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26/09/2017

Nem só de libido vive o homem? Sloterdijk versus Freud


“Mal estar na civilização” é um título de livro de Freud, e também uma expressão que resume ao máximo indicações a respeito de sua antropologia. Quem está com mal estar na civilização? Todos, exceto o cachorro de Freud. O pai da psicanálise atribuiu a ele um grau zero de patologia psicológica. O cão de Freud, e todos os outros cães, ele pensava, não tinham desviado energia libidinal de seu fluxo de prazer, reprimindo-a e depois sublimando-a em  forma de trabalho cultural. Nós sim, e isso nos fez todos passageiros de um trem carregado de patologias. No limite, Freud nunca viu outra coisa na civilização que não fosse aquilo que disse quando, de navio, se aproximou da América (para ver conferências de William James), o ponto máximo de desenvolvimento: “uma grande besteira”.

Dizer que Freud não fez ciência para, com facilidade confirmar isso e, então, depor contra Freud, não é uma atitude inteligente. Freud só falou em ciência como aquilo que fazia porque ele próprio era médico e tinha a semântica de seu tempo. Para nós hoje, basta termos aprendido um pouco com o pragmatismo linguistificado de Rorty, para não exigirmos de Freud outra coisa que não a produção de uma narrativa interessante a respeito das peripécias do homem. Falaríamos em teoria, em uma antropologia a serviço de uma grande filosofia. É assim que eu o leio. Também é assim que deveríamos ler se queremos criticá-lo oferecendo alternativas, sem birra infantil.

A teoria da sublimação da sublimação é um grande achado. De fato, às vezes também acho que o Pitoko vive em serenidade feliz. Mas o Pitoko é meu filho e não um pet-cachorro. Nesse caso, pode não haver sublimação, mas que há um nível de repressão que o humaniza, isso eu sei que há. Nem sempre a vida do Pitoko é um mar de rosas de uma cabecinha vazia. A teoria de que somos fluxos de energias libidinais, e que há canalizações que nos fazem chegar à Lua e pintar a Santa Ceia, mas que depois nos cobram muito por isso, tem seus atrativos. Mas, após Freud, não podemos mesmo pensar o mundo com “menos sexo”? Toda e qualquer narrativa que pusesse a sexualidade em um plano sem muita importância seria, por ser pré-freudiana, uma volta aos tempos em que Santo Agostinho e, talvez, São Paulo – campeões de uma antropologia sexualizada – ainda não tivessem surgido?

Segundo o modo que entendo Sloterdijk, sua antropologia e, então, sua filosofia, pode muito bem fornecer uma narrativa que não precisa da teoria dos fluxos libidinais. Ele age em duas frentes, no âmbito da filogênese e da ontogênese. Às vezes é necessário se desdobrar para explicar uma e outra e depois criar uma unificação. Não é fácil apresentar Sloterdijk, fazendo isso, em poucas linhas e para o leigo. Encontrei na “formação da noção de justiça” um elemento que facilita a minha disposição didática.

Como nasce a noção de justiça? Vamos de Freud a Sloterdijk, e creio que as coisas irão ficar claras.

Antes havia o chefe do clã, seus filhos e suas mulheres. Ele era o grande pai, só dele eram as terras, o melhor da comida e as mulheres, inclusive as que ele próprio havia gerado. Sem terra, sem a melhor parte da comida e sem mulheres, os filhos planejaram a morte do pai e assim realizaram. Após isso, veio a culpa, expiada em torno da construção do totem que, em seguida, logo representou mais que isso: que ninguém mais tenha a posse das mulheres só para si, que se proíba o incesto. Veio a proibição ou o tabu do incesto. Fez-se a lei acima de indivíduos. Criou-se uma regra moral coletiva, uma possibilidade de civilização.

Essa narrativa de Freud para o nascimento da civilização, a parir da criação do tabu do incesto, tem seu complemento no indivíduo por meio do complexo de Édipo. A disputa do filho pela posse da mãe no confronto com o pai o faz se revoltar contra este, que o amedronta com a possibilidade castração. Em determinado momento esse filho realiza, em termos individuais, o passo que o coletivo deu em torno da ida à lei moral, o tabu do incesto: o amor da mãe é de fato impossível, proibido, o que se deve fazer então é buscar outra mulher. A regra moral coletiva é, então, obedecida, tomada como “lógica”, a força do pai agora introjetada psiquicamente se faz presente. Gera-se aí algo como um eu inconsciente acima do eu, um super eu. Algo como “A lei moral em mim” (Kant), sem minha plena consciência de desejos edípicos.

Uma civilização põe assim seus termos iniciais para ser civilização, ou seja, gera um ethos, a possibilidade de uma ética, uma regra de conduta coletiva, e tem conjuntamente o seu indivíduo típico de posse de uma moral, ou seja, o civilizado é uma personalidade adaptada e capaz de viver sob regras, uma vez que sabe, por si, como o imperativo moral está em seu peito. Recolhe-se as garras do desejo, ganha-se em civilidade. Tudo tem seu preço. Os primórdios a justiça estão aí estabelecidos.

