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17/08/2017

Como ser inteligente no século XXI?


Um concurso mundial para eleger a maior ignorância que caracterizou o século XX, no meu entender, daria o primeiro prêmio à forma dos intelectuais de dividir livros, autores, pensamentos filosóficos, literatura e humor em modelos criados a partir de caixinhas ideológicas, notadamente “esquerda” e “direita”. Isso é algo que desapareceu na maior parte dos bons intelectuais que escrevem agora no século XXI. Mas, infelizmente, está ainda na boca de intelectuais fracos e nas conversas do senso comum. Aliás, a própria definição de intelectual fraco pode ser elaborada a partir da constatação dessa prática caduca de medir tudo pelo crivo “esquerda versus direita”.

Não estou dizendo que esquerda e direita, como termos classificatórios, não valem mais nada. Claro que valem. Mas na política, só na política. E o mundo não é feito de política, ou melhor, não é feito só de política. Nosso pensamento filosófico, por exemplo, é mais antigo que isso, maior que isso, melhor que isso.  Saber algo não é mais saber a política de algo ou o que a política faz com algo. Isso acabou. Onde não acabou, onde há ainda aluno de DCE se achando inteligente por ser de direita ou esquerda, não vale a pena estar.

Após o fim do prestígio do marxismo de boteco, da vulgata, e após o fato de Stalin e o sovietismo terem ficado com uma cara popular que às vezes, dependendo do lugar da Europa, os fazem serem comparados a Hitler e o nazismo, muitos puderam ver que as pessoas não vivem exclusivamente da política. Vários intelectuais puderam cheirar flores e saber que um tal gozo não é de direita ou esquerda. Nunca foi necessário ser inteligente para saber algo assim. Mas o que nos espanta, hoje, é ver que gente tida como inteligente, que foram nossos bons professores, chegaram a dizer que “tudo é política”, todo ato é um ato político. Hoje só garotos sem um bom ensino médio, e talvez Zizek, falam algo assim. Entre Aristóteles, que dizia que o homem é um animal político, e Santo Agostinho que dizia que o homem é, primordialmente, um ser de família, o século XXI prefere o segundo. A verdade do século XX, a verdade de Aristóteles transmutada pela classificação “esquerda versus direita” da política moderna, morreu. O século XXI pode construir uma nova maneira de ser estúpido, essa velha maneira de crivar tudo por óticas que seriam de esquerda e direita, é uma burrice do passado.

A política moderna é, por consenso popular mundial, a política da democracia moderna, as variações da democracia liberal. Todo mundo quer estar na sociedade de mercado e essa mesma já tem como mercadoria antes o brand que o produto. A simbologia casou-se com o mercado. Nessa sociedade o que se quer é ter direito de expressão, paz, a possibilidade de realizar pequenos sonhos que implicam alegrias familiares. O que se quer é que os políticos cuidem de fato dos bens públicos e dos menos favorecidos, e todos também desejam poder trocar tais políticos periodicamente, mas não tendo de sempre sair às ruas e largar a vida familiar e o trabalho para gastar anos na política. A política dá tesão em políticos, mas a maior parte das pessoas não quer ser gente da política.

Há muitas formas de se criticar esse conjunto de ideias e práticas que hoje gerenciam o mundo contemporâneo de certa forma homogeneizado pela democracia liberal e pela sociedade de mercado que espraiou-se por um nível simbólico. Mas a crítica vinda da esquerda e da direita, na nutrição do pensamento social, não cabe mais. Para se criticar esse consenso liberal, é necessário mais criatividade que antes (tentei isso no esboço “A narrativa crítica da modernidade“) . Além do mais, é necessário ver que uma crítica dessa situação toda, a chamada crítica da política moderna, deve caminhar para além da política ou do pensamento político moderno, para além do cânones da filosofia política circunscrita pelo século XX. Uma crítica ao mundo contemporâneo, hoje, é uma crítica do penteado, da mídia, da música, da poesia, da literatura, do skate, do corpo, da medicina, da moda, da opção de amor e da maneira de ajoelhar em prática religiosas, do personal trainer e do consultor. Antes de tudo, é uma critica da performance do atleta paralímpico, do novo tipo de sutiã e da maneira como fazemos eutanásia e colocamos próteses sem grandes dramas ético-morais. É a crítica da proliferação de gurus que não mais surgem do oriente, como nos anos setenta. É a crítica às igrejas caça níquel talvez mais que a crítica ao fundamentalismo. É a crítica da obsessão pela “transparência”. Quanto mais o mundo se globaliza, mais a filosofia tem a ver com a antropologia e com narrativas imaginativas que com as ciências da sociologia e da história idolatradas pelos pensadores de meados do século XIX.

Uma das formas de falar do homem sem as lições das caixinhas da direita e da esquerda são as antropotécnicas de Peter Sloterdijk. Escrevi um livro sobre isso, Para ler Slorterdijk (Via Vérita). Não vou repetir o assunto aqui. Deixo apenas a lembrança de que já temos instrumentos para sermos inteligentes e para seremos estúpidos de um modo novo. As antropotécnicas são o caminho natural de quem vem da ideia de Rorty de que precisávamos de novas redescrições. Há gente fazendo essa trilha minha. Gente boa!

Pensar para além das caixinhas postas pelo século XX, que cristalizaram a cabeça até de gênios como Sartre, é não se deixar levar pelo restolho de tais caixas, como nas vulgatas de um pensador de quinta categoria como Roger Scruton. Olha a máxima desse homem que se imagina ser o Rodrigo Hilbert do pensamento, na Europa, apesar de não gostar de mulher, em um sentido quase que misógeno: o bom e correto é ser “pessimista”, pois isso nos faz “realistas”, e assim não somos enganados por falsas esperanças e não nos decepcionamos. Nietzsche chamaria um tal pensamento, uma tal sabedoria, de prática de inseto. Aquela entidade que nem pum solta para não atrair o predador. Esse Scruton têm discípulos no Brasil, gente que fala exatamente o que ele fala. Gente que acha que utopia é algo de “direita e esquerda”. São pessoas que não entenderam que as utopias nasceram bem antes da modernidade, e elas foram feitas em livros, como o próprio nome diz, para não serem realizadas. Utopias são modos de cheirar flor, não maneiras modernas de construir um país.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 29/07/207

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3 Responses “Como ser inteligente no século XXI?”

  1. Isa
    12/08/2017 at 16:30

    Interessante

  2. Hilquias Honório
    29/07/2017 at 22:36

    Sensacional.

  3. Bruno
    29/07/2017 at 11:55

    Ótimo texto. Pode-se fazer a crítica, também, dos casais de maridos cornos que filmam suas esposas transando com outros sem camisinha, gozando dentro, e publicam nos XVideos.

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