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20/11/2017

A Loucura da Transparência


Diante da noção de intimidade, todo cuidado é pouco. Dizemos coisas bem diversas com esse termo aparentemente simples. Byung-Chul Han lembra que Richard Sennett, ao falar das “tiranias da intimidade”, está se referindo a um mundo íntimo que, na verdade, se exige mostrável. Em Sennett, sabe-se, a sociedade não é vista (e criticada) na completude entre público e privado, mas na valorização do privado de tal modo que se exige dele que se torne público, diluindo estão as duas esferas tradicionais do mundo moderno, do mundo burguês. Como nota Han, o que ocorre então é imersão das pessoas em uma sociedade de proliferação do narcismo.

Ele aponta para Sennett para formular aquilo que seria a sobreposição da vivência psíquica sobre a experiência histórica (Erlebnis sobre Erfahrung). A vivência psíquica está em qualquer lugar, junto do eu, e pode se tornar narcísica, sem conteúdo reflexivo, se não incorpora a experiência coletiva, histórica, dado pela presença do outro. Forma-se um eu sem alteridade.  O psíquico raso, crescido sem a experiência, só voltado em si sem ter se deslocado pelo outro para então voltar a si de modo criar um eu reflexivo, não tem condições de exibir-se no teatro ou na rua, onde há um ritual e uma simbologia que faz mediações entre indivíduos. O narcísico é um exibir-se que não leva em consideração os que o vêem se exibindo. Ele é quem vive na sociedade de culto da intimidade onde esta é tirana porque se torna a única forma de vida, aquela que exige que o íntimo ocupe tudo e, então deixe de ser íntimo. Essa sociedade da tirania da intimidade é sociedade em que as pessoas são tiranizadas, mas a própria intimidade também é tiranizada por ela mesma. Ao ser o que é intimo e, no entanto, não mais privado, cada pessoa participa da construção da chamada “sociedade da transparência”, delineada por Byung-Chul Han. (The Transparency Society (p. 36). Stanford University Press. Edição do Kindle).

É interessante notar que tanto Richard Sennett quanto Byung-Chul Han, tomam o tema da intimidade e da transparência sem qualquer referência aos críticos clássicos dessa situação de requisição da máxima visibilidade. Não se percebe que há algo complexo no simples elogio que o participante do BBB faz de si mesmo, em todos os programas: “tenho valor porque sou eu mesmo, me mostro, não me escondo, sou autêntico”. Ora, foi Erasmo de Rotterdan quem, no Renascimento, alertou para o valor ético e, portanto, para a loucura, da visibilidade máxima. No nascedouro do Humanismo, Erasmo conseguiu perceber suas artimanhas, que alguns acreditam terem notado só quando de fato ele teria ocorrido, ou seja, na modernidade tardia. Nada disso.

Em Erasmo, é a própria Loucura quem faz seu elogio. Ela diz que não vai colocar nas mãos dos seus ouvintes uma definição dela mesma. Que não precisa disso. Ei-la falando:

“Sou eu mesma, como vedes; sim, sou eu aquela verdadeira dispenseira de bens, a que os latinos chamam de Stultitia e os gregos, Moria. E que necessidade haveria de vo-lo dizer? O meu rosto já não diz o bastante? Se há alguém que desastradamente se tenha iludido, tomando-me por Minerva ou pela Sabedoria, bastará olhar-me de frente, para logo me conhecer a fundo, sem que eu me sirva de palavras, que são a imagem sincera do pensamento. Não existe em mim simulação alguma, mostrando-me eu por fora o que sou no coração. Sou sempre igual a mim mesma (…)” (Elogio da Loucura. Erasmo e More. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1988, p. 10).

A dicotomia moderna, tão louvada por Rousseau no século XVIII e então instaurada de vez como característica moderna já está aí, em pleno Renascimento, funcionando. Bem como a frenologia, depois retomada por Hegel, uma ciência que desde Sócrates se fazia presente, capaz de dar a personalidade pelo rosto. Também presente nesse trecho há a ideia de que se conhece o coração, onde se entende e se acredita que esteja a verdade, pelo exterior, onde poderia estar a mentira. Mas isso, finalmente, porque o rosto, o que está na frente e na superfície, já é o fundo. Mas quem fala, o homem? Não, a Loucura. A Loucura é louca de falar o que vem à língua – ela mesma confessa isso (p. 10). Se hoje vivemos na “sociedade da transparência” e sofremos do narcisismo fecundado pelas “tiranias da intimidade”, como diz Han repetindo Sennett, não podemos deixar de notar que antes mesmo da modernidade clássica se abrir, os valores humanistas de tudo mostrar, de nada esconder, já estão sendo criticados. Criticados à medida quem conta tudo isso, de si mesma, é a Loucura.

Assim, se Erasmo pode ser um elemento pelo qual notamos que filósofos vislumbraram o destino do Humanismo na loucura que vivemos na modernidade, também é interessante observar os limites dessa profecia. Para tal, temos de retomar a intimidade para percebermos sua vigência como tirana, participando na “sociedade da transparência”, não só pela ótica Han-Sennett, mas também por uma visão capaz de historiar esse movimento. É aqui que entra a “arqueologia da intimidade” de Peter Sloterdijk.

