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17/12/2017

Identidade moderna: a intensificação de si


Aprendemos no colégio, nas aulas de história, que as “grandes navegações” e o comportamento intrépido de gente que era chamada de “mercadores” deram o tom para a formação do homem moderno. Seguiram a estes os “empresários”, pessoas capazes de correr o risco com dinheiro investido tanto quanto os primeiros correram risco de vida. Max Weber foi um dos grandes teóricos da sociologia que nos ensinou a ver o capitalismo segundo essa lógica do risco e da aposta. Outro grande pensador da modernidade, Marx, não descartou essas características, falou da “missão civilizadora do capital”, mas tratou as tais figuras do empresariado como “burguesia”, e ligou-as muito mais à capacidade de exploração da força de trabalho alheia que à aventura. Mas nem Marx e nem Weber abandonaram a antropologia calçada na ideia de autoconservação como o fio condutor para a caracterização do homem moderno. Para eles a equação racionalidade = autoconservação, estranhamente, nunca foi questionada, por mais que os fatores sorte e risco estivessem estampados no material que usaram para descrever “o capitalismo” ou “a modernidade”.

Nietzsche foi o único pensador que trouxe para a modernidade, em termos de filosofia, um elemento mais condizente com os feitos dos tempos modernos, e por isso talvez tenha ajudado mais a caracterização dos nossos tempos que tantos outros pensadores até mais acurados do ponto de vista histórico que ele. Nietzsche inventou a noção de “vontade de potência” e quebrou de vez com a ideia de que vivemos em função de não correr riscos, de não nos intensificar. Não importa aqui saber se a vontade de potência é um elemento cósmico (Scarlet Marton) ou uma flecha metafísica (Heidegger). Vale dizer que é com esse nome, “vontade de potência”, que Nietzsche abriu as portas para uma antropologia que vê o homem como capaz de mais-doação, mais-força, mais-valia, mais-risco e mais-loucura. Nietzsche abriu as portas para Peter Sloterdijk falar do homem com identidade moderna como alguém que cumpre a função que seria propriamente humana, a de produção de mimo. O homem é um animal do plus. Nenhum outro é.

Talvez a diferença entre Marx e Weber de um lado, e Nietzsche e Sloterdijk de outro, é que os primeiros olharam para a modernidade a partir do embate entre Iluminismo e Romantismo, dando valor para o capitalismo de desenvolvimento em confronto com o capitalismo de reação, enquanto que os segundos nunca esqueceram das glórias do Renascimento. Neste, a modernidade se fez na base de um gênio que a autodescreveu no momento mesmo de seu nascimento: Erasmo de Roterdã. O “elogio da loucura” é o elogio do mimo, do mais, do plus. O homem moderno, se pensado como empresário em associação com o renascentista, dá uma identidade para nós todos (que ainda podemos nos considerar modernos), como os que estão ou podem estar animados. A animação e a criação de espaços de reanimação é muito do que fazemos. Somos seres endorfinados, diz Sloterdijk. Em termos nietzscheanos, somos os que estão no olho do furacão da vontade de potência. Queremos algo para podermos querer mais. A autoconservação? Ah! Ela que pode ser até critério para a sanidade mental, não vale nada para os empresários, para os que se fizeram amantes do risco e da aventura, para os que se identificaram – criaram suas identidades – como os loucos que pediam que fossem retratados pelos pintores que se autorretratavam no Renascimento. Erasmo chegou a por a Loucura dizendo: “Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo”.

A ideia de passividade que dominou o pensamento da antropologia da Escola de Frankfurt e várias outras escolas de filosofia social, sociologia e psicologia social, colocou de lado essa possibilidade de pensarmos na filosofia social por meio da ideia de animação, vontade de potência, plus e mimo. Adorno falou na “apatia burguesa”, e viu o marasmo da quietude do mundo alemão diante dos nazistas como o típico da “sociedade administrada”, que seria, então, o modelo para toda e qualquer sociedade moderna. Peter Sloterdijk tem outra filosofia social. Ele não crê que a identidade moderna, mesmo hoje, possa ser desenhada senão com uma noção que tem como fonte a própria identidade do homem moderno renascentista. Ele readapta esta para ideia de que o homem moderno par excellence, como hoje ele pode ser caracterizado, é um “criador de tendência” e um designer – inclusive e principalmente um designer de si mesmo. O homem moderno é um “.experimentador”.

A identidade moderna, ou seja, o individualismo que nos é típico, é visto por Sloterdijk como construído segundo um fio que vai da aventura e cultivo da sorte – próprio do Renascimento – para a ideia de divertimento – própria dos tempos contemporâneos. Se olhamos para nós mesmos, diz Sloterdijk, não vemos apenas “sociologia e vazio”, como disse um autor alemão, mas também temos de computar uma “terceira experiência”, que é a da “conversação, o divertimento, dito de outra maneira, o que nos ocupa no momento e nos mantém em expectativa”. “O trabalho, o combate, o amor, o diálogo: estas são as formas principais do êxtase que diverte”. “Deste ponto de vista, o divertimento torna-se sinônimo de existência, e o contrário de divertimento não é o tédio. O contrário do divertimento é a morte” (Ensaio sobre a intoxicação voluntária, p. 62).

Por isso, quando se atém a falar de nós, modernos, em termos de patologia, Sloterdijk não utiliza a figura do Ulisses Deprimido-Melancólico, como fizeram os frankfurtianos (Benjamin, Adorno e Horkheimer à frente), mas do Ulisses-Histérico. A histeria é a patologia mais própria do moderno, não a depressão. A fórmula utilizada por Sloterdijk para dar a identidade do homem moderno é dita sem meias palavras: conservação de si + experimentação sobre si  = intensificação de si mesmo. (p. 12). Nesse sentido é que ele diz que “a vontade de auto-intensificação cortou a veia auto-conservadora, razão pela qual se exige em troca uma espécie de direito à auto-extinção”. “Quem se comportar sempre de maneira racional e autoprotetora privar-se-á de uma boa parte das coisas que há muito pertencem naturalmente nossos hábitos experimentais – este culto da velocidade sem limites, esta tendência absoluto para a intensificação de todas as coisas”. Sloterdijk usa a fórmula bombástica: “o processo do mundo, no seu conjunto, tem muitos mais pontos comuns com uma ‘party’ de suicidários de grande escala do que com uma organização se seres racionais que visem a sua auto-conservação”. Ora, nessa hora, não há como não lembrar da ideia de Nietzsche de vontade de potência exemplificada por um ser unicelular que joga seus pseudópodes para pegar uma gota de água maior e, tendo sucesso, explode.

Quando pensamos o homem como alguém reprimido, na fórmula freudo-marxista, mais perdemos que ganhamos em termos de uma imagem melhor qualificada do individualismo moderno. O designer que intensifica-se a si mesmo, ainda que na pobreza possa fazer isso somente em selfie, é o homem moderno que reclama com um direito maior a possibilidade de eutanásia. Sou tão artista de minha própria peça que já que não controlo minha entrada no mundo, quero deliberar com que fantasia deixo o último ato. Erasmo e não o doutor Freud leu Slotrerdijk.

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One Response “Identidade moderna: a intensificação de si”

  1. Orquidéia
    18/09/2017 at 06:21

    Demorei para entender a parte do suicídio.
    Precisei ainda ler o artigo que segue,embora seja um texto de medicina.

    https://brasil.elpais.com/brasil/2016/01/12/ciencia/1452596072_476100.html

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