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23/06/2018

A cidadania está na ponta de seus dedos? Em uma República Lésbica, talvez!


[Artigo indicado preferencialmente para o público universitário]

Creio que Giorgio Agamben não sabe que no Brasil, ao menos para o governo, a “cidadania está na ponta do dedo”. A felicidade talvez possa estar, para muitas mulheres, na ponta de seus dedos – se é que podemos autoritariamente dizer o que é a felicidade, para os outros! Mas eu tendo a concordar com Agamben quando ele diz que uma “identidade sem pessoa” é a identidade reduzida ao corpo físico, ou parte dele, e que isso é nos jogar para fora do mundo ético. Ora, o que é tirar o homem do mundo ético senão tratá-lo para fora de sua humanidade?

A cidadania não está na ponta dos dedos de ninguém, do mesmo modo que o gênero não pode estar no espaço entre as virilhas. Cidadania é uma noção que só faz sentido após o homem entrar para o campo ético do mesmo modo que gênero – homem, mulher, trans etc. tomados socialmente – só fazem sentido nesse campo das relações da liberdade da escolha de cada um de poder se apresentar com identidades condizentes com seus confortos.

Demoramos para aprender com as feministas que o corpo deve seguir desígnios de liberdade e, portanto, gênero pode ser um caminho para escapar da “ditadura da natureza”, que quer nos reduzir a divisões postas pelos elementos corporais físicos – segundo uma acepção única de “físico”. E justamente quando estamos aprendendo isso, essa lição de liberdade, escorregamos na propaganda governamental. Ou seja, reduzimos nossa condição de liberdade, dada pela cidadania, novamente a uma marca física, corporal – a digital. Agambem diz: logo ter uma identidade será algo do âmbito do sangue! Rosto físico tipologizado, DNA, iris etc. Tudo isso nos lembra a “cidadania” dos campos de concentração nazista, a inscrição do número no braço. Estamos longe do fichamento corporal qualitativo, da polícia, baseada na biometria de Lombroso. Agora, todos nós somos democraticamente fichados pelo corpo, não mais por um rosto assim ou assado, embora o retrato falado vá sempre nos perseguir na ideia de reconhecimento facial dado por programas de computador que, enfim, consultarão nossa “cidadania na ponta do dedos” – a digital de cada um. Afinal, “não pode faltar ninguém”.

A noção de biopolítica de Foucault levou Agamben a construir a sua própria noção de biopolítica: trata-se de, na divisão entre “vida nua” (vida orgânica) e vida (vida ética), adentrarmos a modernidade acreditando que foi bem melhor ter trazido para dentro da vida política não a vida ética, a vida, mas ter feito todo mundo acreditar que viver é viver biologicamente – eis que no campo de concentração o conceito de vida é exatamente este: o respirar.

Para um mundo em que a mortalidade infantil e a mortalidade de mães no parto não importava, entramos num mundo onde a puericultura integrou-se à política em que o Estado precisa investir e, assim, cuidar de seus cidadãos. Mas nesse ganho, também perdemos: pois o importante, para muitos, se transformou no seguinte fato, que pode ser assim expresso: “o pobre já não morre tanto, ora, já tá bom prá ele – além disso ele quer dignidade? Tá querendo muito”

Toda o liberalismo e sua variante social democrata acreditaram que estavam fazendo um bem ao inaugurar a biopolítica, ou seja, trazer a vida para o interior da política, mas reduzindo a vida, para tal, à “vida nua”. A maioria de nós não dá nenhuma bola para conceitos como honra diante de um revólver apontado para a cabeça. “A bolsa ou a vida!”. Gritamos em resposta: “tome a bolsa, não me mate”. Ajoelhar custa menos que a vida, para o homem moderno liberal. Nenhum grego ou romano iria se ajoelhar pela vida, pela vida orgânica. Viver biologicamente depois de ter ajoelhado nunca foi propriamente viver, para os antigos. Só nós,  modernos, concordamos com Maluf: “estupra mas não mata!” Só nós, modernos liberais concordamos com Lula: “o pobre é solução, não problema!” – ou seja, o pobre precisa comer, e já tá bom. E depois pode ganhar uma casa vagabunda do “Minha casa minha vida” ou fazer uma faculdade mais vagabunda ainda por meio do PROUNI. Tudo que é para o pobre é para seu corpo, nunca para conforto ético. Pois a ética é secundária num mundo onde o conceito de vida é estar vivo organicamente, onde estar vivo é apresentar-se corporalmente, onde a própria identidade é uma marca corporal.

Trazer a vida para o campo da “vida nua”, para a vida orgânica, biológica, parece um ganho liberal quando imaginamos que há políticas sociais que buscam proteger todos da fome. Mas logo descobrimos que isso é, também, uma perda, porque estar vivo não deveria significar ter de viver somente com a fome suprida. A variante populista – à esquerda ou à direita – do regime liberal moderno é que adota essa biopolítica. É ela que nos tira a liberdade através da frase: “o pobre não pede muito”. O pobre precisa de soluções pobres; antes ficar vivo que morrer – eis as regras dos ricos para os pobres, e tudo isso porque a noção de vida mudou. Antes ser um número no braço que morrer fisicamente. Antes ser uma pessoa por causa de que teve a cidadania reduzida a uma digital do que não ser pessoa por não ter o corpo cadastrado! Essas frases mostram o paradoxo da biopolítica: ela dá no momento que tira, e tira no momento que dá.

A “cidadania na ponta dos seus dedos” é uma bela armadilha de uma mais um lance da biopolítica. Estamos enredados nisso, numa concepção que se fez hegemônica de tal modo que sequer conseguimos imaginar qualquer outro movimento, qualquer outra coisa que venha a nos apontar para a liberdade.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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5 Responses “A cidadania está na ponta de seus dedos? Em uma República Lésbica, talvez!”

  1. Afonso
    16/03/2018 at 19:18

    Tem razão, Prof, sabia que iria responder isso… Acho que ‘viajei’ um pouco… Estava pensando não no aspecto da biopolitica, propriamente, mas em reduzir a cidadania a uma fração de segundos (caso da campanha digital), a uma virtualidade, embora se possa proceder a uma interessante análise discursiva dos enunciados ali produzidos. É isso, o seu texto é bem esclarecedor sobre as formas de controle sobre o corpo/cidadão.

  2. Afonso
    15/03/2018 at 19:30

    À maneira dos 15 segundos de cidadania nos vídeos da campanha Brasil que eu quero… (da Globo)…

  3. Matheus
    16/02/2018 at 15:28

    Agora a cidadania está na mira dos rifles no RJ…

    Talvez o Sr por ter lecionado no Estado do Rio de Janeiro tenha algo mais a dizer sobre o que está acontecendo para além de toda a verborragia midiática

    • 16/02/2018 at 17:19

      Escrevi sobre isso, há muito, no Estadão, dizendo que o Exército subir o morro seria um desastre. E foi. Está sendo. Será.

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