A intimidade enquanto efetivamente um campo privado, dito burguês, mas ao mesmo tempo escancarado pelas agruras da democracia burguesa que vai cobrando transparência de todos loucamente, doentiamente, não é alguma coisa sem nascimento, sem gênese. É fácil dizer, como Han, que uma sociedade “neoliberal” que torna tudo mercadoria é uma sociedade da exposição e, então, unir essa tese à denúncia de Sennett a respeito da tirania narcísica e da exposição máxima. Menos fácil, e nisso precisamos de Sloterdijk, é ver que se há alguma coisa que é a perda da intimidade à medida que esta se torna regra para tudo, gerando uma subjetividade moderna já com essa marca, não se fez por facilidade.

No primeiro volume da trilogia das Esferas, o Blasen (agora no Brasil com o título Bolhas, pela Estação Liberdade), Sloerdijk caminha por uma “arqueologia da intimidade” que liga questões sobre uma espécie de topologia da psiquê. Para ele, não somos indivíduos, mas sempre “divíduos”, ou seja, uma subjetividade que é una e dupla e que, inicialmente, é assim em sua situação de sinestesia, a da vida do envólucro feto-placenta em meio líquido-sonoro. Essa é a matriz original e que, portanto, comporta uma estrutura, a bolha, que é por si só o um-e-o-outro e o um-com-o-outro.

Uma placenta não é um companheiro individualizado, mas ela própria é o perímetro e membrana de uma esfera na qual faz parceria com o feto, ou seja, consigo mesma. Todas as culturas arcaicas, diz Sloterdijk, perceberam isso e notaram a evolução dessa situação sinestésica para uma situação psíquica e social, e acompanharam isso por meio de uma  simbologia que garantia ao homem essa transição. A modernidade cortou esse modus operandi, tratou a placenta como um pedaço de carne, jogou-a fora tirando-a da simbologia da cultura, passou tudo ao comando da higiene médica, ou seja, da nova medicina. A modernidade fez o trabalho de “refutação do espaço interior”. “É moderno quem negar ter estado alguma vez em um espaço interior”. Perdeu-se aí todo o apoio para dar continuidade ao que é a subjetividade não como intersubjetividade, mas subjetividade que já contém o outro, que é um “com”, desde sempre. Essa negação do interior, ou seja, a negação da casa da alteridade, levada adiante pela modernidade, põe na jogada um novo tipo de nascimento, o nascimento moderno. Tudo que preparava o “instinto de relação” (Buber), assim, quase desaparece.

Peter Sloterdijk complementa:

“Todos os homens são gêmeos, mas de um modo oculto, dado que a maioria rejeitou o seu gêmeo e nem sequer se lembra de o ter tido uma vez. A rejeição da protodualidade gera uma disposição geral para as más formações substitutivas. Deixamos de aprender a possibilidade do encontro, se destruímos a imagem daquilo que procuramos. A mais profunda falta de tato tem início nesta rejeição da lembrança da dualidade. Na maioria dos casos, os homens mais imunes às relações prejudiciais são, segundo as minhas observações, os que vivem em uma relação discreta com o seu gêmeo oculto. Estes são, portanto, os que dispõem desse conhecido anjo da guarda ou os que, para utilizarmos termos mais contemporâneos, cuidam bem de si próprios. Nos Estados Unidos, os amigos despedem-se dizendo take care of yourself (cuida de ti), o que, na realidade, é uma descrita saudação angélica” (O sol e a morte. Lisboa: Relógio dÁgua, 2007, p. 138).

É interessante notar que Sloterdijk escolhe Rousseau como exemplo de má-formação. No lago Biel, este descobre a vida como ausência de pensamento, faz quase a apologia do “não penso, logo existo”, e quando vai tratar do campo social regrado, não tendo um modelo de subjetividade própria desenvolvida na alteridade, cede ao totalitarismo da ideia de “vontade geral”. Se pudermos ler Sloterdijk falando de Rousseau e, nesse ato, estar com Erasmo nas mãos, não vamos deixar de dizer que o filósofo genebrino é o que melhor se aproxima da Loucura. Posso fazer vingar a “tirania da intimidade” uma vez que imagino que as intimidades são todas do mesmo formato, da mesma matéria, e que o si-mesmo não precisa ser privado exatamente porque o si mesmo é o mesmo de todos os eus. Surgem os imperativos que estão se fazendo vingar em nossa vida atual. Desnude-se, afinal, somos todos iguais. Perca o pudor, afinal, tudo é natural. Ande sem-vergonha, pois somos muito mais iguais que diferentes. Vote em aberto e seja você mesmo. Apresente-se ridículo. Nesse ritmo chegamos então à máxima da ditaduras: “quem não deve, não teme”. Não os políticos tem de ser transparentes, mas todos nós. Eis aí vários lemas da virtude humanística que Erasmo chamou de coisas da senhora Loucura.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 25/02/2017.

Quadro: Bruegel, o Velho, A Extração da Pedra da Loucura, 1568.

 

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One Response “A Loucura da Transparência”

  1. Cristiano Frota
    31/08/2017 at 12:02

    Paulo, eu tinha que enviar denovo um muito obrigado. Talvez, o melhor texto em seu blog que já li.

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