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16/07/2018

Marx: duzentos anos sem Iphone? Rousseau, Marx, Nozick e Sloterdijk


[Artigo dirigido preferencialmente ao público acadêmico]

Caso a URSS ainda estivesse por aí, os “200 anos de nascimento de Marx” seria comemorado sem qualquer alusão a O Capital, mas com um enorme desfile militar expondo gigantescos foguetes e exércitos marchando com o famoso “passo de ganso”. O teórico que exigiu de seus leitores cada vez mais inteligência se transformou em símbolo da ostentação da barbárie.

Quando Rousseau escreveu o que escreveu ele jamais imaginou que a Revolução Francesa se tornaria um aparato imperialista , quando transformada por Napoleão em uma forma violenta de renovação da vida de toda a Europa. Não há um teórico que diga diferente: se Rousseau tivesse vivido para ver a Revolução Francesa, teria sido morto por ela. Ninguém duvida que Stalin mataria Marx e Engels. Alguns duvidam que Lênin assim faria.

Há algo na teoria de Marx que, para quem viu a história, como nós vimos, a faça tomar parte nos crimes do sovietismo e outros movimentos “marxistas”? No caso de Rousseau, durante bom tempo, muitos disseram que sim – a Revolução Francesa teria muito de sua mão. Todavia, na verdade, outros preferiram ver Rousseau tendo posto muito mais a mão na forma como a Revolução de 1917 se desenvolveu. Talvez mais que os próprios Marx e Engels!

Há uma interpretação que diz que foi a forma que Rousseau culpabilizou os que primeiro cercaram a terra e criaram a propriedade privada que sustentou o maior peso no desenvolvimento do “marxismo”. Assim, até hoje, nos governos social democratas do mundo todo, ou seja, em toda e qualquer democracia-liberal ocidental, é realmente Rousseau quem faz todos acreditarem que temos que pagar impostos, e que, para o bem ou para o mal, é necessário que proprietários paguem impostos mais altos, pois de fato eles não tem de melhorar a sociedade, mas sim pagar pelo crime de origem, pelo pecado original que foi o cercamento da terra e a criação da propriedade privada. Nessa tese, impostos são sempre dívida.

Filósofos como Nozick puderam coloca uma colher nisso tudo. Dessa maneira, chegaram até a inverter Rousseau: a propriedade não é um assalto, uma invenção criminosa, mas um direito natural. O crime não é dizer “isso é meu”, e inventar a propriedade privada, mas sim taxar a propriedade. Segundo um tal critério, querer assumir como pecado original, como Rousseau fez, o “cercar a terra”, é um delírio e um distribuidor ilegítimo de culpa. Essa culpa é paga hoje por todos nós. Somos todos considerados, de certa forma, proprietários de alguma coisa e, por conta disso, pagamos por tal pecado de maneira literal: pagamos impostos para um estado que vai nos perdoando por essa mácula de origem. A social democracia adora impostos. Desse modo, toda e qualquer democracia liberal moderna, no Ocidente, adora impostos. É necessário o imposto para que a cidade funcione? Não, é necessário como penitência para nos redimir, no possível, por termos gerado nossas vidas a partir do pecado do “cercamento da terra”. Todos pagam, e os ricos devem pagar mais, uma vez que são mais pecadores que nós, os que não tem propriedade dos meios de produção. São mais pecadores porque além de serem também herdeiros do pecado original, são de fato os que gozam todos os dias o pecado, reiterando a falta, perpetuando no mundo o crime, o pecado. As revoluções que, em nome de Marx, tentaram criar uma forma de expropriação ou nacionalização dos meios de produção, seguiram de fato antes Rousseau que qualquer outro teórico, obedeceram o caráter de sua denúncia, e com isso partiram para a purificação do mundo. Nada de impostos! O ideal seria o fim da propriedade. Ao final, o próprio fim do último cobrador, o Estado.

Por essa linha de raciocínio, o “marxismo” seria apenas instrumento de um objetivo rousseauísta que, no fundo, seria um objetivo religioso de purificação de um tipo de pecado original.

