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17/12/2017

Homofóbicos gays são quase a regra. Por quê?


Homofóbicos que são gays in the closet  não é coisa rara. Há até quem diga que é a regra. E também sabemos o quanto há negros racistas com negros e como que uma série de outros indivíduos se negam a assumir o que são caso estejam no âmbito de uma minoria sociológica.  Por quê?

O marxismo mais simplório diz que se trata de “falta de consciência”. Transfere-se aí a ideia de “consciência de classe” para o âmbito dos campos minoritários, aliás, como o feminismo, não raro, fez nos anos setenta e oitenta – e às vezes até o presente momento! Se alguém age contrariamente ao que seriam os melhores interesses  – os interesses racionais – de seu grupo, estaria assim funcionando de maneira contraproducente, ou até como algoz de si mesmo. Os marxistas procuraram se unir ao freudismo, durante boa parte do século XX, para explicar mecanismos psíquicos e afeitos ao inconsciente para, unidos com a questão da ideologia produzida pelo mercado (reificação e fetichismo), explicar a distância entre a consciência de cada indivíduo e a tal consciência de classe. Foi assim que o problema da acrasia, tão clássico na filosofia desde quando Aristóteles analisou o intelectualismo de Sócrates, mutatis mutandis se fez presente como um problema típico da filosofia social do século XX. Todos os membros da Escola de Frankfurt, em parte na esteira de Lukács, trabalharam sobre esse assunto. A acrasia ou fraqueza da vontade foi transmutada na questão da ação contraproducente a partir de auto-engano na sociedade repressiva e capitalista.

Apesar dos pressupostos terem ficado meio que envelhecidos, essa teoria, ao menos na sua formulação quanto aos resultados da economia psíquica da civilização, nunca deixou de ter lá sua utilidade. Podemos dizer que cada indivíduo, para sobreviver como “normal”, faz um esforço em favor da economia de sentimentos e afetos, procura se disciplinar e, para tal, se empenha às vezes num doloroso processo de autorrepressão em favor de um comportamento desejado. Indivíduos assim, então, tendem a ficar apavorados e enraivecidos quando se deparam com aqueles que optaram por não se submeterem ao que ele se submeteu em termos de autocontenção. Não raro, indivíduos assim não aprendem com os libertos como se libertar, mas, ao contrário, ficam cegos quanto a tais mecanismos e se movem na direção da destruição dos libertos. Afinal, os libertos não são produtores de inveja propriamente dita, mas antes produtores da subversão. E a subversão pode destruir o mundo que premia o status quo vigente. Ora, com o fim do mundo “como ele é”, ou seja, o mundo dos “realistas”, todo o esforço do disciplinado teria sido em vão. Aliás, tudo que ele conseguiu se submetendo vai pelos ares se as hierarquias injustas são derrubadas. Diante do mundo novo, no qual ele próprio, o autodisciplinado na base de seu próprio chicote psíquico-moral, ele não teria mais o lugar que a duras penas conseguiu. É isso que o faz um indivíduo não libertário, mas reacionário, atuando contra aqueles que poderiam ser “um dos seus”.

O melhor exemplo que tenho em mãos, para fins de reconhecimento mais fácil do leitor, é o do personagem de Samuel Jackson no filme Django Livre. Quando o capataz negro da Grande Fazenda vê o outro negro, Django (Jamie Fox) entrando a cavalo nas terras do patrão, a câmera inteligente de Tarantino é fixada nas expressões de Jackson. O espanto vira ódio, não alegria. Aquele negro a cavalo era como que o “Espírito a cavalo”, a figura que Hegel usou para descrever Napoleão como o anunciador dos novos tempos. O negro a cavalo, ainda num mundo da escravidão vigente, estava anunciando só uma coisa: todas as hierarquias estão ficando velhas, o mundo vai mudar, está mudando. Ser negro não vai ser mais alguma coisa contra a qual cada negro terá de gastar energia e sofrimento. O sentimento de ódio do capataz, o personagem de Jackson, passa então a funcionar como capacidade criativa: como destruir aquele negro e como me manter como sendo eu, de fato, o chefe da fazenda, o barbeiro negro que por disciplina, matreirice e sabujice havia conseguido ser o verdadeiro chefe do novo patrão (Leonardo Di Caprio).

