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16/12/2017

O adeus ao rosto de Deus


Texto indicado preferencialmente para o público acadêmico

Uma das mais significativas diferenças entre o mundo moderno e o mundo antigo diz respeito à face da divindade. Entre as inúmeras religiões, cada qual apresentando seus deuses, a religião de Moisés se destacou por uma esperta singularidade: a face de Deus ninguém vê. Por essa via, a religião judaica se livrou de qualquer competição[1] e elevou seu Deus a um patamar superior aos ídolos infinitamente reproduzidos pela maquinaria da produção de imagens da imaginação humana.

De fato, nos é contado pelo textos sagrados que Moisés tinha um estreito relacionamento com Deus. Mas, mesmo tendo intimidade, jamais o viu. Quando solicitou de Deus que mostrasse a face, seu grande Amigo permitiu-lhe ver apenas as costas, avisando-o que não se tratava de má vontade, mas de proteção. Nenhum homem sobreviveria à visão da face de Deus, explicou este a Moisés. Comentando tal passagem, o papa Bento XVI[2] lembrou que os padres da Igreja tenderam a interpretar o texto como um recado especial aos homens: ver Deus é ver suas costas, ou seja, segui-lo. Nesse mesmo episódio de fala de Bento XVI, ele lembra o salto dado pelo Novo Testamento, efetuado quando os apóstolos perguntaram a Jesus sobre se poderiam ver Deus. Uma resposta totalmente diferente daquela recebida por Moisés foi dada. O mestre afirmou que sim, e que de fato os apóstolos já estavam vendo Deus à medida que olhavam para ele próprio, Jesus. Bento XVI diz, então, optar por interpretar uma tal passagem pela tese de que Jesus se pôs, assim, como o único caminho para Deus.

O ensinamento de Bento XVI repete o básico da doutrina da Igreja Católica: devemos seguir a Deus, como este insinuou a Moisés, e devemos fazê-lo por meio da face de Jesus. E se Jesus se indentificou com o pobre, o doente e sofredor, então o rostos destes seriam aqueles para quem deveríamos olhar ao querer olhar para Jesus e ver Deus. Encontrar Deus nos desgraçados do mundo – eis a tarefa do cristão.

Mas, para além do estritamente religioso e doutrinário, ou mesmo para além da hermenêutica católica, é possível dizer que há nesses episódios pouca continuidade. No primeiro, Deus não se mostra,  no segundo Deus se mostra por uma face específica, não pelas costas. O rosto de Jesus é posto por ele mesmo em pauta. Mas, afinal, qual seria o rosto de Jesus? Sua identificação com o pobre, o doente e o sofredor não é difícil de ser notada em suas parábolas. Todavia, quem enfim confia em parábolas, ou só nelas, para compreender como nossa mentalidade é formada? Desprezar a fala literal de Jesus, para efeitos de filosofia e antropologia, seria um erro crasso. Quando levamos mais ao pé da letra o que Jesus disse, ao gosto do medievalismo, então nos deparamos com as causas do sucesso de Santo Sudário, para além da tara em relíquias ou mesmo para além da venda delas em templos do mundo todo.

O Santo Sudário foi, durante séculos, a foto de Jesus antes da existência da fotografia. Sua capacidade de realizar milagres de todo tipo sempre foi provada pelo milagre de sua própria existência, realizadora do milagre de deixar os humanos todos, em todos os tempos e lugares, verem Deus. Nenhum retrato valeu tanto ou causou tanto rebuliço. Nada anunciou tão bem a era da mercadoria, a do mundo que se tornou a nossa “sociedade do espetáculo”.

Essa nossa sociedade em que a ontologia depende da vitrine nunca fez do espetáculo teatral ou da TV o principal espetáculo. O principal espetáculo é o fato da mercadoria ter introduzido o princípio do espetáculo, a ideia de que não temos que curtir utilidades (o que tem valor de uso), mas simplesmente ficar passivos diante da vitrina, o show da mercadoria (o que tem valor de troca ou simplesmente valor). Uma vez educados para esse prazer quase que puramente estético, onde o aparecer impera sobre a dicotomia ser versus ter, estamos prontos para o mundo moderno.[3] Esse ensinamento de Debord, a partir de Marx, que levamos a sério hoje, só é possível porque na transição dos antigos até os modernos, alguém cumpriu a necessidade de inventar o Santo Sudário e preparar a sensibilidade europeia para o futuro. Hoje em dia, claro, ficamos nós, e o Santo Sudário se foi. Quando?

Quando os renascentistas inventaram a caricatura e, junto dela, os autorretratos e tudo o mais desse tipo, o Santo Sudário começou a perder a sua força. Saiu Deus e nós entramos. Os espelhos como os conhecemos hoje apareceram em seguida e, enfim, quando os grandes navegadores os trouxeram para os indígenas (pouco importa a verdade disso), eles estavam muito mais impressionados com seus rostos espelhados que os próprios indígenas. Estes não queriam ver faces de ninguém, não haviam sido proibidos de ver deuses e muito menos estavam interessados em qualquer coisa como Santo Sudário. Se pegaram espelhos oferecidos foi por conta desses poderem reproduzir como um raio melhor a própria luz do Sol. Aliás, este, o Sol, sempre foi um deus que nunca se ausentou nem se fez de mais importante, até porque sempre foi de fato importante.

