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17/12/2017

Dollar is not dead! Deus perante o dinheiro


“Em Deus nós confiamos” foi inscrito no dólar em 1864, em moeda. Tornou-se uma banalidade dizer que uma tal coisa ocorreu por conta dos colonizadores serem pessoas muito religiosas, e repetirem na moeda a expressão in God we trust já contida no Hino Nacional Americano. Isso apenas desvia nossa atenção e não explica nada. Às vezes a história precisa mesmo ceder espaço à filosofia.

Por que o dinheiro deveria vir com uma menção a respeito de Deus? Por que afirmar a fé, ou seja, a confiança em Deus, exatamente no dinheiro? Por que a cada transação econômica aceitar junto a ideia de que se tem fé em Deus? Por que Deus no dinheiro? Será que ele, o dinheiro, é tão obra do Diabo que, para enganar e poder usá-lo, escrevemos algo de Deus nele?

Quando lemos uma mensagem, o que vem primeiro é o nosso entendimento do seu conteúdo. Dizemos: qual o significado? Mas, não raro, há sempre mais que um significado legítimo. Uma coisa é o que está dito pelas palavras da mensagem em sua conexão que formam uma frase, outra coisa é a razão pela qual a frase se estabeleceu naquele tempo e naquele espaço. “Em Deus nós confiamos” diz algo a respeito da fé. Mas, o casamento entre Deus, a fé americana e, enfim, o dinheiro, isso sim tem algum outro significado.

Deus é o elemento pelo qual cada americano, cada homem quase moderno, se via pertencente a uma comunidade – a comunidade humana ou a América, ou seja, uma pátria idealizada como modelo dos Estados Unidos existente. Mas se um tal pressuposto deixa de ser forte por si mesmo, é melhor encontrar um outro elo de legitimidade socializadora. Sabemos bem que na modernidade o dinheiro, expressão do mercado capitalista, se tornou esse elemento universal que liga todos nós e nós faz humanos. Então, que tal fazer uma transição? Que tal associar o velho elo ao novo elo? Não teríamos assim um indicador mais forte, legítimo em relação ao passado e ao futuro, a respeito da verdade velha, mas necessária, de que somos todos irmãos?

Um filósofo disse certa vez que “Deus não morreu, ele se tornou dinheiro”. A frase soa tola se a interpretamos como um sinal simples de poder: os homens se ajoelham diante do dinheiro tanto quanto se ajoelharam perante Deus. Ou ainda: tudo que pedíamos a Deus, agora é o dinheiro que diz poder realizar. Tudo isso é senso comum. Mas, se entendemos que Deus está no dólar como uma mensagem que diz mais que sua expressão em frase, que indica que ainda somos os mesmos, os humanos, os agora não mais só filhos de Deus, mas filhos do dinheiro, aí sim começamos a romper com o banal. Entender Agamben lendo Benjamin dizendo que o capitalismo se tornou religião – a mais perversa – não se resume em destacar aspectos de poder e dominação nessa situação.

Para o sociólogo ou filósofo social a questão não é o dinheiro somente, mas o mercado. O dinheiro, no seu caráter de veículo de uma abstração, que são as horas de trabalho que mostram o que vale cada mercadoria (a ideia de que o valor é o valor de troca e não mais o valor de uso), se torna o universal posto pelo mercado. Ele rouba a universalidade antes garantida só por Deus. Ele rouba a paternidade da comunidade de filhos de Deus. É assim que ele substitui Deus. Não se trata aí de referência a um novo poder no Universo, mas antes de socialização na Terra. Se elos velhos de solidariedade se desfazem, se não vale mais Deus, e então não vale mais “família, tradição e propriedade”, e temos de urgentemente achar alguma coisa que diga que não estamos todos juntos por acaso, ou por ódio. Deus incrustado no dólar é uma boa lembrança: agora somos todos Um novamente, não em Deus, mas no novo produtor ético, o mercado e sua expressão mais visível, o dinheiro.

Comprar-vender-e-trocar deixa de ser apêndice de algo chamado economia para se tornar expressão propriamente humana. Não à toa nasce na modernidade uma antropologia centrada no trabalho (Marx) e no empreendimento (Weber), ambas as atividades que aprendemos a naturalizar como aquilo que nos faz viver, ou seja, “ter dinheiro”. Ter Deus, ter o elemento universal, pertencer a uma só família – a humanidade – é tudo o que recebemos do dinheiro. Se o mercado capitalista desaparecesse hoje e, com ele, a forma como o dinheiro está posto, não saberíamos quem somos. Teríamos de buscar uma nova unidade, e certamente entraríamos por algo com legitimidade pouco garantida. Lugares que tentaram abolir o mercado sentiram isso, e criaram letargia, nacionalismo barato, culto a pseudo-deuses, burocracia emperrada e desespero. Sabemos muito bem qual foi o fim do sistema soviético.

Do mesmo modo que há pouco tempo ninguém conseguia emplacar como humano se não era filho de Deus, agora ninguém é gente se não receber a benção do dinheiro – e isso deve ser avisado nele próprio, no papel moeda, lembrando todos nós que onde chega o dólar, chega o novo pai que garante a todos que portam o dólar se dizerem irmãos.

Toda vez que colocamos no lombo do dinheiro a frase “ele tudo compra”, nos desviamos do entendimento das coisas. O dinheiro não vem com Deus inscrito por causa de seu poder ou poder de compra. Ele, Deus, vem no dinheiro como um tipo de teste de DNA, confirmando que somos todos parentes. Talvez não seja à toa que 94% das cédulas de dólares venha com outra inscrição: o vestígio da cocaína. Então ficamos sabendo, mesmo, que somos Um, pois nada mais endorfinados que os humanos.

Se um dia as transações forem de fato todas virtuais, sem nenhum papel moeda, já teremos absorvido a ideia de que “Em Deus nós confiamos” como uma mensagem do dinheiro, não de Deus. E tudo seguirá bem.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. São Paulo, 29/09/2017

PS: Tomara que ninguém venha comentar esse texto por meio de algo da polêmica brasileira de retirar “Deus seja louvado” de nossa moeda, que foi um criação de Sarney. Odeio comentários que não tem a ver.

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2 Responses “Dollar is not dead! Deus perante o dinheiro”

  1. Thiago
    06/11/2017 at 20:53

    Incrível sua habilidade de tratar de um tema como o Dinheiro sem cair em politizações direita-esquerda, como quase todo mundo faz. Obrigado por sua inteligência!

  2. General Elétrico
    03/10/2017 at 13:35

    “In Gold We Trust”

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