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19/08/2017

A sociedade espelhada


Combustível fóssil, penicilina e espelho. Nosso universo contemporâneo é fruto deles três.

A descoberta e a  utilização dos combustíveis fósseis libertou o homem da sua dependência de horas massacrantes de trabalho, dando oportunidade para uma reorganização completa do nosso modo de vida. A descoberta da penicilina nos fez abolir de vez a ligação entre filosofia e medicina, e nos levou à secundarização do chamado “viver bem”, ou o que hoje chamamos de parte da medicina preventiva. O aparecimento da superfície polida que conhecemos hoje como espelho, facilmente encontrável e interno às nossas casas, tornou-se um objeto de uso ao final do século  XIX. Só com essa proliferação do espelho o homem veio a adquirir o que precisava para dar um passo decisivo na constituição do indivíduo, como algo que já vinha sendo teorizado desde o início da modernidade.

Adquirimos essas características que temos hoje, especialmente no Ocidente, por causa desses três elementos.  Tempo livre para mais gente, enfrentamento de doenças e ampliação do tempo de vida e, por fim, capacidade de tomar-se por uma unidade individual que se cuida para se apresentar aos olhos dos outros de uma maneira menos socialmente interativa, são os ingredientes para o cozimento do barro do homem contemporâneo. Sem dúvida, a ideia do indivíduo autônomo, ético-moral por ser livre, é alguma coisa de nossos tempos e só de nossos tempos. É algo próprio da subjetividade contemporânea.

Mas é interessante que o último elemento, a presença do espelho, tenha sabido receber os outros dois elementos em proveito próprio. Temos tempo livre para o espelho. Temos vida longa para o espelho. Observando nossa época a partir da consideração desse triunvirato, parece que o espelho se tornou o receptáculo das alterações criadas pelos outros elementos. A leveza e a desoneração gerada pelo viver mais e melhor e ter espaços de lazer requisitou da subjetividade um olhar em busca de um novo belo. A beleza se tornou aquela gerada pela superfície polida. Nada é mais leve que o lugar sem rugas, sem atrito. O espelho é par excellence o campo não rugoso, o que pode acolher o belo e reformulá-lo como sendo o que não impede o deslize. O mundo aligeirado de Lipovetsky, o mundo desonerado e da vida nua de Agamben, o espaço de mimo acolhedor da sociedade da leveza de Sloterdijk, a sociedade do espetáculo de Debord e o narcisismo de Lasch são todos os nomes que não se opõem à sociedade sem negatividade de Byung-Chul Hang. Ora, uma sociedade não negativa é uma sociedade em que ninguém mais anda, mas apenas desliza. Todos devem ter um skate nos pés e uma cabeça a mais vazia possível. Chão liso, paredes polidas, tetos de espelho: eis o espaço urbano belo de nossos dias. Nada de impedir o fluxo de gente, capitais e informações, do mesmo modo que nada deve se opor as proliferação das marcas que fazem a sociedade de mercado acontecer pelo fluxo das mercadorias.

Essa ideia do mundo não rugoso e positivo é o que está melhor consubstanciado no espelho. Ele devolve a todos não pensamentos, mas rostos chapados, tão lisos quanto ele. Caso algum rosto tenha a ousadia de lhe desafiar, eis que cirurgião plástico, as vitaminas e cremes geriátricos e, por fim, as academias e os milagres estarão todos a postos para que ninguém se mostre ao espelho como sendo capaz de pensar, ou tendo história. Um espelho digno devolve o liso ao liso. Devolve o rosto sorridente e cheio de dentes do midiagogo imbecilizado e as partes pudendas depiladas que apontam, na verdade, para a mutilação do clitóris. O mundo que importa é aquele que Jeff Koons vem modelando.

Temos convivido tanto com o espelho que não nos damos conta que nossa subjetividade contemporânea é um seu fruto. Nos esquecemos que vivemos durante muito mais tempo sem espelho que com espelho. A superfície polida do espelho, como um lugar que guarda nossa imagem, não tem duzentos anos. Mirar-se no espelho todas as manhãs é algo muito recente no âmbito de nossos costumes. Mas agimos nas nossas considerações sobre nós mesmo como se desde as cavernas fizemos isso, a do cultivo da prática de olhar no espelho. Lacan caiu nesse erro, de naturalizar acriticamente o “estágio do espelho”. Outros, atualmente, tomam o espelho apenas como assunto que é novidade como peça de decoração. Não refletem sobre o que é decoração. Não percebem que é ele, o espelho, que está no centro da vida contemporânea, que olhamos mais nele do que em qualquer outra coisa durante o dia. Queremos a todo momento uma resposta do espelho. Somos muito mais dirigidos pelo espelho que a Rainha de Branca de Neve o era pelo seu companheiro mágico e fofoqueiro. Não podemos nos desfazer dele. O espelho não mágico é perverso.

Não poder nos desfazer do espelho é simplesmente o seguinte: não há como voltar a uma sociedade gerada pela confluência e contestação de pensamentos, ideias, doutrinas, modos de objeção e posições quanto às decisões. Uma sociedade movida pelo confronto de ideias é uma sociedade em que a subjetividade se constrói pela presença da alteridade. Diferentemente, uma sociedade movida pela devolução da imagem espelhada é uma sociedade em que a subjetividade se torna tão lisa e sem fundo quanto o próprio espelho. Há uma perda de complexidade interior em nossa época. E isso deveria ser analisado, por nós intelectuais e especificamente filósofos, sem um torcer de nariz, mas com o intuito de entendimento de nossa época.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 01/04/2017

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4 Responses “A sociedade espelhada”

  1. Jean Pessoa
    13/04/2017 at 11:05

    Interessante pensar também a moldura do espelho. Formalizando e universalizando a priori, como Kant, a imagem projetada em uma estética de cada manha. Mesmo o espelho de um nobre holandês do século XIX, como de um catador de latinhas do Brasil atua, atuarão em mostrar o aumento de rugas e possíveis remelas endurecidas, mas ambos os espelhos se omitirao em refletir uma coisa, o que ha de mais intimo no homem, o bafo matinal.

    • 13/04/2017 at 11:29

      Exato Jean! Sem contar o cheiro de xana, de um self da xana.

  2. Eduardo Rocha
    02/04/2017 at 14:15

    Esse texto é exatamente onde parei na obra de Sloterdijk. Entre rostos: sobre o surgimento da esfera íntima interfacial. Caberia aí a subjetividade de enclave que leva a um primeiro ápice a ocupação do homem consigo mesmo e seus estados interiores; estamos diante de uma forma originária do cuidado de si segundo Foucault.
    Paulo e o que falar da arte contemporânea onde apresenta uma detração em que o rosto é algo inumano? A modelagem do rosto é feita pela detração e abstração, ou seja, o rosto agora é deformado e esvaziado, algo como uma espécie de fragmentação. O rosto agora seria uma matéria bruta antes a matéria bruta preparava o próprio rosto. Os homens têm seus rostos não para si mesmo mas para os outros. Aquilo que no espelho modelo para para colocar na vista dos outros. A interfacialidade humana é um olhar para o outro que são observados por esse outro também, e ao final, acabam voltando para si mesmos.

    • 02/04/2017 at 14:19

      Não, não é onde você parou. Ali no Sloterdijk há um outro viés, aquilo é uma arqueologia da intimidade, uma construção gerada na alteridade. Estou falando da não -construção, e o fiz a partir de outra perspectiva, a de Byung-Chul Han.

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