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21/10/2018

No naufrágio, você salva seu cachorro ou um amigo?


[Artigo para o público em geral]

Se em um naufrágio tenho de optar entre jogar a boia para o meu cachorro Pitoko ou para um amigo, é claro que meu amigo nem vai olhar para mim nessa hora. Ele sabe que vai morrer. O Pitoko é meu filho. Nossas opções de vida estão atreladas a algo que é antes de tudo a lealdade, só depois emergem outros determinantes.

Mas e se a opção para eu jogar a boia é ou um bolsonarista ou um cavalo? Ora, posso abandonar aí o critério imperioso da lealdade e, enfim, guiar-me por algo como “antes o humano que o animal”. Mas, suponhamos que o bolsonarista, um dia antes, no convés do navio, me infernizou como sua “sabedoria”, vomitando racismo, homofobia, amor às armas e outras coisas do tipo? Confesso: não conseguiria não me apiedar do cavalo. Deixou sem remorsos o bolsonarista para os peixes.

O critério pelo qual resolvemos os chamados dilemas ético-morais não é baseado em princípios – para ninguém. O critério que realmente nos serve é, antes de tudo, pragmático-sentimental. Se quisermos ser razoáveis na construção de uma ética, exatamente no sentido de efetivamente conseguirmos construí-la,  temos de aprender a não jogar para o campo do pecado os nossos sentimentos.

Kant e Mill não atentaram para os sentimentos e criaram duas vertentes da ética moderna que fariam rir os antigos. Nenhum antigo entenderia como que a ética pode apontar um caminho e os sentimentos indicar outro. Nenhum antigo conseguiria entender a felicidade indo para um lado e a ética indo para o outro, que é o que ocorre no âmbito das avaliações ético-morais modernas.

Kant defendeu uma ética do dever. O seu imperativo categórico exige que, para que uma enunciado possa ser coroado como corretamente moral, este possa ser universalizado sem causar contradição lógica. Mil defendeu que um enunciado só pode ser considerado corretamente moral se pode causar o bem – ou seja, ser útil – para a sociedade em geral, e não para uma pessoa ou um grupo específico. Nos dois casos, os sentimentos pessoais são anulados completamente em função de princípios de racionalidade. Não dou a mínima para Kant e Mill. Quero ser ético salvando o Pitoko em detrimento de um amigo humano e quero ser ético salvando o cavalo em detrimento de um bolsonarista chato.

Kant diria que ao salvar o Pitoko, um cachorro, em detrimento de um humano, eu estaria agindo de uma maneira a não poder universalizar esse procedimento, colocando-o como regra. Por isso, ele não seria um ato moral correto. Mil diria que um cavalo perdido é um dano menor para a sociedade que um humano perdido (mesmo bolsonarista!). Não concordo com eles. Na verdade, não é que não concorde, eu não os considero como alguma coisa que eu deva utilizar para a minha ética. Preciso de uma ética que não me transforme em alguém capaz de ser cruel contra os que eu amo e ser condescendente para com os que eu avalio como bandidos – exatamente porque são bandidos.

Richard Rorty ensinou-nos a ver os círculos de lealdade como não opostos à justiça e a uma construção ética. Posso ter como protegidos meus, em primeiro plano, meus filhos (Paula, Paulo Francisco e Pitko), esposa e mãe. Mas isso não quer dizer que eu não possa, a partir desse círculo, ampliar seu raio de modo a fazer caber outros. Por exemplo, uma pessoa que tivesse amor pelo Pitoko, que soubesse entender o que é proteger os cães, pode lançar as bases pelas quais ela se candidata a entrar no meu círculo de protegidos. Ou seja, sentimentos criam identificações e nossos círculos de lealdade assim se ampliam. Posso ter um enorme círculo cobrindo aí inúmeras lealdades. A generosidade minha aí se espalha. E como eu iria dizer que sou generoso e, ao mesmo tempo, não ético? Minha filosofia moral, em um determinado momento, se vê obrigada a quebrar a barreira entre lealdade/amor e justiça/ética. Saio do campo de Kant e Mill e me introduzo no campo do pragmatismo.

Essa construção faz parte do que venho pensando em ética há algum tempo. Não é uma construção acabada, mas certamente é uma tentativa de dar um salto para além da ética moderna clássica.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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11 Responses “No naufrágio, você salva seu cachorro ou um amigo?”

  1. Noelia Batista
    16/06/2018 at 12:56

    Tenho uma Cadela, chama-se ” Vida ” Nao pensaria duas vezes para tomar a decisao. Minha ” Vida ” levarei comigo até o seu Ultimo suspiro.
    Felicidades Sr. Ghiraldelli.

  2. Matheus
    25/05/2018 at 11:30

    Me hipercorrigindo a frase do Albert Camus no contexto seria: ” me dizem que lutar por Argel é questão de justiça, mas essa guerra que se arrasta lança bombas sobre trens, minha mãe pode estar agora em um deles, entre Argel e minha mãe, fico com minha mãe”.

  3. Francisco
    22/05/2018 at 22:26

    Acho que a resposta a Alê está no caso concreto, na vivência do caso. Se o universal cede lugar ao particular, não há por que ficar discutindo teorias sobre a ação a ser tomada num caso hipotético. O exemplo do Pitoko foi apenas para ilustrar a possibilidade de ruptura com uma ética do dever, mas na hora do vamos ver, a solução poderia ser outra.

    • 23/05/2018 at 09:34

      Sim, Francisco, estou tentando construir uma ética. Tudo nesse blog, como em meus livros, é construção. Sou um experimentador, um estudante. O filósofo é um estudante. Admiro os grandes filósofos que concluem um sistema. Por isso são chamados grandes filósofos. Não tenho esse dom. Sou um filósofo no sentido mais apegado à palava filosofia, um amante do saber. Amante do saber no sentido de ser um amante de novos saberes.

  4. LMC
    22/05/2018 at 11:39

    Vou acrescentar um fetiche
    que os bolsonaristas tem:a
    Escola(Bolsonarista)Sem Partido.

  5. Matheus
    22/05/2018 at 08:36

    Se não me engano tem uma célebre frase do Camus que é: “Entre Argel e minha mãe, fico com minha mãe”

    • 22/05/2018 at 09:50

      Boa Matheus, gosto do leitor inteligente. Aquele leitor que não toma meus artigos como dogma.

  6. Alê
    21/05/2018 at 21:46

    Pensei ter entendido, mas quis estender a situação. Uma coisa é escolher salvar uma vida. Outra coisa é decidir sacrificar uma vida.

    Nesse caso que propus e, de acordo com sua resposta, é eticamente justificável, então, matar seu amigo para alimentar o pitoko?

  7. Alê
    21/05/2018 at 20:25

    Você, pitoko e seu amigo estão em um bote salva vidas, salvos do naufrágio, há mais de 10 dias em deriva no alto mar. Todos estão sofrendo e meio alucinados.
    Você tem uma faca.
    Quem você sacrifica para virar comida?

    • 21/05/2018 at 20:43

      Eu já respondi isso no texto, você não entendeu um texto simples?

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