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17/12/2017

Como foi que nos transformamos em vitrines? O mundo desenhado por Erasmo de Rotterdam


Há algo errado com quem não tem seu Facebook ou, no mínimo, seu Twitter.  Afinal, o que se está querendo esconder ao desaparecer das redes sociais? Que tipo de doença tem essa pessoa que ousa querer preservar sua privacidade num mundo em que todos os prêmios estão voltados para a mulher-vitrine e para o homem-vitrine? É isso mesmo: vivemos a era de desconfiança em relação a quem não escancara gostos íntimos e vida privada. Estranhamos quem não queira se comportar como artista de novela ou jogador de futebol, sempre cativos da necessidade de estarem nas revistas de fofocas. Holofotinhos para nós todos – eis o imperativo da nossa era.

Em pouco tempo, notamos que a ideia de não-exposição e discrição, cultivada como sendo de bom tom, perdeu a vez. A coisa se inverteu. Quando surgiu o Orkut, as pessoas riam de quem participava. Era ridículo ter um grupo de amigos ou conhecidos, na Internet, que deveriam ver suas revelações particulares, e aplaudi-las – ou então criticar, como ocorreu com o Facebook. Mas, em um prazo de menos de vinte anos, todos nós nos transformamos em celebridades e as ditas celebridades se transformaram  em verdadeiros frangos a passarinho servidos no jantar. Passaram a ser hipercelebridades que precisam aparecer não só com suas partes íntimas na Playboy. As pessoas comuns mandam “nudes” para amigos e desconhecidos, e então as pessoas do palco se obrigam a um show de vulgaridade e comemoração de façanhas sexuais em programas chatérrimos como “Amor e sexo”, da Fernanda Lima. Um participante de um “Big Brother Brasil” nunca cansa de dizer: “minha qualidade é a de ser autêntico, estou sendo aqui o mais natural de todos, tenho a função aqui de me expor e farei isso. Você poderão fazer aí de casa um exame ginecológico em mim todos os dias.” Nesse tipo de mundo todos se transformam em proctologistas de todos.

Enganamo-nos facilmente se acreditamos que esse comportamento foi gestado agora, nos tempos contemporâneos. Ele já está indicado no início dos tempos modernos. Ele nasce junto com o seu contrário, que é a dicotomia entre público e privado, entre exposto e íntimo, entre o setor da casa chamado de familiar e o setor da casa que é loja de frente para a rua. Tempos burgueses. O Renascimento é o seu berço. Mas, de maneira bastante irônica, questão do “aparecer” emerge não na boca de um filósofo conselheiro, mas da Loucura, transformada em personagem. É no Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam, em 1508, que o protótipo do homem-vitrine e da mulher-vitrine são elaborados conceitualmente.

Descartes abre a modernidade dizendo que é mais fácil conhecer o espírito que o corpo, ou seja, o meu eu pensante está mais disponível a mim mesmo do que a minha ação corporal, minhas funções corpóreas e coisas assim. Mutatis mutandis essa posição tem seu equivalente na ideia de Erasmo: “Quem poderá pintar-me com mais fidelidade do que eu mesma? Haverá, talvez, quem reconheça melhor em mim o que eu mesma não reconheço”? (Elogio da Loucura. Erasmo – More. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1988, pp. 8-9). A diferença aí é que se em Descartes quem fala é ele próprio, um homem, um filósofo, quem fala em Erasmo é um personagem, a Dona Loucura. E essa diferença faz toda a diferença, inclusive põe características distintas entre o Renascimento e a Modernidade.

Descartes traz o eu para ser fundamento metafísico, e com isso alimenta a filosofia, mas também circunscreve o que pode vir a ser o self, o que é alcançado por introspecção, e com isso dá passos largos para uma nova psicologia. Além disso, expõe um incentivo: esse eu, esse ego, é mais fácil de conhecer do que aquilo que vai ser visto como o mais exterior. Erasmo não está dizendo algo tão diferente, o problema é que este eu que fala, na sua obra, é o Outro da razão, a loucura. Assim, se em Descartes há uma certa continuidade com a história do “conhece-te a ti mesmo”, na linha da razão e da filosofia, em especial o quanto essa expressão se fez útil para Agostinho, em Erasmo o resultado é um contraponto a isso. A Loucura diz: “Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo”. Uma subjetividade renascentista que permite um fluxo contínuo e aberto entre o eu e o ego, entre a primeira pessoa e o self, numa clarificação e transparência do ego e seu alter, que então pode gerar a presunção de que se é aberto o suficiente e, desse modo, colher o auto-elogio como algo corriqueiro, como uma constatação de uma evidência. O pudor do auto-elogio desaparece. A exposição de si se torna o comum, até um dever. Mas isso, na conta de Erasmo, não são as celebridades e todos nós enquanto subcelebridades, e sim a fala da Loucura. Podemos então perguntar: mas nós todos como celebridades não é, enfim, a própria loucura?

É interessante notar que o eu transparente com livre acesso ao si mesmo, de Descartes, seja alguma coisa que abre a modernidade, mas que antes dele, esse tipo de exposição, que conduz ao princípio do “elogia-te a ti mesmo”, tornando desnecessário o “conhece-te a ti mesmo”, esteja posta pelo Ego Louco, na pré-modernidade. É como se Descartes pudesse realmente abrir a modernidade, como de fato fez, mas que Erasmo e o Renascimento olhassem para mais longe, para o nossos tempos contemporâneos. Tempos loucos.

