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26/03/2017

Gilles Lipovetsky vem aí. Mas como não viria?


Há dez anos, exatamente em 2007, Gilles Lipovetsky lançou com Jean Serroy o fácil A cultura-mundo, publicado no Brasil pela Cia. das Letras em 2011. Nesse livro, tentou falar do tripé que rege nossa vida: mercado, tecnologia e individualismo. Entre tantas denúncias que fez, retratando a fase de nossa modernidade, destacou no âmbito cultural como que viveríamos, cada vez mais, não o fim da venda dos livros de filosofia, mas o contrário – com modificações profundas.

Estaríamos sob a  transformação da filosofia. Os autores lidos seriam os que satisfizessem o nosso novo desejo. “O desejo já não é tanto sair de si quanto ser confortado e tranquilizado”. Para tal, teríamos de conviver cada vez mais, na prática, com os “jornalistas-estrelas de televisão”, então “mais célebres que os escritores”. Teríamos uma fase de coqueluche de “intelectuais-estrelas”. Seriam pessoas de sucesso, claro. E ele complementa: “Aliás, por que seria diferente, em uma época em que os intelectuais não defendem outros valores senão os que já reinam na sociedade civil e política?” Profético!

Este ano de 2017 Gilles Lipovetstky estará no Brasil no evento chamado Fronteiras do Pensamento. E por mais que possamos gostar e louvar o evento, não temos como não perceber que ele, Lipovetsky, vem na condição antes de intelectual-estrela do que professor ou pesquisador acadêmico. Não quero diminuir a obra dele, claro que não. Mas que e´assim que ele vem, de fato é. Não sei o quanto ele se vangloria ou ele se pune por ter anunciado a si mesmo dez anos antes!

Seus livros não são teóricos. São livros descritivos. Útil inventário da modernidade. Mas, para falar a verdade, Lipovetsky após inúmeros lugares comuns repetitivos falando de “hipermodernidade”, “hiperconsumo” e hipertudo, cede a um tedioso “algo bom de um lado e algo ruim de outro lado”. Se estivesse nos anos setenta e oitenta um bobo diria: é um dialético. Ele vê coisas ruins e boas no hipertudo (!). Não, não estou falando que é o lixo apresentado por Bauman e sua liquidez crônica e sem sentido. Estou apenas dizendo que Lipovetsky, somente em raros momentos, teoriza, mas que gasta tempo demais na descrição repetitiva de fenômenos que caberiam todos em apenas um livro de no máximo 80 páginas, e não em uma produção que não sossega o facho. É incrível que ele não tenha percebido que relatou sua própria banalidade. Ou percebeu e está só surfando em alguns trocados de dólares, como alguns bobos da corte daqui o fazem em míseros reais?

Agora, há algo nele válido? Sim, claro. Uma das ideias é boa. Trata-se da ideia de tempo, que aparece no livro O império do efêmero, também publicado aqui pela Cia das Letras. Ele percebe que o tempo perde seu caráter temporal, e o chamado instantâneo ganha a cena. Faz isso num bom estudo sobre algo que Gabriel Tarde chamou de “a derrota da tradição”. Quem faz esse derrota? A moda. Esse é o elemento melhor estudado por Lipovetsky e é nesse campo que ele consegue alçar voo. A moda é o reino do pontual e, por isso mesmo, ela é o fenômeno que comanda a maior parte dos outros fenômenos em nosso mundo. Tudo é feito em ritmo de estação e desfile, no compasso da ideia de moda. A moda é algo próprio da modernidade, mas aos poucos ela se tornou o que faz a modernidade ser como é. Esse é o dado novo.

Outras épocas tiveram estilos e padrões. Só a nossa modernidade tem moda. E só a nossa modernidade acabou sendo não somente a sociedade do espetáculo da mercadoria (Debord), mas a mercadorização posta a toque de caixa pela batuta do maestro chamado moda. O modo de produção e consumo de nosso capitalismo é o modo da moda. E a maneira que as pessoas se relacionam com as outras é dada pela maneira que as garotas que são manequim amam: muita performance, pouca profundidade, menos tempo. Não à toa todas as garotas querem ser modelos. Pois ser modelo significa ser alguém vivo. Ainda que saibamos que a moda é o reino do morto, pois é tudo que já nasce para morrer, é preciso notar que isso tem tudo a ver com uma geração que tem pressa. Sendo assim, então, cada jovem que é formada para ser lixeira ou jornalista ou médica, ainda assim, nisso tudo, aprende a agir como as modelos.

Lipovetsky permite que eu pense nessa moda como modelagem do mundo e do tempo. Nisso, ele ajuda as ciências humanas. E novamente isso anuncia ele mesmo. Ele não é um autor que ficará para além da moda.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 19/03/2017

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One Response “Gilles Lipovetsky vem aí. Mas como não viria?”

  1. Brandamente
    20/03/2017 at 20:06

    Excelente… E pensar que as vanguardas desejaram tanto o novo e a “vidência” do porvir, mas acabaram engolidas pelos e mod-ismos (cubismo, futurismo, surrealismo, etc.) e fascismos dos anos 30/40 como todo o resto.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo