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26/09/2017

Dos inumanos será a Terra


É bem provável que jamais abandonemos as palavras homem e mulher neste século. Talvez nunca. Mas a vinculação das palavras masculino e feminino para gerenciar práticas humanas variadas como, por exemplo, as categorias desportivas, e para falar de preferências sexuais e modos de fazer sexo, isso certamente irá desaparecer. E será algo mais rápido do que podemos imaginar. A guerra semântica não espera acabar o sono dogmático de ninguém.

Há atualmente atletas que operaram para sair da condição masculina para a dita condição feminina. Uma vez na condição feminina, com tudo regularizado perante a lei, lembraram-se que eram atletas, e voltaram a competir. Em qual categoria? Perante a lei, vão para a categoria feminina. Gente assim têm ganhado todas as provas. As autoridades desportivas não sabem o que fazer com o caso. Teria essa atleta que ser congelada como o Capitão América para voltar em um século em que já existisse a categoria Trans? Ou já podemos admitir que, como já foi o caso, há mulheres campeãs que, sem qualquer transformação médica ou farmacêutica, ganham competições por possuírem mais hormônios favoráveis a tais provas? Afinal, já vimos mulheres perderem medalhas por serem consideradas homens do ponto de vista hormonal e, depois de alguns anos, por mudança da lei, voltarem a competir, e ganharem todas novamente. O esporte é um bom local para se começar a perceber que masculino e feminino não fazem sentido, ainda que as palavras homem e mulher possam permanecer na roda de conversa.

Sobre o sexo, também as coisas se complicaram para uns, mas a juventude tem facilitado tudo. Os jovens não estão mais preocupados em amar garotas ou garotos, estão amando pessoas. Dizem isso. Uma boa parte dos jovens admite uma sexualidade aberta para experiências diversas. Pouco querem saber se há algo predominante neles, se vão adotar uma postura “x” ou “y” ou “z” definitiva. Nada é definitivo. Homens que sonham com homens fazendo sexo com suas esposas são gays? E nós todos, homens, não aprendemos o que é sexo com nosso pênis? Idolatramos nosso pênis e somos, então, héteros? Ora bolas! Se quero fazer sexo anal com a minha mulher, sou gay? E se quero fazer sexo com a minha mulher e sentir um pênis ou qualquer outra coisa tocando minha próstata, sou gay? Todo velho antes do Viagra era gay, então? Essas questões não são mais questões num mundo em que a sexualidade ganhou uma dimensão ao mesmo tempo diversificada e singular.

E interessante que seja justamente no esporte que essas duas questões acima levantadas tenham perdido suas delimitações. As barreiras implicadas nas palavras homem e mulher e masculino e feminino foram, tanto do ponto de vista competitivo quanto do sexual, completamente nubladas. Aliás, nesse campo os esteriótipos foram derrubados. A guerra entre fenótipo e genótipo quanto a quem manda da legislação perdeu feio para a importância da vitória das guerras travadas na semântica.

O capitalismo, que é a única ordem do mundo que deverá durar até mais do que Deus já durou, tem mantido a mercadorização – em que pese toda sua balbúrdia no mundo – como o elemento chave dos avanços progressistas. E a mercadoria têm passado por cima da direita política e dos conservadores, muito mais do que sobre a esquerda. As empresas caminham segundo a hegemonia dessas mudanças todas: apreço pela ecologia e animais, direitos de minorias, sexualidade aberta, predomínio da subjetividade centrada no corpo e sujeita a desonerações próprias do resultados da fórmula de Lênin transmutada: eletrificação + um pouco de social democracia = capitalismo. Nesse mundo futuro, como a mercadoria tem ordenado a uns e sugerido a outros, vamos para as Olimpíadas e para a cama de uma maneira que os conservadores, os que ficaram no século XX, não entenderão. Mas eles nem viverão para ver tudo isso, mesmo que fiquem vivos biologicamente. Os conservadores irão desaparecer. Ficarão de cachimbo na boca, com gestos que no século deles as pessoas diziam ser de “afeminados”.

Mas essa não será a única mudança, haverá uma ainda mais radical: sabemos que há mulheres e homens que preferem fazer sexo com máquinas ou com próteses variadas, e sabemos que o homem mais veloz do mundo pode perder uma corrida caso venha a competir nos Jogos Paralímpicos. O humano e o inumano deverão perder também as suas fronteiras, zumbis poderão andar por aí. Walking Dead não será uma ficção de terror. E também isso veremos reinar na cama. Duvidam? Quando Sloterdijk escreveu Regras para o Parque Humano ele não disse nem 1/3 do que já está ocorrendo.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 29/06/2017

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6 Responses “Dos inumanos será a Terra”

  1. Eduardo Rocha
    03/07/2017 at 15:20

    Assisti ontem 2001 uma odisseia no espaço. Não tive como não lembrar de Sloterdijk. Mês passado estava na casa de um amigo e ele estava assistindo Crossfit Games, um esporte que cresce cada dia mais e ele não parava de falar numa Brooke Wells que iria competir e de como ele achava ela bonita. E realmente ela é bonita. Olhando assim é fácil ver que ela tem o semblante de um travesti. Algumas dessas atletas fizeram até uma participação no filme mulher maravilha. Essa barreira está cada vez menor entre homem-masculino e mulher-feminino tanto que eles competem em times juntos em determinadas provas. Uma competição de hermafroditas.

  2. Gustavo
    29/06/2017 at 14:24

    Caro Paulo, já que você se referiu a Stan Lee no comentário anterior, não sei se você sabia (e portanto vou arriscar “chover no molhado”), mas ele também foi o criador de uma espécie chamada Inumanos, em 1965.
    Uma série sobre eles deverá chegar aos cinemas e televisão, e exatamente hoje saiu o primeiro trailer:

    https://youtu.be/n_f6sPWjw7M

    Algo me diz que você talvez goste do personagem chamado Dentinho.

    Inté.

    • 29/06/2017 at 14:40

      Eu estava no primário passando para o ginásio, mas eu acho que me lembro dos Inumanos. Talvez nas histórias em quadrinhos.

  3. Jose Fernando da Silva
    29/06/2017 at 13:01

    Voce toma a excecao como regra, ou melhor, prenuncio de regra. E tambem pensa a vida como uma estrada sem curvas, aclives e declives. Felizmente o que voce anuncia eh que eh expressao de “sono dogmatico”.

    • 29/06/2017 at 13:15

      José se quiser começar a entender um texto de filosofia, preste atenção nessa sugestão: é pela exceção que olhamos o futuro. Algo que Darwin consagrou pela ideia de evolução, que deve ser tomada para além da biologia. Ideia que Freud ensinou aos filósofos: ver a patologia como tendência. Regra que Stan Lee ensinou na HQ pela criação dos Os mutantes. Regra que Marx ensinou mostrando os primeiros burgueses etc. Sacou agora ou ainda não? Caso não, leia autores como Rorty, Foucault, Sloterdijk, Lipovetsky. Ou simplesmente leia o homem decadente, de Nietzsche. OK? Faça essa tarefa de casa antes de voltar, OK?

  4. 29/06/2017 at 11:23

    Maravilhoso. Simplesmente.

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