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21/10/2018

Edgar de Assis Carvalho – um descaminhante sem devaneios e nada solitário


[Texto preferencialmente para o público acadêmico]

 Nota sobre a transição do individualismo moderno para o contemporâneo

O professor Edgar de Assis Carvalho, antropólogo, foi atropelado. Em 2005 ele publicou um livro sobre o seu itinerário de destruição e reconstrução. Carinhosamente, ele me presenteou com este livro. Li-o várias vezes. Mas demorei um pouco para entender a valor do texto no contexto da filosofia social.

Estou convencido que Edgard viveu uma experiência pessoal pertencente a algo maior, a uma viagem por um caminho de redescrição da subjetividade moderna para a subjetividade contemporânea.  Uma espécie de testemunho que lembra a função dos Ensaios de Montaigne e as Confissões de Rousseau. Se pelo relato desses clássicos descobrimos o homem moderno, pelo relato de Virado do avesso, de Edgar, temos a estampa do homem contemporâneo.

Edgar escreveu o que escreveu porque não podia se ver reconstruído corretamente se ele próprio não se reconstruísse. A narrativa que criou foi um ato de participação de sua reconstrução. A ambição de ser ele próprio autor, ainda que em parte, da reconstrução do eu, do fazer-se a si mesmo, é a clara motivação do livro. Pessoas que não são intelectuais se reconstroem com operações, química, fisioterapia e amigos. Intelectuais se reconstroem com narrativas confessionais – ao menos desde Agostinho. Todavia, em nossa época, Edgar descobre que também é o serviço da química, das operações, da fisioterapia e até dos amigos que há reconstrução. Ou mera construção mesmo.

No livro Virado do avesso, Edgar opta por não deixar de mencionar detalhes que entrelaçam sua memória, seus projetos, sua visão de mundo com, efetivamente, todos os passos de sua recuperação corporal. É como se Edgar tivesse alcançado a certeza de que ele não era mais, de fato, um eu que se põe no mundo a partir da condição de antropólogo, de professor universitário, de autor de livros, de homem charmoso na cátedra etc. Nada disso. Edgar descobre-se como um ombro que não mexe, um joelho que não funciona, um ânus que não se limpa sozinho e, enfim, um cérebro cujos olhos buscam o espelho periodicamente. Por diversos momentos, o livro fala dessa ida ao espelho. É a busca obstinada a fim de encontrar sua silhueta com algum conteúdo satisfatório. Onde está Edgar? Onde está este morador do laboratório de Frankenstein?

Edgar se procura no corpo. Mas não como eu dentro do corpo, mas apenas como um corpo. Edgar já tem a certeza de que se encontrar o corpo, encontrou Edgar, encontrou-se!

Teria Edgar se visto como um eu que é um corpo se ele tivesse sido atropelado em outros tempos? Rousseau foi atropelado por um grande cão. Desfaleceu e acordou. Quando relatou isso, preocupou-se em falar da sua situação de perda de consciência. Lembrou-se do homem que é homem, que é algo, é algo que pensa – como Descartes. Edgar não faz nada disso. Desde o primeiro momento, assume o eu como eu corporal, e com este eu puxa o fio de toda  a narrativa com a qual ele próprio busca fazer a aventura, então literal, do self made man.

Creio que Edgar não precisaria ter ido ao século XVIII, ou ao XIX, para agir diferente de como agiu. Creio que ele agiria diferente durante o próprio século XX, durante o tempo real de sua existência. Não penso que se fosse atropelado aos 40 anos, tivesse escrito alguma coisa tão ligada ao corpo como fez. Há uma identificação do eu-Edgar com o Eu-Corpo-Edgar que só mesmo uma época como a nossa pode produzir. Edgar mostra-se fruto do nosso tempo, aquele em que a individualidade e o eu, a própria condição de sujeito (se é que podemos assim falar), está desprovida de teses que brotam do cérebro desesperado em exibir crenças complexas. Edgar está provido de uma única tese possível para quem é, então, agora, uma pessoa bem mais simples: eu sou o meu corpo. Nietzsche escreveu: a pequena razão segue a grande razão, esta sim diz “Eu”. Se é para ser reconstruído, que eu  faça a narrativa unificadora de meu eu, deixando meu corpo, este eu verdadeiro, mostrar-se na sua voracidade por pinos, químicas, exercícios e busca de asas. Nada mais importa, no mundo contemporâneo, se eu não puder ocupar espaço. Talvez não seja à toa que o substituto de homem, para Heidegger, seja algo como o Dasein, o Ser-.

Duas coisas pontuam Edgar na narrativa: o horóscopo lido e a ida ao espelho. O horóscopo é a sua consciência oracular parodiada, a ida ao espelho é a checagem para ver se o eu que está sendo reconstruído é digno do horóscopo. Edgar, não é preciso dizer, acredita em horóscopo tanto quanto meu cachorro, o Pitoko, acredita, após a operação de castração, em sexo. Não é preciso acreditar em nada se é para seguir o corpo. Edgar diz claramente, com isso, que seus pensamentos menos terrestres já não são tão importantes, que está só ao sabor de quem ele verdadeira e autenticamente é: o corpo-Edgar. A verdade se dá mesmo é no espelho. Uma aparência, que a filosofia sempre diz que não contem verdade alguma, é tomada por Edgar como o único lugar de informação verdadeira que ele procura.