A direita política denuncia essas coisas todas, mas o faz de modo tosco. Não relativiza os textos. Toma essa explicação como a verdade e, então, diz que o certo é matar Rousseau, Marx, Lênin e todo mundo que criminalizou o “cercamento da terras”. E se depender de “bancadas ruralistas” no mundo todo, mata mesmo! Na esquerda, Peter Sloterdijk tem dito que é bom notar essa exposição interpretativa, que observa Rousseau e seu textos criminalísticos, para não cair no engodo de que os impostos cobrados por um estado são a única forma de ter uma sociedade que busca solidariedade e igualdade. Ao contrário da direita, Sloterdijk não vê no privatismo qualquer charme. Sua crítica à social democracia e a sanha deste por impostos emerge outra via: poderíamos ter no horizonte uma sociedade menos passiva, menos tediosa, se tivéssemos a arrecadação voluntária. A ideia básica, nesse caso, vem da tese do esbanjamento. Somos felizes quando somos ricos, e ser rico não é ter muito dinheiro ou posses, mas ter a capacidade de gastar, de esbanjar e, nisso, de financiar todo tipo de projeto de benefício social. A ideia é, então, favorecer o pensamento daqueles empresários americanos que ousaram dizer que a pior espécie de homem é o homem rico que morre rico. A antropologia de Sloterdijk tem um pé no análise da dádiva, famosa entre antropólogos, e vista como impossível por Derrida, de quem o filósofo alemão, neste ponto, discorda.

A capacidade de doação que conhecemos, se notarmos bem, vem de ricos e pobres. Se há um incêndio e as vítimas vão para o Largo do Paissandu, donativos não faltam. Se há um doente que faz um pedido na Internet, o dinheiro aparece. Se alguém quer preservar um monumento, redes de doação da internet se fazem sentir. Até uma viagem pelo mundo feita com um cachorro recebe financiamento assim. Particularmente eu e a Fran experimentamos isso: tivemos algum dinheiro para fazer o Hora da Coruja (antes da crise atual) vindo de doações via internet; as pessoas gostavam do programa, achavam necessário, e isso rendia lá um dinheirinho quer servia para pagarmos a Flix TV. Bill Gates e Soros continuam na linha dos empresários doadores. Há muita gente assim. Há ricos financiando a corrida para Marte enquanto há outros, menores, criando hospitais para animais etc. Aliás, todos nós sabemos que as universidades americanas e vários empreendimentos culturais americanos não são mantidos com impostos, mas com donativos. A economia mundial atual, que é movimentada pela forma de donativos, não é pequena. Sem essa economia, boa parte de grandes empreendimentos culturais e humanitários não existiriam. Talvez o melhor de nós não existiria.

Essa utopia de Sloterdijk é diferente da de Rousseau, Marx e Lenin. Mas é completamente diferente da utopia anarquista capitalista de Nozick. Ela é de fato uma ideia filosófica. Ela funciona por conta de que não é uma preparação para uma revolução do tipo da Revolução Francesa ou da Revolução Bolchevique. Mas que ela tem lá uma animação da generosidade emitida por Maio de 68, tem sim.

Peter Sloterdijk não vê nenhum problema em usar Iphone. Marx também não teria. Não sei Rousseau. Agora, uma coisa é certa, para Peter Sloterdijk as descobertas tecnológicas para desenvolver Iphone não vem da ânsia de ganhar dinheiro se não existir, antes de tudo, a ânsia por gastar dinheiro. Saber gastar não é um ato egoísta, é parte da generosidade que vemos todos dia, mas que não queremos acreditar que existe em nós, pois preferimos nos martirizar.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

PS: Para saber mais sobre Peter Sloterdijk: Para ler Sloterdijk (Rio de Janeiro: Via Vérita, 2017) e Dez lições sobre Sloterdijk (Petrópolis: Vozes, 2018). Para saber mais sobre Nozick, veja: Filosofia política para educadores (Barueri: Manole, 2010).

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2 Responses “Marx: duzentos anos sem Iphone? Rousseau, Marx, Nozick e Sloterdijk”

  1. JOSE ILDON GONCALVES DA CRUZ
    06/05/2018 at 19:16

    Hoje fui ao Largo da Paissandu. Tanta gente levando doação (roupa, água, papel higiênico, leite e fralda). Alimento também…
    Vi um casal, em uma Mercedes, parar e retirar roupas para a doação. Depois o casal ficou parado, em silêncio, olhando as pessoas largadas na frente da igreja. Muitas crianças. Generosidade.
    Também vi a polícia multando dois carros que estavam parados enquanto os donos levavam a sua doação.

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