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16/07/2018

Da impossibilidade de ser um pensador trágico


[Artigo preferencialmente indicado para o público acadêmico]

Admirar a tragédia é uma coisa, querer ser um pensador trágico é diferente. Nos nossos dias, fazer isso é, não raro, sinônimo de ignorância. Ou ignorância de quem não aprendeu as línguas ocidentais modernas (um alienígena entre nós) ou a ignorância tosca, ginasiana, de quem não entendeu o que é a tragédia.

Wittgenstein escreveu que os limites da linguagem são os limites do mundo. A palavra “limite”, nesse caso, vale como fronteira, não propriamente como cerceamento negativo. É com isso em mente que temos de pensar a semântica que nos impede ao tragicismo. O que nos impede de sermos trágicos, ao menos em um sentido efetivo e não só como uma alegoria, é o fato de termos em nosso universo semântico a palavra “vontade”.

Se os gregos não tinham a palavra “vontade” como nós modernos a temos, isso significa que as fronteiras do pensamento grego clássico não são as nossas fronteiras. O mais próximo de “vontade” que a semântica grega clássica forjou foi proairesis, com Aristóteles. Trata-se do raciocínio deliberativo. Dado um fim já posto naturalmente, como a felicidade, ou outros pequenos fins a ela ligados, o homem delibera sobre que meios apanha, também já existentes, para realizar o fim desejado. Nós, modernos ocidentais, temos em nossa semântica a palavra “vontade”. Ela não diz respeito só ao deliberar, mas ao querer o que não está em plano algum. Nosso querer está ligado a uma concepção de história que permite o tempo linear, com o futuro diferente do passado, coisa estranha ao grego, para quem o tempo era cíclico. Podemos querer e, desse querer, criar o que é tido por nós como algo que não estava no horizonte – Hannah Arendt foi quem melhor observou essa articulação entre vontade e tempo. Assim, saber falar nossa linguagem, que tem em seu interior a “vontade”, é viver em mundo e não em outro, é impossível para nós sairmos desse mundo e saltarmos, efetivamente, para o mundo grego, e então ficar por aqui perambulando fingindo que não temos a palavra “vontade”. Nosso pensamento jamais se adaptaria a pensar sem considerarmos a “vontade”. Nosso pensamento não saberia pensar a partir de proairesis. Podemos acreditar que sabemos como um grego pensa, mas não podemos viver como um grego – não mais.

Levar a sério Wittgenstein, nesse caso, é um bom negócio. Caso contrário podemos dar uma de alienígena ou simplesmente de tonto. É bom sabermos que nosso mundo tem fronteiras e elas são semânticas.

Proairesis é uma palavra que dá ao agente a chance de deliberar, mas que permite que a sua deliberação se coadune com uma deliberação dos deuses. Assim, um homem pode escolher os meios para atingir fins, mas essa escolha, que é dele, é também a dos deuses, e assim o conteúdo da tragédia pode se realizar. O homem faz atos que são de sua responsabilidade, mas ao fim da peça teatral ou do poema ele se vê diante de uma descoberta a respeito de si mesmo, e compartilha então disso com o público. O que fica sabendo é que tudo que fez nada era senão um destino posto pelos deuses. O homem trágico joga “em dois tabuleiros”, escreveu Pierre Vernant, falando sobre a vontade e a tragédia. São dois planos de causalidade, um humano e outro divino, e eles se imbricam. O homem decide, em seu íntimo, o que fazer, mas esse seu íntimo já cruzou com os desejos do plano divino.

Não é à toa que o nosso Deus judaico cristão cria do nada, e que nenhum deus olímpico teve essa chance. Nosso Deus é deus da vontade. Nós somos, à semelhança dele (como disse Descartes), os que possuem a vontade. Nós quebramos com cadeias de necessidade e colocamos no mundo o contingente. Pensamos dessa forma. Por exemplo, não achamos que a Terra iria ficar poluída e perigosa para si mesma sem a contingência de ter sobre ela o homem. Nós acreditamos que alguém, mesmo formado – por educação e hábitos – com um caráter mau, pode, pela vontade, romper com isso e começar uma vida nova, fazendo o bem, desfazendo-se dos vícios. Aristóteles não podia acreditar nisso. Se alguém rompe com seu caráter mau, o faz por nova educação e novos hábitos, introduzidos do exterior, mas não por uma decisão autônoma, do indivíduo, uma espécie de “força de vontade” nascida do interior do indivíduo. Não há na semântica grega a “vontade”. Nós a temos, e para nós é difícil acreditar que alguém não possa, “por força da vontade”, uma força do interior, tirada do íntimo, sem deuses, nos colocar para fora de um curso já determinado pela nossa educação e nossos hábitos.

Os religiosos atuais podem pedir a Deus que este lhes dê força na “força de vontade”, justamente porque sabem que a vontade é autônoma. Caso contrário, falariam tranquilos para si mesmos: que seja feita a vontade de Deus, e dormiriam tranquilos, sem medo do conflito interno entre querer e não querer, que é a manifestação da nossa vontade. Mas se há alguma coisa que religiosos sinceros temem é justamente o conflito interno da vontade. E Santo Agostinho foi o filósofo que realmente teorizou sobre isso. Ele teorizou sobre a vontade exatamente porque, contra São Paulo, que dizia que o pecado vem da carne, acreditou que o problema não era a “carne”, o “corpo”, mas o espírito. O corpo, ao fim e ao cabo, obedece o espírito. Mas quando o espírito contraria o espírito, quando há na vontade o querer e o não querer, aí sim há o conflito que se mostra insolúvel, e eis que sentimos o drama interno do eu. Aí sim sentimos o eu interior, o eu dilacerado. Esse drama interior, posto no íntimo do eu, jamais foi registrado pelo grego clássico. Ele é de Agostinho e é nosso.

