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27/04/2017

Identidade no espaço contemporâneo – quem eu sou?


A falta de emoção vai longe, chega aos rincões mais recônditos da vida. Assim avalia Peter Sloterdijk, ao teorizar sobre a modernidade como uma época de superabundância e, portanto, de crescente desoneração dos indivíduos. Ele diz: “o animal sem missão caminha tateante pela névoa; tudo é possível, nada é convincente. Já que nada me toca, eu preciso de muito”.([1]) Quando Heidegger descrever o tédio, na célebre passagem da estação de trem no domingo, ele não está falando do homem passivo, mas talvez do hiperativo, do animal que vai precisar de muito. Para readquirir sensibilidade é necessário muito – muito de tudo, sabe-se lá o que pode ser isso.

Na trilha dessa tese, Sloterdijk traça os caminhos do esvaziamento da subjetividade: a desconsideração da placenta e seus substitutos na entrada da modernidade, o momento de isolamento e solidão de Rousseau no Lago Biel, o surgimento dos Jesuítas como os primeiros modernos e proto-consultores, sendo que estes irão, então, reinar no preenchimento do sujeito atual.([2])  Mas aqui,  temos de notar, Sloterdijk descreve a subjetividade antes por uma abordagem fenomenológica que qualquer outra coisa. Considerando a subjetividade como contendo três pilares, o da consciência, o da identidade e da autodesinibição, podemos então dizer que é mais com este último elemento que ele se preocupa. Este elemento é o carro chefe dos outros, em uma descrição fenomenológica como a de Sloterdijk.

Sei que há os que tomam a proposta fenomenológica menos dramática do que o necessário para se fazer ciências humanas ou filosofia social ou, digamos, grande história da cultura. Vale a pena integrar saberes.

Uma abordagem menos escrupulosa, como a encetada de Byung-Chul Hang, então, se sente bem à vontade ao preencher a identidade com suposições a respeito da relação entre vida individual e mercadorização capitalista. Assim, no que Sloterdijk vê como uma identidade que se re-onera por conta da “necessidade da falta de necessidade”, que é uma busca que a frivolidade paga para o êxtase do estresse, Han coloca na identidade individual ventos vindos do mercado. Sai a fenomenologia, entra a sociologia do capitalismo ou um filosofia social mais, digamos, mais bem vinda o ouvidos que se acostumaram com a Teoria Crítica.

O mercado moderno cria o reino da equivalência abstrata, e então tudo é igual a tudo. Tudo é igual a tudo molda o modo de pensar humano. À primeira vista, quando esse modo de fazer- pensar chega ao homem, torna-o um elemento abstrato e sem rosto, dando-lhe apenas a identidade que lhe cabe nesse campo: vendedor ou comprador da força de trabalho. Cavalo da mercadoria, não seu proprietário. Enxergar a modernidade nesse estágio é vê-la classista. Há os trabalhadores e os burgueses. Mas se o mercado é também o mercado de consumo em escala avantajada e de produção abundante, ele se reorganiza em forma da diversidade das marcas. Surge então, sem a destituição da igualdade, a diversidade e a diferença. As empresas são as mesmas, mas as marcas se diversificam. Ao final, o mercado já não é mais de mercadorias, mas de marcas. Ou seja, as marcas se transformam nas próprias mercadorias. Há um crescente mercado de marcas. Abre-se o campo para que as identidades possam ser re-preenchidas, agora pelas marcas. Desaparece a identidade social classista. Não sou o que fabrica ou que veste aquilo que fabrica, mas sou sim o adepto da mensagem dada pela marca do meu vestuário ou de outras coisas que consumo. Volto a ter um causa! O mundo finalmente, ao menos durante este verão, fará sentido. No outono, teremos outros sentidos.

O mundo faz sentido mesmo sem Deus, uma vez que agora o tempo é regrado pela moda, afinal, ela é o Deus da modernidade. Tudo vem com obsolescência programada. O carro acaba tão no “tempo certo” quanto o celular. Tudo vem no tempo da moda. E a Internet faz a moda parecer criação de cada um e ter um tempo de cada um. Esquecemos que a Internet aboliu o tempo e, então, a moda se faz regra e o mundo emergente disso é aquele onde ninguém sabe esperar. O mundo da moda é finalmente a moda moldando o mundo. Por isso a moda é Deus, ela ganhou o lugar daquele que vive fora do tempo. O imediato é a maneira do homem achar que vive sem tempo, como o Destino de Boécio ou o Deus de Agostinho.([3])

