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24/09/2017

Filósofo germano-coreano Byung-Chul Han contra a civilização do “curtir”


Não é ódio à Internet. Nem uma crítica religiosa e passadista à mídia. O que Byung-Chul Han fala a respeito da Internet é que ela consagra aquilo que eu chamo de pensamento plebiscitário, e que talvez seja mais apropriado chamar de não-pensamento ou anti-pensamento. Trata-se da civilização-Pinochet, o campo do plebiscito. O Facebook e os “reality show” estilo BBB são uma forma de civilização-Pinochet. Todos são consultados, todos exercem seu comando. Mas nada sai que seja realmente algo refletido, pois o modo da pergunta não é de pergunta, mas de resposta pronta. “Curto” e “não curto”, Like it e not like it, fica na casa ou sai da casa – eis o mundo no qual tudo é decidido por um movimento do polegar. Polegar com cérebro é uma invenção dos romanos, para morte e não morte nos estádios, e que nós contemporâneos estamos revivendo como sendo a morte do cérebro popular. Para que pensar se temos o polegar? Ele reina na superfície lisa, o aparelho touch, e também nos ícones do Facebook.

É interessante notar as observações de Byung-Chul Han em comparação com as de Peter Sloterdijk. O primeiro fala em estética do liso e sociedade da positividade, o segundo fala em espaços de mimo e desoneração moral e intelectual. Han nota “like it” e “not like it” e Sloterdijk nota “download” e “user”. Se para o primeiro o notável é a rapidez da aprovação e desaprovação, para o segundo é necessário ver que ninguém é mais leitor, mas usuário, e que ninguém mais se cultiva, mas “carrega”, “baixa”, isto é, “faz um download”. Eu acrescento: clouds. As pessoas acessam nuvens. Quer mais desoneração que isso? As nuvens cumprem a risca o observado por Han e Sloterdijk, e já deixam esses dois autores um pouco atrás da minha própria reflexão. Pois o tempo passa rápido nos tempos rápidos atuais. Acessar a nuvem é não ter nem que dizer like ou not like, basta deixar lá para uma visita sem compromisso. Não há que se fazer download algum, e portanto nem mesmo o sobrecarregamento de usuário é necessário. Basta que os ventos das nuvens se encarreguem de tudo. Toda e qualquer reflexão se torna supérflua, todo e qualquer compromisso se torna fora da moda, brega. Há pouco tempo escutei de um personagem de TV, que se diz filósofo, que o compromisso com causa de ajuda aos outros é brega. E o tonto ria disso!

Uma sociedade em que o fluxo de tudo é o que importa, de modo que a sociedade de fluxo antes de marcas que de mercadorias dê o padrão para vida, não pode querer outra coisa que não o fim do rugoso, como vê Han, e o fim da oneração, como vê Sloterdijk. Uma sociedade que tem a Internet a fazer o serviço de colaboração com esse novo modo de vida, caminha rapidamente para esse seu objetivo. O importante é que possamos aparentar-nos cultos por conta de saber fazer download ou frequentar nuvens. O importante é que possamos aparentar-nos inteligentes por julgarmos depressa, e viver numa aparente democracia por podermos julgar. Decidir rápido virou sinônimo de julgar. Decidir tudo por plebiscito virou sinônimo de votar.

Nossa sociedade está infestada de pessoas que dizem “vá direto ao ponto” ou de autores que escrevem “educação sem blá blá blá” ou “Hegel em 90 minutos”. O importante é que tudo isso, agora, esteja na nuvem. Estando lá, etereamente, é nosso. Se tenho isso nas nuvens, tenho no céu. Nada há de mais abençoado que o céu.

“Onde está com a cabeça menino, nas nuvens?”. Era assim que a professora nos admoestava, lembram? Agora, se ela diz uma frase desse tipo, o aluno pode orgulhosamente responder: “sim, está na nuvem”. Mas sabemos, a cabeça dele pode estar em qualquer lugar, o cérebro do polegar é que está acessando nuvens. Muitos macacos acreditam pensar igual a humanos, dado que usam o polegar.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 03/04/2017

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2 Responses “Filósofo germano-coreano Byung-Chul Han contra a civilização do “curtir””

  1. Eduardo Rocha
    04/04/2017 at 21:52

    Paulo, qual a doutrina de Henri Bergson?

    • 04/04/2017 at 22:09

      Pergunte para o Paulo Francisco Martins Ghiraldelli, ele estuda Bergson, eu não.

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