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16/11/2018

Explicar Bolsonaro pela vulgata da Escola de Frankfurt? Ah, já deu né?! Que chato!


[Artigo para o público acadêmico]

Vi um vídeo do professor Christian Dunker sobre o “discurso de Bolsonaro”. A simplista cantilena usada pela velha Escola de Frankfurt para explicar o fascismo é repetida para Bolsonaro. Já fora repetida para explicar Collor. Professores de esquerda são tão pouco criativos quanto os da direita. Todo dia aparece coisa nova, mas eles nunca conseguem abordar o novo pois já de início o encapsulam em velhas carcaças teóricas. Só conseguem falar do que já sabem falar por conta de modelitos, e eis que o novo lhes escapa pelos vãos dos dedos.

Se ouvirmos o que o professor Dunker fala de Bolsonaro e compararmos sua fala com o que Marilena Chauí escreveu sobre Collor, notaremos algo bem esquisito: o fascismo de Mussolini voltou em 1990 e agora em 2018. Ou seja, não há história, há só o fascismo andando segundo uma roda de repetição. Bastou a sociedade cair em dificuldades, com inflação e desemprego (caso não seja a esquerda que esteja governando), e eis que tudo o mais é desconsiderado, fala-se então em “anomia social”, e aí é necessário aparecer aquele que é o simplório que fala para simplórios, e nessa hora todos são identificados como querendo um pai simplório que deverá resolver as coisas sem as instituições, sem “mediações institucionais”, de maneira direta e rápida. Nessa explicação, o povo apela para um líder fascista que cria o “inimigo comum” de grupos que, graças a tal inimigo comum, recuperam seus laços de coesão. Adorno e Horkheimer e outros da Velha Escola de Frankfurt usaram dessa “psicanálise” em ritmo de sociologia para falar do nazi-fascismo. Os intelectuais professores os leram isso e nunca mais voltaram a pensar. Repetem isso, o modelito frankfurtiano que, enfim, é uma vulgata.

É interessante notar que um rapaz de direita como Pondé faz uma explicação sobre o Bolsonaro quase igual ao do professor Dunker. A ideia básica ainda é a dos frankfurtianos (e adjacências que, às vezes, saem do campo da esquerda): tipos de líderes assim, como Bolsonaro, funcionam por falta, sem positividade alguma. Aparecem por carência, por esvaziamento de almas, por cansaço democrático, por anomia. Assim, não existe mais positividade nesses líderes. E com tal análise, tomamos todos que os seguem por tolos (alienados? este é o termo dessa esquerda carcomida?) e tomamos a agenda de mudanças que eles propõem como algo a ser desconsiderado.

Chamar todo mundo de fascista e aplicar o mesmo esquema frankfurtiano para tudo é um erro crasso. Achar que líderes que estão no lado com o qual não simpatizamos (por razões diversas) funcionam só no vazio social ou na fraqueza da democracia e no caos econômico, isso é pior ainda.

As desgraças sociais podem gerar “salvadores da pátria”. Mas Trump não foi eleito por nenhuma desgraça social. Muito ao contrário, quem foi eleito na desgraça americana, no caos financeiro, foi Obama. Ele salvou a América. Entregou os Estados Unidos em franco crescimento – que vem sendo aproveitado por Trump. No Brasil, estamos longe de algum caos social. Aliás, nem inflação temos que chegue perto do que vivemos em outras crises. E mais: já suportamos desempregos mais rigorosos do ponto de vista de consequências de sobrevivência. No entanto, temos sim uma crise, e se na crise alguém da direita desponta na preferência eleitoral, mesmo que pequena, eis que o esquema de explicação freudo-marxista caolho retorna. Ele faz a esquerda descansar, ou seja, ele proporciona à esquerda a aposentadoria do cérebro. Esse esquema teórico funciona assim como a função “autocompletar” do computador. Descansa! Ajuda os professores que já não pensam a pensar menos ainda.

Tipos intelectuais que explicam tudo pela carência, pela falta, pela ideia de vazio que precisa ser preenchido, não admitem que as pessoas possam acreditar que soluções de extrema direita (ou extrema esquerda) sejam racionais e que possam atrair gente pela sua positividade, pela sua agenda positiva. Esse tipo de intelectual acha o centro, ligeiramente conservador ou ligeiramente à esquerda, como o lugar sadio, o lugar dos que são pessoas normais. Radicais são vistos como casos patológicos. E são igualados pela tarja “fascista”, ou pela tarja “revolucionário de esquerda”. Há algo mal resolvido nos pais de Lênin ou de Hitler – assim pensa esse intelectual morno, não raro barrigudo. Aliás, gente assim, com essa facilidade de explicar tudo pelo freudo-marxismo de boteco, só sabe ver Lênin e Hitler como casos patológicos. É como novela da Globo: se alguém é muito radical, é logo sinal que, no fim, irá virar louco. A única novela que fugiu a uma tal regra foi essa da Catarina (Marquezine). A princesa garantiu até o final sua posição política e não foi internada nem ficou na prisão rindo feito louca. Morreu assumindo seu gosto pelos valores hierárquicos da nobreza (visto por nós, modernos e democratas, como sem compaixão).

