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20/11/2017

O autoritarismo da Era Pós Autoritária


O nazismo perdeu  a Guerra e ficou desacreditado de vez. Os crimes da direita vieram à tona e o termo fascista se tornou um xingamento. Mas o comunismo ainda teria sobrevida. Em 1989 caiu o Muro de Berlim. Logo depois veio o fim da URSS. Finalmente a última forma de opressão nascida no século XX, o comunismo ou socialismo real, foi para o mausoléu no qual já estava Lênin. A democracia liberal com a sua variante mais libertária de um lado e social-democrata de outro herdaram o mundo. Mas nenhuma doutrina funciona só pelo que tem de nobre, ela logo dá vazão para seus arremedos, suas vulgatas e perversidades. O perigo é quando a parte ideológica da doutrina se sobrepõe à própria doutrina.

A doutrina do mérito e do êxito associado ao risco empresarial sempre foi a base do capitalismo e de sua regra jurídica ad hoc, a democracia moderna ou democracia liberal. Essa doutrina deveria dar base para um mundo criado pelo mérito que não viria de títulos ou do sangue e nem mesmo da posse da terra, mas da competência intelectual e capacidade de aventura. Foi isso que fez os burgueses ou os modernos apostarem no liberalismo como uma água de batismo para o capitalismo. Todavia, toda água que lava alguma coisa se torna água suja, não desaparece só que correu para o ralo. Essa doutrina da meritocracia e do êxito aventureiro continuou, mas também deu subprodutos odiosos, a ideologia caricata do sucesso, sendo este vindo da capacidade de receber aplauso de massa. A ideologia do êxito, nesses moldes, recebeu um empurrão da mídia do século XXI, a Internet e, claro, do modo como se desenvolveram as redes sociais, especialmente o Facebook. A doutrina da meritocracia e da coragem cedeu para a ideologia do sucesso sofístico.

Essa ideologia – no sentido forte do conceito, de falsa consciência – ocupou o espaço vazio na Era Pós-Autoritária aberta pelo fim do comunismo. Ela gestou o autoritarismo da Era Pós-autoritária que vivemos. Esse autoritarismo está calçado na ideia de blindar determinadas pessoas contra qualquer crítica. O instrumento é o psicologismo, ou seja, qualquer crítica é acusada de ser invejosa, movida por ressentimento, gerada por mágoa do fracasso etc. Essa reação é aplicada indiscriminadamente, mesmo contra pessoas que tiveram êxito na profissão e em tudo o mais. É que o êxito tem que ser o êxito na quantidade de público ou, melhor, de puxa sacos. A mídia atual e os mensuradores de Internet favorecem isso. Assim, a partir dos anos noventa, quatro tendências autoritárias nasceram nesse contexto, preenchendo o espaço vazio pela retirada das utopias e, junto disso, alimentado as chamadas “pesquisas de opinião” e “contadores de visitas em blogs” etc.

No setor geral de negócios veio a ideologia do empreendedorismo, invadindo até mesmo a escola. A ideia básica é absurda em si, no contexto capitalista: todos devem ser educados para serem empresários, todos devem ser patrões, todos podem ter sua empresa etc. “Chega de ter patrão”. O capitalismo falando isso! Como pode? É uma mentira, todos sabem. Mas aderem, pois é uma mensagem de caráter psicologista. Apela para anseios de liberdade individual confusos. Liberdade é a liberdade de não ter de trabalhar sob o comando de outro, como se isso realmente existisse!

No setor da moral surgiu a “teologia da prosperidade”. Algo tão poderoso que chegou até a chamuscar a Igreja Católica, pegando alguns padres para se tornarem “artistas”. Nessa teologia, que praguejou no âmbito das igrejas evangélicas, nasceu uma variante manca e perversa do calvinismo. Ter “êxito” virou não um sinal, mas uma obrigação, um dever, e os custos disso passaram a não importar. O gerado então foi uma moral da não-moral. Ser bom tornou-se ser bom no sucesso do se mostrar, na capacidade de sair com o grande carro pela cidade. A riqueza aparente virou sinal de retidão moral. Uma inversão total do cristianismo.

No âmbito da arte veio o “funk ostentação” e derivados. A música passou a ensinar a vanglória imbecilizada. A regra do “beijinho no ombro” dominou a sociedade. As classes populares começaram a procurar “roupa de marca” e isso, no ambiente mesclado ao banditismo, gerou a ideia de andar armado com revolver de cabo de ouro. A droga passou a ser o meio mais fácil de tentar chegar ao campo da ostentação. Arte e droga se casaram mais uma vez, todavia, sem que isso tivesse a ver com entretenimento.