Assim, quando vemos alguém revoltar-se contra aquilo que ele próprio poderia ser, e exibir ódio contra quem conseguiu fazer a passagem, temos de notar que a questão aí é de gasto de energia psíquica. Não é fácil para cada um de nós ver que lutamos para nos tornarmos medíocres num mundo onde outros optaram por, aparentemente sem luta, terem se tornado vitoriosos. Nessa hora, aquele que pensa ter escapado de ser minoria, vê que ele é que pertence à minoria, mas enquanto esta é ainda o esterco da humanidade, e ao mesmo tempo vê aquele que é livre, que fez a passagem, poder se tornar a flor desse esterco. Cada homossexual in the closet odeia o homossexual que se afirma homossexual, pois este aponta para o mundo onde nenhum homossexual será sequer notado como homossexual, onde as pessoas terão outras diferenças. Esse mundo não pode chegar! É isso que diz para si mesmo e para outros por meio da agressão homofóbica.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, 60. São Paulo, 26/09/2016

PS: Seria interessante pensar em uma outra teoria, talvez a la Sloterdijk, sem o traço frankfurtiano (que usei), para o caso. É possível?

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7 Responses “Homofóbicos gays são quase a regra. Por quê?”

  1. 15/10/2017 at 14:40

    Para quem tiver tempo(e paciência) assista, no canal do Yotube, chamado “Rede Goelbels de TV”, um sujeito desancando a Globo, denuciando a exposição do M.A.M, aplaudindo dona Regina no programa da Fátima Bernardes e, por fim, dispensa umas bordoadas contra a escola de Frankfurt e a esquerda. Sem deixar, no final, saudar Jair Bolssonaro, como “o nosso futuro presidente da República”!

  2. 28/09/2017 at 18:24

    Lendo o texto, lembrei-me de um amigo que até pouco tempo era daqueles caras que pegava muitas meninas garanhão enfim dizia que amava mordida de tarântula, não podia ver um homossexual que já se irritava e ficava até bravo com a a maneira com que o homossexual se comportava. Atualmente “ele ou ela”, prefere levar picada de cobra. O lado bom é que parou de se auto repreender, libertou-se e derrubou as (hierarquias injustas) posta pela maioria.

    O que me deixa bravo é um juiz babaca e uma corja de pessoas frustradas aprovar uma lei nojenta chamada”cura gay”, como se esses que escolhem por serem livres fossem pessoas doentes ou,algum ser dê outro mundo, um monstro, quando na verdade o que se manifesta no ser é a própria vontade de ser livre. Ao invés de tratarem de pedófilos por exemplo, ficam com essa doidera. Dê fato será em vão pois, mesmo que os homossexuais, lésbicas enfim, tenham “vontade” em ir contra seus instintos, a “vontade” será maior e ele ou, ela, cederá em algum momento de sua existência deixando de lado a mediocridade que ainda existe em muitos.

    • 29/09/2017 at 09:19

      David, de fato por mais tolerante que a gente seja, aquele juiz e sua psicóloga evangélica são de amargar – é a burrice elevada ao grau da sacanagem para tomar dinheiro de ingênuos.

  3. Matheus
    27/09/2017 at 18:05

    (teremos um texto sobre o estudo religioso confessional nas escolas?

    talvez, talvez seja necessário explicar a uma parcela da população o que isso significa = que o nosso estado não dá conta de dar aula a todos)

    abraço

  4. Thiago
    26/09/2017 at 20:29

    Me fez lembrar o ditado que diz que cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça.

  5. raoni zanovello
    26/09/2017 at 15:17

    Quais são os piores medos dos que dizem não para a mudança das opções sexuais? Chegamos ao clímax da intolerância ou é só o começo?

    • 26/09/2017 at 19:30

      Raoni você pode fazer sexo com quem quiser, só não pode se burro a ponto de achar que, gostando de homem, alguém vai fazer uma terapia para fazê-lo gostar de mulher.

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