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18/11/2017

Esquerda e direita em Peter Sloterdijk


Podemos falar em direita e esquerda atualmente? Claro que sim! Mas seria tolice, em filosofia social e política, não notar os deslocamentos dessa divisão na vida contemporânea, para além da prisão – e banalização – do vocabulário jornalístico. No meu entendimento, Peter Sloterdijk é quem melhor apreende as vicissitudes semânticas pelas quais estamos passando nesse quadro de definições sobre o que é a esquerda e a direita. É de meados dos anos noventa essa sua observação:

Estamos envolvidos em uma guerra mundial invisível e incompreendida, uma guerra das profundezas pelo peso do mundo. É a luta do leve contra o pesado. Até aqui, esta guerra era idêntica à luta entre a esquerda e a direita, porque a esquerda ou o pensamento de esquerda significava a vontade de aligeirar a vida, de suprimir os pesos indignos que sobre nós pesam. O que é pesado é inumano, tal era aproximadamente o axioma latente da esquerda. Ser moderno e de esquerda significava apenas, num primeiro tempo, viver num projeto que visa o aligeiramento e participar nas conquistas que tornam a vida mais leve ao maior número possível de pessoas. Mas estas ações epocais da esquerda foram sempre paralelas a uma reação da direita que se manifestou com ruído e arrogância a partir do fim do século XVIII. A direita ou o pensamento de direita tirava a sua substância do fato de se rejeitar a nova leveza e que se pensasse sobre os limites do aligeiramento. A direita, até ontem, era o partido do peso, à direita acreditava-se no invencível, no incontornável (…) É a razão pela qual a direita sempre teve um conceito de realidade mais duro, mais coriácio e também mais sombrio (…)”. (1)

Assim escreve Sloterdijk para, logo em seguida, mostrar que os caminhos do peso e da leveza ganharam outros protagonistas, talvez em sentido inverso. Cito novamente:

(…)a revolução do aligeiramento passa pelo monitor. Em consequência, praticamente todos os fazedores de tendências estariam hoje virados para a esquerda; infelizmente, já ninguém define claramente como é que se pode pensar hoje o princípio de esquerda. A nova esquerda são os chefes de empresa à procura de uma sociedade suficientemente moderna para os produtos deles. Na corrente central da tecnologia moderna os motivos da vida aligeirada progridem irresistivelmente, mas quem faz a publicidade desta facilidade fá-lo hoje de posições que antes se considerariam burguesas e conservadoras. Hoje em dia, o conjunto econômico é percorrido por uma só mensagem: temos de estar preparados para a transformação em todos os domínios e rapidamente. É retórica revolucionária em estado puro saída agora da boca de managers, de conselheiros e de designers. A guerra mundial que acontece a nível profundo entre o leve e o pesado sobre a sua escalada numa nova fase e frentes tradicionais invertem-se em numerosos pontos. A antiga direita segue sobre o ligeiro e variável e algumas pessoas da esquerda antiga descobrem o campo do peso – é o que imprime a rotação ao turbilhão atual”. (2)

Essas notas sobre o aligeiramento foram lidas com cuidado por Gilles Lipovetsky. Limpando as conotações políticas do texto, ele aproveitou esse insight de Sloterdijk para sua pesquisas sociológicas, apresentando as tendências ao leve em um interessante livro com significativo título, Da Leveza – para uma civilização do ligeiro. (3) Esse livro teria deixado Sloterdijk para relativo escanteio, mas acontece que o filósofo alemão retomou o tema, desfez-se da semântica esquerda-direita, e o reinseriu no campo de uma metafísica do cotidiano contemporâneo. Surgiu então, no III volume da trilogia das esferas, a ideia de levar às últimas consequências a expressão “a insoportável leveza do ser”. (4)

Nessa caso, como expus em Para ler Sloterdijk (5), o filósofo alemão criou uma dialética entre o ligeiro e o empedernido, mostrando que a cada fase de aligeiramento, os próprios arautos desse vetor precisaram buscar algo com algum novo peso, para enfrentar o risco de perderem o pé de qualquer ontologia e, assim, se desconectarem do que chamamos de realidade. Pois não há a noção de realidade sem a noção de peso, dureza e sacrifício. O Sloterdijk atual, então, está mais capaz de conversar em termos puramente filosóficos, e não mais crivado pela filosofia política. É certo que ele lembra, claro, que Mussolini definia o fascismo como “horror à vida confortável” (6), mantendo aí a ideia da direita como o partido do peso. Mas, nesses escritos mais novos, da trilogia das esferas, o que importa para Sloterdijk é entender como que todo ato de Ícaro, procurando a leveza, pode ser um ato suicida, uma experimentação sem as responsabilidades necessárias. O mimo é um plus – um “mais” também de responsabilidades. Cabe notar a experimentação, sim, mas incapaz de se fazer, hoje, sem a salvaguarda atual de criar jogos e desportos “radicais” atrelados à falsa sensação de segurança dada pela tecnologia de ponta e pelas companhias de seguro.

Mas isso significa que Sloterdijk abomina de vez a terminologia esquerda-direita? Não! Significa que ele a utiliza mais parcimoniosamente. Ele próprio entende sua pesquisa encerrada pela trilogia das esferas como algo pertencente ao campo da esquerda. Mas aqui, a ideia de leveza se infiltra na ideia de pesquisa em torno das “fontes das manifestações de solidariedade”.  (7) Haveria aí, na solidariedade, algo da esquerda (tomado o termo em sentido amplo), e se uma pesquisa é em torno da nossa aptidão para o relacionamento – que é de fato o centro da trilogia das esferas -, então, no limite, ela ainda estaria plenamente vigente num plano que diz respeito às mudanças, atinente ao caráter revolucionário da bondade humana.

Paulo Ghiraldelli Jr. 60, filósofo. São Paulo, 04/09/2017

  1. [1998] Sloterdijk. P. Intoxicação voluntária. Lisboa, Fenda, 2001, pp 114-16.
  2. Idem, ibidem, p. 116.
  3. [2015] Lipovetsky, G. Da leveza. Lisboa: Edições 70, 2016
  4. [2004] Sloterdijk, P. Sphärein III – Schäume. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2004, p. 729.
  5. [2017] Ghiraldelli, Jr. P. Para ler Sloterdijk. Rio de Janeiro: Via Vérita, 2017.
  6. Idem, ibidem, p. 142.
  7. [2013] Sloterdijk, P. Selected exaggerations. Malden: Polity, 2016, p. 110.

 

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4 Responses “Esquerda e direita em Peter Sloterdijk”

  1. Gabriel
    13/09/2017 at 12:49

    Paulo. O que é capitalismo neoliberal, que impede a democracia de se desenvolver, que meus amigos de esquerda tanto falam que destrói o mundo? Não me considero de direita nem de esquerda, mas eu não consigo engolir esse papo, pois os EUA é um país altamente capitalista e com alto índice de desenvolvimento humano. Li um texto seu sobre os espaços de animação que nos impulsionam a viver como vivemos e de maneira interessante. Se algo dessa crítica a esse chamado capitalismo neoliberal que domina o mundo é válida, qual é meu amigo e o que é isso? Se você tiver algum interesse em me responder, eu agradeço e se não numa boa também. Obrigado pelos seus textos e por nos apresentar tantas reflexões interessantes.

  2. 04/09/2017 at 16:00

    Melhor artigo que li sobre esquerda e direita nos últimos tempos. Excelente artigo. Parabéns!

    • 04/09/2017 at 23:38

      Mais um motivo para pegar o Para ler Sloterdijk (Via Vérita), ler e criticar.

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