O advento do espelho foi logo após o auge do Renascimento e seu cultivo do auto-retrato que, enfim, continuou por mais tempo, misturando-se à pintura encomendada de rosto. Mas o ponto de chegada dessa flecha histórica é o selfie, o chamado espelho mágico, o espelho da Rainha de Branca de Neve. É a tentativa desesperada de recuperar o que foi perdido pelo Deus que dá as costas em atitude de carinho e pelo Deus do Santo Sudário. É que a imagem das costas de Deus e a imagem do Santo Sudário nunca foram geradas senão em um ambiente interfacial. Não diziam respeito a um Deus vaidoso, solitário no espelho, mas uma esfera íntima, uma construção de interfacialidade importante, a de ressonância entre o divino e o humano. As costas de Deus foram oferecidas numa relação íntima de proteção. Mesmo sem a face, a relação ocorrida era de interfacialidade. A imagem do Santo Sudário se fez da mesma maneira, a busca de ter o rosto de Deus para o estabelecimento da interfacialidade com Deus.

Em nenhum dos dois casos a relação da perda da intimidade e das relações se fez valer. Só com a virada para o indivíduo, adquirida na modernidade, os rostos foram separados do seu reino natural de interfacialidade para se apresentar sozinhos, em espelhos e selfies, querendo com isso afirmar como real – para o bem ou para o mal – uma época de solidão. Falsa solidão, pois nunca deixamos de ser duplos. Mas a percepção de solidão, uma vez que temos de gerar imagens de nós mesmos para nos fazer companhia, está aí e não parece ter desejo de ir embora. Sentimo-nos sozinhos e, então, como a Rainha, temos a companhia de falantes que saem de dentro de espelhos, ou seja, de dentro de celulares. É uma bobagem acreditar que o filme Her é um filme de ficção. É nossa vida.

A decadência do Santo Sudário é, não à toa, sintoma de uma era de triunfo dos que “se organizam cada vez mais sua vida na ilusão de que poderiam, agora, sem a participação de um Outro real, desempenhar ambos os papéis no jogo da esfera de relação bipolar”.[4] Trata-se aí, diz Sloterdijk, do caminho curto entre o ‘conhece-te a ti mesmo’ e o “completa-te a ti mesmo’. Inúmeras egotécnicas se fazem surgir para o ideal da vida single. Em nenhum dos casos os próprios indivíduos enxergam o que perderam ao adotar um regime individualista moderno que não se reconhece como perda, embora seus membros sintam falta de alguma coisa.

O rosto de Deus se foi. Ficamos com os nossos rostos. Mas o que ocorreu, mesmo, é que não temos mais conseguido entender que não funcionamos e nem seríamos gente se não fosse pela interfacialidade de nossas relações, de nossa formação, de nossa condição de duplos. Não há rosto que venha nascer de outra coisa (tanto do ponto de vista da ontogênese quanto da filogênese) que não a irradiação da mãe com o filho e vice versa. Não nos rostificamos senão para e pelo outro.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. São Paulo, 19/11/2017

[1] Ver o capítulo um de: Sloterdijk, P. In the shadow of Mont Sinai. Malden (MA), USA: Polity Press, 2016.

[2] Papa Bento XVI. Jesus Cristo “mediador e plenitude de toda a Revelação”. Audiência Geral, Sala Paulo VI, Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013.

[3] Debord, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, p. 18, parágrafo 17.

[4] Sloterdijk, P. Bolhas. Esferas I. São Paulo: Estação Liberdade, 2017, p. 186.

Paulo Ghiraldelli Jr. é Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

Foto acima: Mattia Preti, “Santa Veronica con il velo”, 1655-60 – Los Angeles County Museum of Art (Thx Seulete)

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4 Responses “O adeus ao rosto de Deus”

  1. CRISTINA VALÉRIA FLAUSINO
    21/11/2017 at 23:10

    Eu tinha entendido que o projeto moderno havia rompido a bolha, isolando-nos irreversivelmente dos nossos duplos esféricos. Também me parecia que a rostificação viesse a ser algo negativo ou pelo menos não consegui entender por que a máquina de quatro olhos, a relação mãe e filho, pudesse vir a ser positiva, enquanto todas as grandes narrativas, rostificadoras – a cristomorfose – tivesse um peso tão negativo na construção do sujeito. Enfim, me pareceu que todo o texto Entre-Rostos, do Bolhas I, é cheio de contradições, aponta para muitos lados e deixa muitas lacunas.

    • 21/11/2017 at 23:14

      Cristina, o texto sobre rostos no Bolhas não tem nenhuma contradição. Agora que está em português, é até um capítulo bem simples. É uma teoria que não se afina com as teorias de Deleuze e outras que enxergam a rostificação como vinda a partir de mecanismos de poder. Você tem de entender o rosto como protração, e entender que o rosto é gerado para o outro, não para si. A esfera da interfacialidade é que cria a face. E Sloterdijk vai de exemplo em exemplo. Eu fui por um outro caminho nesse meu texto. Sloterdijk e eu não escrevemos coisas “positivas” ou “negativas”.
      Agora, sobre o projeto moderno, ele não desfaz nossas bolhas. Somos seres duplos eternamente. Só que a modernidade não dá valor para o duplo, nos apresenta a nós mesmos como indivíduos não duplos. E então, achamos realmente que estamos sozinhos e nos complementamos com elementos que não podem nos complementar: o apartamento single cheio de eletrodomésticos, espelho, internet etc. Leia meu livro “Para ler Sloterdijk”.

  2. Iranildo Silva
    20/11/2017 at 19:52

    Parece que o senhor sempre busca uma certa neutralidade ao falar de religião.

    • 20/11/2017 at 20:04

      Iranildo, eu não falei de religião nesse texto. Eu abordei o conceito de modernidade frente ao de contemporaneidade e expus um teoria de rostificação .

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