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25/09/2018

Como ganhar cidadania? A nova minoria: cães.


[Artigo para o público em geral]

Os cães estão ganhando mais que o direito à vida biológica, eles estão recebendo uma espécie de cidadania. Isso não tem volta. Daqui uns anos, diante de uma catástrofe, muitos de nós (a maior parte) salvarão antes o seu cão, e talvez qualquer cão, que um tipo como Bolsonaro. É claro que existirão os falsos humanistas que reclamarão. Mas eles já não terão mais voz – e eles mesmos, na prática, não salvarão tipos como Bolsonaro.

Folha de S. Paulo já tem blog sobre animais, mas não é algo para vender ração ou dar indicações de “como cuidar de seu pet”. É blog para comentar sobre a vida social de cães. Outros animais chegam próximo, mas o cão está na frente. Definitivamente, o cachorro já é “um de nós”, ao menos no Ocidente. Não vão tardar em se transformar em uma minoria junto com mulheres, negros, gays, portadores de necessidades especiais (sim!) etc. Não vão ter carga negativa, pois serão assimilados a minorias positivas, como crianças ou pobres de certo tipo. Terão a vantagem de não quererem enfiar “a palavra de Deus” goela abaixo até da Constituição, como alguns evangélicos teimam em fazer só para manter essa minoria religiosa como chata. E abrirão as portas para a minoria que os seguirá: a dos robôs que possam se parecer com humanos em algum aspecto (mesmo que seja só a voz!).

Um grupo de seres que vira minoria sociológica e assim se põe o faz pela sua capacidade de comunicação com os da cultura hegemônica. Os pobres foram a primeira minoria a forjar um discurso próprio. Não são mais minoria sociológica. Fizeram os nobres, que não trabalhavam, aceitar “o trabalho dignifica o homem”, que agora atinge todos, até mulheres, e até mesmo os ricos que, em princípio, não eram burgueses industriais, mas uma alta burguesia associada aos aristocratas e que via no trabalho um elemento de degradação moral. Os pobres continuam pobres. Podem sofrer preconceito. Mas a cultura dos pobres, cujo carro chefe é o trabalho, é a cultura de toda a sociedade moderna  (ainda que o paradigma do entretenimento esteja tensionando o conceito de trabalho tradicional). Tanto é que “vagabundo” é o termo usado pela polícia para quem rouba ou pela polícia em relação a quem ela acha que rouba. E “vagabunda” é o termo usado pelo marido para chamar a mulher que o traiu; e a mulher usa tal termo para “a outra”. Ou seja, a pessoa que tem tempo para pensar em fazer o errado, “exatamente porque não trabalha”, é o que se tem na berlinda.

Os cães sofreram muito. Como outras minorias, foram encarcerados, foram mortos, postos em circos, deixados ao sofrimento. Ainda sofrem com experiências de uma indústria protegida por certos intelectuais reacionários e, não raro, com problemas emocionais graves. Há sempre o tonto que diz que a ciência não avança sem experimentos cruéis. Em geral é aquele cara que não sabe como funciona a história da ciência. Mas cães passam pelo sofrimento do desleixo, ainda hoje. Ora, sabemos que muitos homens, mulheres e crianças estão assim também – nas ruas de São Paulo aos campos de refugiados, que agora também está por aqui, com venezuelanos protagonizando a desgraça. Não é o elemento empírico que se salva imediatamente quando o conceito se salva.

O cão é membro da família. Destacado. E contém um elemento de impacto fisiológico que é mais poderoso de longe do que aqueles que uma sogra ou um Bolsonaro poderiam acreditar que possuem: ocitocina. Os cães são os únicos animais que provocam em nós o aumento real do hormônio ocitocina, o hormônio do amor e do leite materno, entre outras coisas.

Uma sogra pode ser amável, mas dificilmente realmente amada. Bolsonaro nem sendo amável vai ser amado por uma pessoa com informação, inteligência e coração. Sogra e Bolsonaro não despertam ocitocina. Acho até que produzem bílis, no sentido não moderno da palavra. Bolsonaro tem voto por solidariedade grupal que representa exatamente o sinônimo de grupo fechado: fascio (feixe), que deu origem ao fascismo. Cães são o oposto do fascismo. Eles são de matilha ou de companhia, nunca de fascio.

Qualquer marqueteiro sabe disso. E marqueteiros bons sabem das coisas, às vezes mais que filósofos. Nenhum marqueteiro poria Bolsonaro para vender um carro, mesmo sendo ele o segundo colocado nas pesquisas em segundo turno (contra Ciro e outros). Mas qualquer marqueteiro sabe que um cão numa propaganda, principalmente um Golden Retriever, vende até caroço de manga seco. Cão é como decote de mulher de seios ajambrados: não há quem não olhe. Até gay masculino olha decote de mulher! O olhar estético da circunferência nos traz paz.

A conquista de cidadania, atualmente, passa pela aceitação de mercado, mas ela tem, antes disso, elementos misteriosos que remontam às épocas de formação da humanidade. Estamos engatinhando na antropologia e na filosofia que estuda isso: as cavernas.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

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5 Responses “Como ganhar cidadania? A nova minoria: cães.”

  1. Orquideia
    15/09/2018 at 06:32

    Que falta de entendimento a deler! Eu, que nem diletante em filosofia sou, compreendi em seu texto, prof. que assegurar o direito dos animais é engrandecer a condição humana. Alguns Santos conviveram com bichos. Nas imagens de São Jerônimo por ex, nunca falta o leão que o acompanhava. Um monge budista antigo e famoso também meditava junto de uma raposa.
    A indiferença ou a intolerância são atitudes de pessoas ou grupos que se sentem impotentes diante do destino. Grandes pessoas e grandes sociedades são amigáveis com outros seres vivos pois são mais confiantes em si. Isso é a libertação, não a escravidão como o leitor opinou.( Kk…

  2. Guilherme Hajduk
    13/09/2018 at 21:58

    O problema é que você endossa essas atitudes de tratar cães como se fossem gente… Além da sua constatação de que as coisas estão caminhando dessa maneira, você acha legal um animal com mentalidade de escravo, oposto ao gato, por exemplo, que tem a mentalidade de senhor, ser tratado cada vez mais como um “igual”, começando por ser uma “minoria” dentro da sociedade; isso pressupõe que cães já teriam alguma condição social, o que já seria bizarro. E daí também enfiar gosto político no meio dessa zona… Não perde a oportunidade de enfiar política em tudo; deixa aqueles cães de lado um pouco! E isso, aliás, é um texto de filosofia? Esse daqui em particular não passa de um artigo de jornal, com alguns elementos filosóficos (forçando bem a barra).

    • 13/09/2018 at 22:58

      Guilherme, procure outro autor para acompanhar. Aqui não é lugar para você. O meu blog é para pessoas inteligentes. Definitivamente, não é seu caso. Sua burrice é pior que burrice de bolsonaristas e petistas. Cai fora.

  3. Guilherme Hajduk
    13/09/2018 at 17:31

    A revolução escrava está tão “bem” encaminhada, que agora os animais mais escravos vão virar minorias… requererão cidadania! O ser humano se apequenou feio, hein! E… marqueteiros? Marqueteiros ditam alguma coisa? Eles que morram! Não é suficiente, mais que suficiente, apenas, ter um (ou trinta!) cachorro e gostar e amar ele — ou seja, ter uma relação saudável com ele? Tem que se rebaixar a tal ponto? Que loucura!

    • 13/09/2018 at 19:31

      Guilherme, tá difícil você sair da adolescência e conseguir ler um texto de filosofia sem tantas normas na cabeça heim?

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