Se voltamos para o próprio Renascimento, deparamo-nos com Montaigne no lado oposto da Loucura. Querendo a paz, a serenidade, o fim da ansiedade, ele não se põe no entretenimento apontado por Pascal, aquele proporcionado pelo coelho caçado ou pelo jogo de bola, mas, antes disso, se dedica um pintar a si mesmo. Todavia, ao pintar a si mesmo, Montaigne não vê o eu verdadeiro como sendo o eu público e muito menos o eu privado. A situação estoica de bem viver vem paradoxalmente por método cético: duvido que se possa encontrar minha verdade em um dos meus eus, o público ou o privado, e o melhor que posso fazer – e isso não é pouco – é manter uma distância mínima entre os dois. O que faço em público não pode ser muito distante do que faço a quatro paredes. Se assim faço, ganho o bem viver. (Montaigne, Sobre o arrependimento. In: Ensaios. São Paulo, Cia da Letras, 2010, pp. 346-63)

Ora, mas Montaigne é a figura do Renascimento com um pé na filosofia como terapia que, depois, na modernidade, ocupará seu espaço. Por sua vez, Erasmo não quer terapia, quer alegria, inclusive aquela específica vinda da mistura de ervas especiais com o vinho – a da droga. E a alegria desse tipo, ocorre quando a potência da Loucura adentra o ambiente. O auto-elogio é uma loucura. Nietzsche se utilizou dele em Ecce Homo, e realmente foi tomado por vários como já louco, no período em que escreveu esse livro.

Parece que Erasmo sabia que iríamos, um dia, nos encontrarmos uns aos outros para além do espaço de democratização das relações das cidades renascentistas. Deveríamos abrir outros e maiores espaços, inaugurando uma era mais intensa na escalada de vitrinização que, hoje, exemplificamos com os nossos diversos tipos de midia. Eliminamos a dicotomia “ser versus ter” para ficarmos com a ideia de que tudo é parecer e aparecer, como escreveu Guy Debord no seu clássico Sociedade do espetáculo (Rio de Janeiro, Editora Contraponto, p. 18, § 17. E ao nos tornamos isso, a pura vitrine, o puro acabamento, o rosto nu assume sua nudez como única máscara. Assim, se somos a vitrine e não a loja, não somos mercadoria no sentido tradicional, somos o visível, que também se mercadoriza como visível. Somos antes papel de embrulho e embalagem. Ou, com mais status, somos brand. E sabemos o quanto nosso mercado é antes povoado agora pelo brand, símbolo, que pela velha mercadoria-produto. Ao estarmos vazios, numa subjetividade que volta a ser rasa (casca, vitrine, película) temos de preenche-la com a razão que não temos, a razão do coach, do personal X, do psicanalista que substituiu o padre, do apresentador do TV, da balbúrdia da mídia e, principalmente, do consultor, como nos contou Peter Sloterdijk (O Palácio de Cristal. Lisboa: Relógio D’água, pp. 65-74).  As mulheres jamais abrirão mão do salão de beleza semanal, também um lugar de refazer a vitrine e dar algum conteúdo para a loja vazia da consciência. Eis aí o lugar par excellence do auto-elogio, a atividade da Loucura, retratada por Erasmo.

Vivemos o tempo da consultoria como um tempo da máxima valorização do designer de vitrine. O profissional do futuro: o vitrinista de gente.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 17/02/2017

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3 Responses “Como foi que nos transformamos em vitrines? O mundo desenhado por Erasmo de Rotterdam”

  1. Fernando Ribeiro
    07/03/2017 at 17:54

    Caramba, esse texto causou uma catarse aqui, precisei reler pra sentir a sensação de novo…
    Deixe eu dizer Paulo, acompanho seu trampo não é de hoje, suas abordagens estão aí fornecendo provocações, esclarecimentos e subsídios capazes de influenciar nas reformas interiores e intelectuais das pessoas. Cheguei em seu conteúdo através de Gramsci, num texto que você falava da importância dele num aniversário de sua morte, na possibilidade de adaptar sua teoria pelo que ainda carregava de atual… de lá pra cá só loucura, muitos textos, muita coisa, até trisquei aqui e discutimos kkk… eu era um molecão, queria atenção, e me serviu, abaixei minha zoreba…
    Mas uma curiosidade que eu tenho de verdade, é de um dia ver um texto seu falando algo sobre Jung. Sei que fugiria muito talvez da sua proposição filosófica, que hoje escala muito bem sloterdijk no processo de composição, mas pra mim (como aluno que saiu da idolatria para admirar as ideias), seria uma satisfação…

    Paz e Luz professor!

    • 07/03/2017 at 19:25

      Fernando! Eu sou filósofo e levo a sério isso. Por isso, não falo do que não sei. Jung eu li para conhecer, não para usar. Por isso, não uso. Fiquei feliz de ter fisgado você para a curiosidade.

  2. Claudia Martins
    19/02/2017 at 16:50

    Me identifiquei com tua postagem. Muito boa reflexão e crítica.

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