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27/07/2017

Hélio Schwartsman e o segredo da boa mentira política


É curto e excelente o artigo do Hélio Schwartsman sobre a mentira, publicado na Folha em 18/04/2017 com o título de “O cérebro causídico”. Ele explica como que mecanismos cerebrais nossos nos permitem mentir de modo a sermos eficazes na mentira.

A melhor mentira é aquela na qual acreditamos, e acreditamos sempre naquilo que não fere demais nossa razão, então, como ele diz, alguém pode convencer-se da mentira se puder se agarrar a um “fiapo de razão” em sua narrativa. Desse modo, para um político desses aí da lista da Odebrecht, é bom não ter estado na sala da negociação da propina, onde se tratou de fato de valores e lugares de entrega do dinheiro, pois isso permite que depois, ao montar a narrativa para desmentir acusações, pode-se contar com a meia verdade e, então, não ficar vermelho, não enrubescer. Meia mentira é verdade para um cérebro adrede preparado para enfrentar denúncias de falcatrua.

Pode-se acoplar essa explicação de Schwartsman a uma outra, citada por ele só de passagem. Trata-se da linguagem utilizada. Esse tipo de explicação é mais objetiva, digamos, pois escapa da ideia de comando do cérebro ou do aparato psicológico. A linguagem tem vida própria pela sua semântica e pela sua sintaxe, enquanto que a pragmática é a parte dela ligada aos homens. Então, a linguagem, em sua vida própria, por ela mesma mostra os limites de seu uso na pragmática, dados pela semântica e pela sintaxe. Uma narrativa que tenha algum “fiapo de racionalidade” e que permite que alguém, ao contar sua história, inclusive e principalmente para si mesmo, fique convencido dela, é aquela que apela para palavras não dobráveis facilmente. Palavras e frases que podem se dobrar à pragmática, nessa hora, não são boas. Por isso, o discurso do politico para ele mesmo é calçado sempre em palavras com grande teor de objetividade. O uso do “não” é peremptório. O uso de lugares também. Assim, deve-se dizer: “não estive em tal lugar, não negociei valores, não pedi nada”. Essas frases ou são verdadeiras ou não são verdadeiras por si mesmas. São objetivas. Uma vez ditas, trazem a narrativa para o campo do observável. E tem tudo para fazer o político vencer a parada.

É diferente quando alguém diz, como Emílio Odebrecht, coisa como “nós ajudamos fulano de tal”. Ajudar é alguma coisa que cabe intervenção de outro no campo interpretativo. E foi assim que o Dr. Bruno, o promotor que o interrogava, pode lhe dar uma lição ao falar para ele que a palavra não era “ajuda”, mas fornecimento de propina. E depois lhe ensinou que aquilo era um crime. É interessante notar que o promotor, por dever de oficio, tinha que fazer aquilo (não foi bulling, tá?). Pois caso Emílio Odebrecht insistisse que o que fez não era um crime, ele seria imediatamente avaliado não mais pela objetividade da linguagem, mas pela subjetividade apresentada, ou seja, seria necessário ver a sua possibilidade de ser declarado incapaz de entender a linguagem humana corriqueira. Então, os médicos iriam salvá-lo de alguma punição, talvez. No limite seria declarado inimputável. Mas isso não lhe interessaria, pois então toda a deleção premiada que salvou sua empresa iria por água abaixo.

Jogos de linguagem (Wittgenstein) são variáveis, claro. Mas jogos de linguagem não são produtos de arranjos subjetivos misteriosos. São arranjos que se colocam objetivamente. O promotor exigiu de Emílio Odebrecht que ele mostrasse conhecer a objetividade do jogo de linguagem usado pela promotoria, o jogo de linguagem que tipica crime. O empresário não teve saída. Abaixou a cabeça e confirmou que o que fez foi errado, ilícito, ilegal. A batalha pela verdade é antes de tudo uma batalha no sentido de dar luz e espaço para os jogos de linguagem. Se não entendemos isso, não entendemos o conceito contemporâneo de verdade, que a filosofia analítica tão bem nos ajudou a circunscrever.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 18/04/2017

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4 Responses “Hélio Schwartsman e o segredo da boa mentira política”

  1. Ecce Homo
    22/04/2017 at 18:09

    Professor, por que a picaretagem dos nossos políticos, o sistema generalizadamente corrupto que sempre tivemos no Brasil, não pode ser incluído no rol de sintomas da “leveza” (ou “abundância”) do nosso tempo? Ou colocando de uma outra forma: por que o senhor assume, no caso da corrupção, uma postura totalmente diferente de outras situações onde parece vibrar (ou pelo menos entender como um fatalismo) diante de um mundo onde o fútil, o vazio, a completa falta de sentido ou significado não é uma tragédia mas uma ponte para um mundo melhor e um homem superior? Por que quando se trata de corrupção o senhor adere ao “senso comum” de uma ética limitadora (burguesa, cristã etc)?

    • 22/04/2017 at 18:19

      Ecce Homo! Só uma pessoa bem imbecil, mas imbecil mesmo, falaria da corrupção como leveza, em qualquer sentido. E só uma pessoa mais imbecil ainda, iria dizer que a corrupção é algo do mundo, que sempre existiu, que é normal. A pessoa que fala isso não sabe como funciona o ranking da corrupção mundial e, pior, não sabe nada de nada, é um besta. Há países em que a corrupção é tão baixa e os crimes são tão baixos que nas prisões sobram vaga e que os impostos possuem um aproveitamento de quase 100%. Mas, enfim, temos de conviver com essas bestas também. Agora, há aquela besta maior, aquela besta com a qual não dá para conviver, é aquela que acha que ética burguesa ou cristã é “limitadora”, ou seja, aquela pessoa que não aprendeu o conceito de ética. Essa não dá.
      Agora, tudo isso é para uma pessoa hipotética. Não é para você. No seu caso, a resposta direta para o seu caso, é a seguinte: você não entendeu o conceito de leveza de Sloterdijk. Aliás, esse conceito não é “realista”. Sloterdijk não é um filósofo realista. Nem eu.

  2. Hilquias Honório
    19/04/2017 at 23:48

    Cada vez mais, com a ajuda dos textos do professor, tenho aprendido sobre a ligação de linguagem e filosofia, muito além dos livros da escola. Mais picaretas que os nossos corruptos, só o Reinaldo Azevedo defendendo o Lula. Eu lia agora pouco o seu artigo sobre a vitória de Dilma e a questão do salário de nossos professores, em 2014. Quem diria que chegaríamos a essa situação, em menos de 3 anos. Mas ainda acredito que o Brasil vai pra frente, desde que o plano dos três patetas safados (Temer, FHC e Lula) seja frustrado pela sociedade brasileira.

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