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24/06/2017

Depressivos do mundo, uni-vos. Ou desuni-vos, sei lá!


As estatísticas indicaram durante vários anos o Brasil como o segundo país mais feliz do mundo, considerando aí a opinião das pessoas sobre si mesmas. Mesmo agora nesse período de recessão, como em outras épocas parecidas, o Brasil nunca saiu do topo do ranking da felicidade. Todavia, recentemente, uma pesquisa também confiável revelou que o Brasil apresenta a maior taxa de pessoas com depressão da América Latina. Quase 6% da população sofre desse mal, na estimativa da Organização Mundial da Saúde. 18% a mais do que há dez anos. O segundo país no ranking da América Latina é Cuba, com algo em torno de 5,5% da população. São índices acima da média mundial, que é de 4,4%.

A doença cresce no mundo todo e não há nenhum indicador que diga que ela vai diminuir. Sabe-se disse já há mais de duas décadas. Mas o que não se havia notado é que os dois povos ditos mais alegres, mais brincalhões de todo o Novo Mundo, são os que  se mostram mais acolhedores da depressão. Também os povos em que ela caminha de modo muito mais rápido.

É difícil não sair do campo exclusivo da patologia, no caso do Brasil, onde conhecemos por vivência a situação, e arriscarmos algo no campo da filosofia social, levantando a observação de que só mesmo onde todos estão felizes é que se pode ter depressão. Afinal, a depressão tem a ver com aqueles mais propensos a não se reerguerem de frustrações. Padrões altos de exibição de alegria convivem sempre com um maior número de fracassos sentidos como reais, em qualquer sociedade. Portanto, onde mais gente pula e se diz feliz, é onde mais gente tem de estar num nível alto de euforia que, é claro, não pode ser alcançado por todos. Pessoas com menos expectativas sobre si mesmas tendem a sofrer menos – sabemos disso. Ou em termos populares, quando vemos um jogador  ou um lutador grandalhão e queremos desafiá-lo, falamos: quanto maior, maior o tombo.

A sociedade mundial que vive no âmbito dos grandes bolsões da gigantesca classe média atual não está disposta mais a grandes esforços. Já faz algum tempo que antibióticos, operações médicas de todo tipo, luz elétrica, fim do trabalho manual, meios de comunicação instantâneos e personalizados, voos que reduzem a geografia e fazem a história ganhar uma conotação estranha, engenharia genética, ampliação de cuidados pelo Welfare State, operações plásticas, ampliação dos recursos de maquiagem, sexo disponível e rápido, democracias que dão a impressão que a liberdade foi derramada como mel sobre todos, etc., tudo isso são dados do mundo contemporâneo que os habitantes da “afluent society” de Galbraith não aceitam mais que não estejam vigentes. São coisas que se tornaram corriqueiras. Representam uma sociedade tão leve e tão desonerada que a faz abrigar grupos de ativismo aparentemente frívolos, que buscam alguma reativação da sensação de peso, necessário para que não se saia flutuando para fora do dito real. Uma sociedade assim é aquela em que Peter Sloterdijk diz ser a inventora do estresse. Só uma sociedade sem estresse pode sentir estresse, pode inventá-lo no sentido de gerar frases corriqueiras do dia a dia: “estou estressado”, “não quero me estressar” etc.

O filósofo germano-coreano Hyung-Chul Han fala de uma “sociedade do cansaço”. Ele diz que isso ocorre pela positivização, pela ausência do negativo, pelo fato de termos diluído o outro, impossibilitando uma subjetividade gerada segundo a presença da alteridade. Ficamos sem nós mesmos enquanto duplos reflexivos e nos tornamos solitários indivíduos à merce de algo que é a dispensa do amor-próprio em função da aquisição de certo autismo e do narcisismo. Bem, acredito que o outro está realmente ausente. Mas, no tocante à positivização, prefiro explicar isso pela tese da sociedade desonerada de Sloterdijk, que se reonera a partir de uma semi-ludicidade em todas as áreas. Não penso que a simples positivização que leva ao individualismo e à “sociedade do desempenho”, como diz Han, expliquem alguma coisa. São aspectos fenomênicos estes, não explicativos. A explicação de uma sociedade que se estressa está no modo que ela inventou o estresse. Só é estressado quem conseguiu estar na vida que a leveza da “afluent society” proporcionou. Também vale isso para situações radicais. Só uma sociedade na qual se elevam os padrões de satisfação e, principalmente, de declarações de felicidade, pode aparecer a verdadeira infelicidade, inclusive aquela patológica, a do âmbito da depressão.

O Brasil começou a ficar deprimido quando Stefan Zweig declarou que nossa terra era o “país do futuro”. Atravessamos o século  XX esperando esse futuro e, então, qualquer movimento ridículo, de estímulo, foi tomado como o nosso “milagre” se realizando. Flatos históricos de euforia por qualquer feito sempre nos deram a ideia de que havia chegado a hora de Zweig vir a ter razão. Da Revolução de Trinta ao governo JK, de 1964 (quando vencemos o comunismo!) à Copa de 70, do milagre econômico de Delfim ao Milagre Econômico de Lula. Em todo esse tempo, esses flatos nos deram algum rearranjo e toda a nossa declaração de felicidade ganhou picos de ampliação e mostragem. O futuro chegou, todos gritaram a cada flato. Criamos a situação ideal para a depressão: a felicidade explode para além da conta e logo, claro, vem a frustração. Em cada frustração, a maior parte continua a se dizer feliz, continua falando que tem esperança etc., mas uma parte da população, nessa hora, deixa o micróbio da frustração se transformar no monstro da depressão. A patologia está sempre a meio passo da situação igual, mas dita normal.

O Brasil pode cobrar taxas de universidade do mundo  todo para estudar esse fenômeno do povo mais feliz do mundo que está à beira de ter de ser todinho internado. Afinal, só aqui um outro escritor, não Zweig, já anunciou isso, o cercamento geral do povo, para tratamento.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 24/02/2017

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2 Responses “Depressivos do mundo, uni-vos. Ou desuni-vos, sei lá!”

  1. Danilo Marques
    03/03/2017 at 05:30

    Professor, sei que não tem nada a ver com o tema do seu presente artigo mas, o que significa “”engenharia social”, no sentido político? Fala-se muito disso, atualmente.

    • 03/03/2017 at 11:39

      Era um termo da moda no começo do século XX. Os engenheiros positivistas e pragmatistas davam o tom para vários projetos de reordenação social que incluiam um novo tipo de urbanidade. Não se esqueça que os socialistas utópicos, adeptos da teoria de Saint Simon, foram construtores do Canal do Panamá. Significava para eles não um canal, mas a união dos povos pela ciência.

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