As mensagens da marca da roupa que visto ou daquilo que janto ou daquilo que passo no corpo para o banho são as cartas da publicidade da empresa para todos nós, os que aguardam a Boa Nova. Pode ser uma mensagem um tanto tola, vazia, algo que fale de estados psicológicos banais no sentido de ser mais atraente ou sedutor ou mesmo feliz, mas também uma que queira parecer séria, de aparente conteúdo social, reprogramada pelas necessidades do momento no campo político: liberdade social, ecologia, proteção da mulher, anti-racismo etc.. Ou pode ser apenas simplesmente uma mensagem “criativa”. Há pessoas que gostam das marcas que lhes forneçam identidades “descoladas”, ou seja, de humor e aparente rebeldia. Ou marcas da performance. E nesse caso tudo se casa com a indústria do entretenimento – com os esportes à frente. No anos setenta apareceu o “liberdade é uma calça jeans desbotada”, nos anos noventa tivemos a Benetton contra o racismo, recentemente surgiu o Habibs falando de coxinhas e mortadelas. O comercial na TV ou no tablet ou no celular vira arte em um mundo que desde o início do século XX deixou de lado o belo como elemento da arte. O liberalismo, pela via do mercado, se reencontra com sua teses políticas, antes aparentemente anti-mercadológicas. Ele é politicamente social e vanguardeiro e ao mesmo tempo estético.([4]) Alguns diriam: o capitalismo se salva a si mesmo diante de Deus, ou seja, do Juízo Final. Salva-se diante de si mesmo! O espetáculo das mercadorias se torna um espetáculo de marcas, um show de boa vontade e, enfim, um dado que incentiva o liberalismo a ser o re-fundador do espaço da diversidade. A “sociedade do espetáculo” de Debord ganha um conteúdo especial para o drama, ou comédia: “o espetáculo da sociedade”. A “era da imagem do mundo” também se concretiza. O homem é a cena, depois a mercadoria é a cena, agora a marca é tudo – cena, cenário e vedete.

Esse cenário pode ser descrito pelas inúmeras informações que os livros de Lipovetsky trazem a respeito de hipermodernidade e hiperconsumo. Nesse caso, também notamos a melhor teoria desse pensador, a de que o mundo atual é modelado pela moda, que é a maneira pela qual o tempo é o tempo mensurável no capitalismo tardio. Mas esse cenário ganha outros tons críticos se, voltando a Byung-Chul Han, reparamos sua preocupação com a ideia de que o império da diversidade, que é o nosso “tu deves” atual, é antes de tudo a exclusão do distinto e, portanto, de novo o império do igual.([5]) As pessoas são diferentes e, isso, na base do ato de comparação que antes de tudo iguala. O que fica de fora é o distinto. As marcas são da ordem do diferente, e agrupam as pessoas e lhes dão identidade grupal, mas isso ao custo de uma anulação da ipseidade([6]), ou seja, de uma identidade de eu, que lhes faria não diferentes somente, mas distintas.  Gente militante pode ficar, os que lutam por causas nobres também, só Sócrates deve morrer.

Nesse quadro, desparece os que podem ser diferentes de todos os outros – o distinto –, porque o diferente é ele próprio o lugar dado por grupos. Há grupos diferentes de modo que a identidade se torna a identidade social ou  de grupo. Assim, posso ser de uma minoria, e então estou vinculado à marca específica que conseguiu se por como o que está de  braços dados com essa minoria. Uma marca que, logo mais, vai defender outra causa. Afinal, pertencer ao mesmo grupo sempre, também cansa. A moda exige uma dinâmica. Ela é a dinâmica. Caso todo ano eu seja da marca que defende negros, logo estarei parecendo um militante como os que defendiam o socialismo. Ninguém suportará conviver comigo mais. Tenho de mudar. Tenho de, como se diz agora, me reconstruir, me reinventar. Talvez seja bom mudar antes da próxima moda. Posso criar a minha moda. Os homens do marketing  logo me acompanharão.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 21/03/2017

[1] Sloterdijk, P. Sphären III. Schäume. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2004, p. 731.

[2] Conto em detalhes esse percuso em: Ghiraldelli Jr., P. Para ler Sloterdijk. Rio de Janeiro: Via Vérita, 2017.

[3] Essas teses são minhas, mas a análise do tempo como subsumido à moda é descrito por Lipovetsky, G. O império do efêmero. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.

[4] Há livros que se dedicam à descrição minuciosa dessa situação: Lipovetsky, G. Capitalismo estético na era da globalização. Lisboa: Edições 70, 2014. Ou ainda: Lipovetsky, G. e Serroy, J. A cultura-mundo. São Paulo: Cia das Letras, 2011.

[5] Han, B.C. Die Austreibungen des Anderen. Frankurt am Main: S. Fischer Verlag GmbH, 2016,

[6] Mantenho aqui a distinção entre identidade ipse e identidade idem, como consagrada por Paul Ricouer.

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Filósofo