Enquanto patologizarmos a vida dos que não comungam com nossa vontade de viver no meio termo, na vidinha burguesa do liberal conservador ou do social democrata, no estilo Homer-Margie, vamos ficar usando a tecla “autocompletar”. Essa tecla é a anti-filosofia.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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14 Responses “Explicar Bolsonaro pela vulgata da Escola de Frankfurt? Ah, já deu né?! Que chato!”

  1. LMC
    27/08/2018 at 13:37

    Enquanto isso,no mundo real,o Ciro
    queria visitar o Lula na cadeia,mas
    o STJ não deixou.Ciro é o Haddad 2.0,mesmo.

  2. wndyr sachisida
    24/08/2018 at 22:28

    corrigindo: empreguei mal o verbo estar. o correto é “que ele esteja”…

  3. wandyr sachisida
    23/08/2018 at 21:53

    presumo, professor, que este tal joão bugalho está confundindo alhos com bugalhos. “bugalho” bem faz juz o sobrenome dele!(risos)

  4. 23/08/2018 at 18:32

    Achei que tu era social-democrata, Prof Ghiraldelli

    • 23/08/2018 at 19:28

      Acho que você não entendeu nada, eu sou filósofo. Filósofo é uma coisa antiga, vem de antes da política ser dividida em esquerda e direita.

  5. 23/08/2018 at 18:30

    Achei que o prof Ghiraldelli era social-democrata

  6. wandyr sachisida
    22/08/2018 at 10:52

    corrigindo: o professor ghiraldelli apenas escreveu o primeiro livro da mencionada coleção- “o que é pedagogia”.

  7. wandyr sachisida
    21/08/2018 at 15:14

    desculpe-me, Eduardo, mas o próprio Paulo ghiraldelli júnior dessa coleção à qual você se refere: a coleção pimeiros passos, autor de “o que é pedagogia” e “o que é corpo(latria), se não me engano. aliás, tenho vários volumes dela. são pequenas introduções aos diversos assuntos ali tratados, sem a mera pretensão de esgotá-los. muito boa, viu?

  8. Igor
    20/08/2018 at 13:45

    Quando assisti ao vídeo do Christian senti uma angustia existencial, como alguém consegue com a posição que ele tem fazer um comentário vazio, alienado como o fez?
    Estou acompanhando seu site há um tempo e gosto muito das suas “sacadas”. São insights com alta dose de humor e lucidez. Um abraço, Paulo.

    • 20/08/2018 at 19:04

      A ideia aqui é fazer uma filosofia como crítica da cultura, num sentido vivo, onde o instrumental técnico seja trabalhado, às vezes, para todos.

  9. JOSÉ FERNANDO DA SILVA
    20/08/2018 at 13:39

    Pontual e certeiro seu texto. E cá entre nós, Horkheimer e Adorno são, do ponto de vista filosófico, fraquíssimos (seus textos sobre estética musical são deploráveis, deveriam ter lido as Vermischte Bemerkungen de Wittgenstein antes de escrevê-los…)

    • 20/08/2018 at 19:05

      Não Fernando, Adorno e Horkheimer são excelentes em filosofia. Você não leu os textos deles em filosofia. Minima Moralia é um clássico. O Dialética do Esclarecimento idem. Acho que você conhece deles a vulgata sociológica.

  10. LMC
    20/08/2018 at 12:46

    Nossa esquerda sempre precisa do
    voto dos funcionários públicos que
    são tratados por muita gente como
    vacas sagradas indianas ou enviados
    de Jesus na Terra.Lula,pra eles,é Deus.

    PS:Bolsonazi é o cruzamento de
    Jânio,Collor,Trump e Mussolini.

  11. Eduardo
    20/08/2018 at 10:26

    Sobrou vida inteligente na esquerda brasileira Paulo?
    É quase impossível conversar de jeito sério sobre o quadro atual tentando sair dos esquemas de pensamento típicos daquela coleção “o que é” dos anos 80 em que quase todos os textos apontavam para a redenção “marxista” ao final. Aqui a redenção é sempre em Lula e contra o fascismo. Claro que seu texto não fala de Lula explicitamente, mas o que eu digo é que se você argumenta por outras perspectivas – tenho aprendido ampliá-las aqui no seu blog – você é logo taxado, dentro dos cursos de humanas, como bolsonarista. Tá foda!
    Nossa intelectualidade progressista não consegue fugir desse quadro cognitivo, nem aqueles que trabalham com outras perspectivas teóricas como os psicanalistas ou foucaultianos. Ao final todos fazem uma leitura “petista” da coisa.

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