Nessa história não cabe a solidariedade – o elemento pelo qual dizemos, aqui e ali, que  nos faz estar juntos socialmente – senão como um algo exterior, ou como um subproduto da repressão inicial. Não à toa Freud falou, portanto, em “mal estar” da civilização. Isso não serve para a narrativa de Peter Sloterdijk. A ideia do filósofo alemão contemporâneo está centrada no fio que vai do biomecenato ao mecenato enquanto generosidade. A mãe funciona como biomecenas e depois é substituída por mecenatos semelhantes, até uma situação, vivida agora e quiçá ampliada, de um mecenato universalizado. Tudo se inicia na relação feto-útero, depois feto-mãe, depois filhos-e-mãe. Num passo posterior, então, as instituições que cuidam de filhos, e que se fazem notar como se fossem mães, se erguem como necessidade social reconhecida por todos. O mimo é o elemento central dessa ressonância da díade inicial (feto-placenta) que dever perdurar, que eleva o homem da situação de mimo à de mais mimo. O espaço humano tem de ser um espaço de mimo e de imunidade, um novo útero ou um novo lugar de cuidados maternos. A justiça é isso. Essa estabilidade da ressonância contínua em situação de imunização. A injustiça é quando a mãe, em determinado momento histórico, ou melhor, pré-histórico, começa a ser sobrecarregada em vários sentidos, pela proletarização neolítica, e inclusive, então, pelas melhores condições que levam à potencialização da procriação, e que a faz não conseguir mais oferecer o mesmo mimo necessário a todos. Os filhos considerados invasores, os “idade do meio”, que estiveram à beira do aborto, são os que irão sempre achar que há alguma injustiça no mundo. São também os criadores ou motivadores de utopias, os lugares ideais que se formarão como grandes úteros e braços maternos, e onde o biomecenato cederá para a arquitetura a função de cobertura dos mecenas. Nesse lugar, o que se chama espaço de imunização voltará a reinar. Nesse ambiente imunizado, como uma nave espacial ou formas de invernada, todos estarão em igual medida confortáveis ou reconfortados. Não são assim as utopias?

Por essa narrativa, nenhuma morte do pai ou questões incestuais ou edípicas são as de ligação entre justiça e injustiça. O desejo de justiça aparece como uma função própria de uma situação de carência que, por destino e indicação, tinha de não ter ocorrido, as mães não deveriam ter entrado em colapso.  “O colapso das mães neolíticas” (Esferas III) não deveria ter ocorrido, mas a estrutura da ‘revolução neolítica’, a forma agrária de vida, impôs certa riqueza-e-carência, e certa sede pelo ajustamento, pela justiça. Assim se fez a ideia de justiça para além da mera vingança, como em sentido moderno, e contendo internamente os elementos antes da solidariedade que da opressão.

A narrativa de Slotedijk não é mais rósea que a de Freud, é apenas menos composta de buracos. No meu entendimento, organiza melhor o que sabemos de nós mesmos. Evita o “realismo” que, não raro, precisa nos fazer todos criminosos para nos fazer humanos merecedores de descrição em teorias. Aliás, o realismo acha que é uma teoria porque que é realismo!  Ora, trazendo a justiça para a questão da suficiência do mimo, Sloterdijk não deixa de incorporar também a noção de thymos, o lugar psicológico antigo no qual repousa a fúria pela auto-estima. Sabemos o quanto a injustiça diz respeito à imagem do orgulho ferido, do desprezo.

Sloterdijk não deixa de lembrar que a narrativa de Freud, se por um lado pode se basear em certos conhecimentos antropológicos válidos, acaba por jogar fora uma das narrativas antigas mais significativas sobre o nascimento da civilização, a de Caim e Abel. É o segundo episódio do Genesis. Nele não há pai a ser morto, claro. Menos ainda posse de mãe. Nesse episódio o grande crime não é o da inveja, como em geral se fala, mas o do sentimento de se ter de combater contra a injustiça, o buraco que se abre entre irmãos pelo mimo do mais poderoso. E poderoso, nesse caso, pode ser uma figura paterna, a de Deus, mas antropologicamente, sabemos, ninguém é mais poderoso perante a criança do neolítico que a mãe (1) – como até hoje entendemos muito bem. Nenhum juiz humano quebra laços entre mãe e filho, como se soubesse bem, sempre, onde nasce a injustiça.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 13/09/2017

Quadro acima: Caim e Abel – pintura de Giovanni Domenico Ferretti.

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4 Responses “Nem só de libido vive o homem? Sloterdijk versus Freud”

  1. Eduardo Rocha
    15/09/2017 at 20:48

    Por que o Comunismo seria uma espécie de quarto monoteísmo ?

  2. Alceu
    14/09/2017 at 08:52

    Paulo, nesse caso como fica a questão da natureza humana tal como descrita por Hobbes e Maquiável, do homem contra o homem e do fato do ser humano ser desejante?

    • 14/09/2017 at 10:21

      Alceu, as formulações sobre a “natureza humana” na tradição jusnaturalista foram sendo desmontadas pelo romantismo e historicismo do século XIX. Falamos hoje em “natureza humana” incorporando uma ideia de plasticidade maior, aliás, já presente em Freud. Agora, “ser desejante” não me parece ser uma terminologia condizente com Hobbes ou Maquiavel.

  3. Eduardo
    13/09/2017 at 12:50

    Sempre desconfiei de uma ausência da dimensão da “solidariedade” nessa antropologia Freudiana por conta das leituras anarquistas de Kropotkin e seu conceito de “apoio mútuo” que, já naquela época, problematizava um tipo de perspectiva que, no fundo, acha que todos temos apenas a tendência de nos matarmos uns aos outros e que a sociedade seria o freio externo negociado. Que bom saber que na filosofia contemporânea o tema da “solidariedade” não foi esquecido e está sendo trabalhado por alguém de forma inteligente sem cair num “solidarismo ideológico” da esquerda marxista e nem num “solidarismo natural” tosco advindo de uma leitura rasteira de biólogos como um Maturana.

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