No setor da crítica social, veio o bloqueio de todas as críticas. O crítico passou a ser chamado de invejoso, aquele que critica não porque o criticado está errado, mas porque ele, crítico, gostaria de estar no lugar do criticado. Um absurdo, mas vingou. Afinal, essa seria a posição mais autoritária entre as quatro e, no fundo, base para as outras três. Foi nesse contexto que apareceram pastores falando algo assim e, depois, palestrantes. É útil notar aqui como que autores de auto-ajuda e inclusive professores universitários que se dedicam ao mercado de palestras aderiram a esse discurso, a essa prática. Há alguns que possuem vídeos dizendo que o mal do mundo é a inveja, o mal dizer, etc. É um discurso intimidante e tem sua força na cultura ocidental, pautada pelo mito bíblico de Caim e Abel.

Essas quatro práticas ideológicas corroem nossa sociedade atual. Elas promovem o maior autoritarismo que já tivemos. Funcionam como uma KGB diluída entre nós, como uma Gestapo sempre atenta dentro de nosso próprio cérebro. É a pior censura já criada pelo Ocidente. Em nenhum momento a Inquisição medieval conseguiu ter tantos olhos para o controle de mentes como essa ideologia que faz com que cada um de nós controle o outro por alguma acusação de base psicologista.

Nada mais vale: explicações filosóficas, sociológicas e históricas não servem. Todos se sentem “teóricos”, “inteligentes” ao acusar o outro de uma palavra que eles acham charmosa porque ouviram dizer que vem de Nietzsche: ressentimento.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 19/02/2017

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4 Responses “O autoritarismo da Era Pós Autoritária”

  1. Guilherme Picolo
    21/02/2017 at 20:44

    Atualmente, parece que a métrica do sucesso, ao menos oficialmente, está na embalagem e não no conteúdo, no parecer e não no ser, no fazer crer em vez do saber.

    Lembro que o Eike Batista até 3 ou 4 anos atrás era a pessoa mais admirada pela maioria dos pequenos empresários brasileiros (há pesquisa e tudo mais). Seu livro “O X da Questão” estava na mesa de 9 entre 10 CEOs.

    Só que – justiça seja feita – ele nunca mostrou ser algo diferente do Eike preso em desprestígio em Bangu… sempre fez as vezes do malandrão, meio vendedor de terreno na Lua, diversas vezes demonstrou soberba e imaturidade que não condiziam com um empresário na sua situação; seus empreendimentos nunca passaram de promessas e nunca deram indícios de solidez ou viabilidade real…

    E as relações de promiscuidade com o Poder Público também estavam mais do que evidentes, quer pelos pequenos favorecimentos públicos a políticos proemientes (aqueles que usavam o jatinho particular do homem), quer pelas estranhíssimas linhas bilionárias de crédito subsidiadas e oferecidas sem garantias de pagamento…

    Enfim, não precisava ser nenhum gênio nem veterano da CIA para concluir que tudo ali estava errado e iria desmoronar (talvez a única surpresa seja a prisão do empresário, mas a ruína financeira definitivamente não).

    Aqui em SP, o Maluf, há muitos anos, fez um programa habitacional que construiu meia dúzia de prédios na parte da favela voltada para a pista da Marginal Tietê… o programa foi um desastre e inócuo, mas até hoje ouço de gente que vem a SP e passa por ali: “É por isso que paulista votava no Maluf… olha aí, o cara fazia”

    Daí vem meu questionamento: a versão de meritocracia que querem glorificar no Brasil é um engano planificado ou só um auto-engano coletivo para suportar os dissabores do cotidiano?

  2. Marcio
    20/02/2017 at 09:10

    Belo texto.

  3. Pedro Possebon
    20/02/2017 at 00:49

    Há um tempo um humorista falando sobre sua profissão narrou com estranheza uma constatação ainda mais estranha. Todos os humoristas que ele admirava eram êxitos de massas – a estranheza foi por conta de que nenhum desses humoristas (Chaplin, Monty Python, etc…) faziam um humor propriamente fácil. Por alguns segundos foi possível observar um homem tomando o sucesso como uma constatação de facto sem com isso afirmar a maioridade ou menoridade do objeto com sucesso.
    Mas não é assim que nós pensamos, pá. Talvez alguns apoiadores de Hilary deem vazão a isso quando repetem que ela ganhou as eleições porque teve 2,8 milhões de votos a mais e etc. ignorando o facto do sistema eleitoral não funcionar desta forma.
    É possível até mesmo ouvir ecos disto na educação. Há quem queira determinar as disciplinas que devam ou não existir com base nas escolhas dos alunos.

  4. Daniel
    19/02/2017 at 22:05

    É o antiprofessor. Se o senso comum fala para o professor ensinar como ser “crítico”, Karnal e companhia ensinam o aluno a não ser crítico, ensinam ao aluno escolher o mais fácil, ensinam a enxugar o ensino médio.

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