A vida grega permite-se ser uma vida do que é relatado no teatro grego: uma tragédia. A nossa vida não pode ser assim. Para nós, tragédia não é uma revelação de que fizemos o que estava também já estabelecido. Para nós, tragédia é apenas um acontecimento ruim, um desastre.

Para os escolarizados de hoje, o plano causal humano e o plano causal divino estão separados – no caso dos que admitem um plano divino. Por isso mesmo, faz-se necessário, entre nós, a ideia de milagre. Se há cruzamento de plano entre o querer dos deuses e o querer terreno, da natureza, ou o nosso, humano, trata-se de algo esporádico – o milagre. Os donos da fé no Ocidente são muito ciosos em admitir milagres. A Igreja Católica que o diga!

É bobagem achar que uma pessoa com crendices e que diz que “está tudo traçado” realmente acredita nisso que diz. E cuidado aí: mesmo que ela pense que pensa assim, esse seu determinismo não é o pensar do grego clássico. Pois o grego não dizia que está tudo traçado. Ele simplesmente não pensa noutra possibilidade senão a que é posta pela sua semântica. Ele não está sob a dicotomia necessário-contingente do modo que estamos. Mas nem nós, hoje, estamos sob a possibilidade de acreditar que está tudo traçado. Podemos falar isso, mas não fazemos nossas vidas como quem acredita nisso. A todo momento nos insurgimos contra qualquer destino e cobramos de nós mesmos uma atitude de intervenção capaz de quebrar qualquer “já traçado”. Queremos o diferente porque o diferente é possível em nossa semântica. Se pensássemos assim, sem a questão do diferente vir a ser posto no real, não agiríamos. Pois nosso mundo separa teoria e prática. Em nosso mundo há o momento do pensamento e o momento da prática, e essas duas coisas, separadas, nos dá o que somos – a pessoa, o agente moral ou sujeito moral. O grego não funciona assim. Ele se faz na práxis. São seus atos que o põe como pessoa, como agente moral. Desse modo, ele é o que é nos seus resultados. Nós somos o que somos nos nossos pensamentos. Para nós, o pecado já se verifica na intenção. Os antigos jamais pensaram na culpa como alguma coisa imputável a alguém sem que este agisse e configurasse a culpa. Pecar em atos e intenções – que se note aqui intenções como os “maus pensamentos” – é algo cristão e moderno.

Por tudo isso, dizer “eu sou trágico” ou eu acredito na vida trágica, para nós, é ou não saber o que é a tragédia ou simplesmente se portar de modo infantil, como se pudéssemos abdicar da semântica que nós faz pensar como pensamos. A maior parte dos que se dizem trágicos são conservadores, e por isso mesmo desmentem o tragicismo. Se são jornalistas ou professores etc., levantam cedo para escrever artigos em que tentam mudar o curso do mundo, tentam realizar a vontade própria de não mudar o mundo. Fazem isso, aliás, com fervor e até fanatismo! Não acreditam nem um pouco na ideia trágica; se acreditassem, não se poriam tão fervorosamente nessa militância, contra utopias etc. Deixariam as coisas seguir e, ao fim e ao cabo, estariam como Édipo, descobrindo-se como amantes da mãe e assassinos do pai. Os que se dizem trágicos são militantes demais para realmente acreditar nisso. Pudera, não podem usar de outra semântica que não esta em que a palavra “vontade” está em uso, e por isso podem estar presos à ideologia que criaram para si mesmos: “sou trágico”. Ora bolas, isso é balela.

Há trágicos mitigados, ou seja, gente que acha – otimisticamente como Nietzsche – que pode exercer o “amor fati”. Mas, convenhamos, isso não é realmente ser trágico. O “amor fati” nietzschiano está bem longe das descobertas de Édipo. Contrários a Nietzsche, há os trágicos pessimistas. Mas, também aqui, sejamos sinceros: são só pessimistas banais, dificilmente são trágicos. Dizer que tudo caminha para uma derrota final, isso não é ser trágico, é apenas ser mau-humorado e um pouco fatalista bobo. Isso nada tem a ver com o ato trágico posto ao homem trágico original, o fato de que a tragédia, como disse Vernant, funciona como uma psicanálise, um auto-conhecimento final, uma espécie de “conhece-te a ti mesmo” realizado ao se saber integrado na trama divina, mas sem escusas e sim tendo de assumir que tudo foi feito por suas próprias mãos e pés, com toda a responsabilidade e culpa.

Nesse sentido, talvez o mais anti-nietzschiano dos heróis tenha sido, ao contrário do que o próprio Nietzsche diz, um trágico, ao menos na Apologia de Sócrates, escrito por Platão. O próprio Sócrates, ao ser a mosca de Atenas, descobriu nessa trajetória, ao querer entender o que o deus do Templo havia dito quando o nomeou “o mais sábio”, que suas perguntas eram já a realização da missão dada pelo deus. Ao final, sua morte era já o resultado de cumprir uma tal missão. Uma missão salvadora de Atenas. Bem, mas isso já é assunto para outro texto.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 13/05/2018

Gravura: Sófocles (496-406 a.C.), autor da tragédia Édipo Rei.

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