existe dicotomia entre tendencia de mercado e produto, o meu comentário foi em cima da sua observação e não da verdade prescrevida.

    • 07/07/2017 at 23:29

      Edielson eu não gostaria que comentasse, meu blog não é para você. O artigo meu é simples, mas mesmo assim você não entendeu. Falta background para você ler filosofia social do modo que faço. Não adianta tentar sem isso.

  2. LMC
    06/07/2017 at 15:24

    Vendo a foto do casal Obama,lembrei
    daquela conversinha dos militontos do
    PT que Obama estava tramando o
    impeachment da Dilma pros EUA
    ficarem com o pré-sal.Não vou nem
    repetir aquela frase famosa do
    Roberto Campos sobre o PT.kkkkkk

  3. evandro sinotti
    06/07/2017 at 00:00

    Tem um erro no segundo paragrafo “Na prática política essas novos parâmetros desembocaram “

    • 06/07/2017 at 08:22

      Sinotti, obrigado por gastar seu tempo lendo minhas coisas. Obrigado pela correção.

  4. LMC
    05/07/2017 at 14:30

    Na página 3 da Folha de ontem,um leitor
    escreveu que não houve nenhum governo
    de direita até hoje,mas,tivemos governos
    socialistas marxistas,fabianos e nacionalistas.
    Que droga que ele usou pra escrever
    essa merda,hein?

  5. Daniel
    05/07/2017 at 00:09

    Professor, como estudar o Capitalismo é interessante pela via do estudo sobre o Cristianismo. Penso que valores como paz, universalidade, comunidade mundial e outros, são capazes de dar uma base filosófica para o Capitalismo. O Capitalismo parece ser o estágio mais atual do plano cristão de suavização. Como você já disse em outros artigos: somos mais cristãos do que gregos e romanos.

    • 05/07/2017 at 00:15

      Meu texto não faz apologia do capitalismo, apenas diz que nossa crítica a ele terá de ser diferente, mais sofisticada.

  6. Luis
    04/07/2017 at 23:07

    Bolsonaro, Olavo de Carvalho, MBL e outros movimentos políticos de direita estão fadados ao fracasso? Gostaria de acreditar que sim, mas nesse momento estão em ascendência. Pegando, por exemplo, o rockeiro de classe média Nando Moura, que sempre fala com dentes rangendo de raiva contra os “comunistas” e os “globalistas”…. E o pior, seu público em sua maioria são jovens, como os do super herói Bolsonaro. Esses jovens vão amadurecer? Espero que seja igual esses fenômenos de internet que logo desaparecem e são esquecidos em pouco tempo.

    Paulo, qual livro do Sloterdijk vc indica para iniciar a leitura desse autor?

    • 05/07/2017 at 00:14

      Luis, você tem essa impressão por tomar as redes sociais da Internet como seu mundo. A própria pesquisa da Folha já mostrou que a direita não sobe. Para Sloterdijk, comece pelo meu livro. Aí você saberá escolher.

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