Dois trechos dão a dimensão de quem é, em nossos dias, o homem, exemplificado na figura com nome de Edgar de Assis Carvalho. Num deles, Edgar conta como seu ânus foi limpo e como seu pênis “por vezes é deixado de lado por sua conta e risco”. Ele lembra: “Envergonhado de si, manipula seu sexo miniaturizado e flácido”. Ato contínuo da  narrativa, Edgar fala do conto “O espelho”, de Machado de Assis. Lembra do conto para se referir ao fato de que “cada criatura carrega necessariamente duas almas, uma que olha de dentro para fora e outra que olha no sentido inverso”. Então, na narrativa, pergunta “o que o espelho transmite?” O seu espelho – o que este espelho diz? Vê-se como um “entrecruzamento de almas”. Mas,  nessa hora, descreve só elementos corporais. Edgar já sabe, a essa altura, que é corpo. (p. 38)

Um outro momento em que ele vislumbra essa verdade que se faz presente no espelho, é aquele em que constata que seus dentes e línguas estão enegrecidos – já em fase alta do tratamento. Depois, num terceiro momento, mais otimista, Edgar tem o insight decisivo, e revela isso sem qualquer pudor: “Sim, meu corpo-sujeito estava sendo transformado numa árvore de conhecimento, cujas raízes remontavam a tempos primordiais e arquetípicos”. Falando do corpo físico e simbólico, ele conclui que recebe sinais de que, a partir daquele momento “a reforma do corpo e a reforma da vida caminham juntas, constituem unidade indissolúvel da vida, apesar dos antagonismo e contradições existentes entre elas” (p. 82). Nenhum moderno escreveria isso!

O Edgar de agora é o Edgar homem contemporâneo, finalmente. E ele sabe disso. Tanto é que já escreve como quem informa as Ciências Humanas de que sabe disso, usando a terminologia técnica que aprendeu delas mesmo.

Um Edgar moderno, mas de antes de nossa época, ficaria preocupado com suas teses, seus livros, suas ideias a respeito da política e sobre os destinos da humanidade. Um Edgar moderno, mas posterior a uma tal época inicial da modernidade, ficaria preocupado com a sua aparência diante de outros. Só o Edgar de agora pode ficar preocupado, mesmo, com o como curtir o Edgar-corpo, solitariamente, voltando a andar, coçar-se, foder e cozinhar (sei lá se Edgar cozinha!). O “eu penso” nasceu mas morreu com Descartes. O “eu apareço” para outros foi estudado por Veblen e também não diz mais nada. Mas a sociedade de consumo atual é a do consumo intimista, individualista, corporal. É a do curtir-se. Eu me curto substitui o eu penso e o eu apareço. Nossa sociedade é aquela em que é importante o uso do creme corporal diante do espelho, que é fundamental escutar música sozinho (com fones de ouvido) e, enfim, é o parque zoológico onde a regra é comprar uma roupa que é única e exclusivamente para vestir-se para si mesmo. Edgar-corpo está na época em que mulheres podem comprar calcinhas sexy sem nenhuma pretensão de ter encontros. Edgar-corpo é o Edgar de hoje. O homem de nossos tempos. Um eu-corpo como autenticamente eu.

A narrativa de reconstrução de Edgar é a narrativa da invenção de Edgar por Edgar – que é justamente uma tarefa contemporânea. Ninguém se descobre. O “conhece-te a ti mesmo” está em desuso, pois o que vale é o faz-se a ti mesmo. Mas como? Ora, aos moldes de Deus, com barro, com matéria, com próteses, com apoios, com antibióticos e, enfim, com tudo que um bom hardware precisa para receber um software sofisticado.

Edgar foi atropelado como homem moderno. Desfaleceu. Acordou no mundo contemporâneo e reconstruiu-se como homem contemporâneo. Foi abatido por um carro na condição de um “eu penso”, e se fez de novo como um “eu escrevo porque tenho mãos” – sou corpo. Essa mudança de individualidade ocorrida com Edgar é a mudança do homem-indivíduo da condição moderna para a condição contemporânea. Edgar viveu duas épocas filosóficas em poucos meses. Sua reconstrução é quase a própria história da sociologia – talvez mesmo da filosofia social – nesses últimos séculos.

Edgar, o sujeito-objeto da Antropologia.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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4 Responses “Edgar de Assis Carvalho – um descaminhante sem devaneios e nada solitário”

  1. THIAGO
    02/09/2018 at 19:53

    O engraçado é que li quase todos os seus textos que tratavam de subjetividade moderna e contemporânea, porém só compreendi totalmente a ideia neste texto, que é uma história de um caso real, ou seja, uma tese-viva.

    Além disso, tenho um questionamento: no caso de Jesus e seu sofrimento na via sacra, em que um Deus-homem sofre todas as penas corporais possíveis, seria forçado refletir que talvez, antes de ser profeta da salvação, ele seria o profeta da contemporaneidade, ao se colocar como um corpo que sofre?

    • 03/09/2018 at 08:42

      Excelente ideia essa sua Thiago, de trazer Jesus para a corporalidade, uma ideia de Jesus não só como sujeito moderno, mas como sujeito contemporâneo. Boa coisa para se desenvolver.

  2. Emerson
    20/07/2018 at 19:48

    Adorei o texto, é muito bom, sem sombras de dúvidas, mas o que mais me emocionou no texto foi verificar que, de fato, um filósofo pode escrever de tudo, isso é inspirador.

    • 20/07/2018 at 22:33

      Quase tudo! Na verdade, o que escrevi não é fora da minha linha de pesquisa.

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