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24/08/2017

Capitalismo Emocional


Quase todos os analistas distinguem o capitalismo de produção do capitalismo de consumo de massa. Os filósofos sociais tendem a tirar conclusões psicopolíticas dessa segunda condição que, segundo eles, nos mostram características essenciais do modo de vida contemporâneo.

O capitalismo de hoje não é aquele analisado por Weber. Todos sabemos disso. O filósofo germano coreano Byung-Chul Han lembra isso e acrescenta que não vivemos mais no capitalismo que segue dispositivos racionais, mas sim emocionais. No capitalismo de consumo o que se vende são significados e emoções. Usa-se de emoções para que o consumo seja estimulado. Mas também e principalmente, nesse caso, a  sociedade em que vivemos não é aquela em que consumimos coisas, mas consumimos antes de tudo emoções. Afinal, diz Han, as coisas não podem ser consumidas infinitamente, mas, em troca, as emoções podem cumprir um tal desiderato. Além disso, as emoções se potencializam para que o capitalismo tenha ainda mais produtividade, e nisso ele se apropria do jogo. O jogo deixa de ser o outro do trabalho. Esse capitalismo atual ludifica o mundo da vida e o do trabalho. O jogo emocionaliza e dramatiza o trabalho, e gera então um estado comocional geral. Por fim, em um sistema que facilita a experiência rápida do êxito, como se dá no jogo, a gratificação instantânea amplia o rendimento e os produtos. [1]

Da maneira que vejo a contemporaneidade, em associação a situações mais amplas que a do capitalismo, entendo essa situação assentada em uma plataforma cultural mais antiga. Penso que essa cisão tem razões antropológicas mais profundas, e que uma tal coisa é possível de ser percebida na observação de vários momentos histórico-filosóficos, em especial nas culturas que se formaram a partir da divisão da Igreja, quando da existência entre o Império do Ocidente e o Império do Oriente.

Na Igreja Ortodoxa as pinturas nunca foram feitas por artistas a partir de seus próprios estilos, mas segundo uma única técnica, aprendida distante de qualquer laicismo. Trata-se de uma técnica sagrada, na qual os artistas são introduzidos e treinados, e se limitam a esse trabalho. As figuras pintadas são todas circunspectas, sem emoções ou quaisquer extravagâncias. Os olhos dos santos, e também de Jesus, são profundos e devem levar o observador a se cansar deles. Tudo é feito segundo um ditame explícito de neoplatonismo. O que a pintura faz é tirar do observador o mundo das emoções de modo que ele possa contemplar as figuras sem se envolver com elas enquanto corpos, enquanto pessoas, podendo assim alçar voo para a oração que quer se encontrar com a divindade por meio de aspiração que, no platonismo, equivale à contemplação do mundo das formas, das ideias.

Na Igreja de Roma, no entanto, o calvário e as emoções puramente humanas sempre deram o tom e o estilo para as pinturas. Jesus na cruz sempre foi mais importante que a cruz. A vida dramática e até trágica do filho de Deus nunca anunciou propriamente um Deus que é uma ideia somente, mas essencialmente um homem divino que sofreu, amou, se desesperou, foi tentando pelo mundo na caminhada pelo deserto e, enfim, venceu a morte carregando suas chagas. O drama de Jesus nunca se aproximou em nada da teoria das formas do neoplatonismo. Muito pelo contrário, sempre deixou claro que o Novo Testamento era uma história capaz de, mais tarde, inspirar narrativas subjetivas e, enfim, o romance moderno.

A Igreja do Oriente celebrou o neoplatonismo enquanto que a Igreja do Ocidente, após breve namoro com o platonismo, encerrou-se na vida terrena tão amada pelos aristotélicos.

Ora, não foi sobre as aspirações de neutralidade emocional que o cristianismo do Ocidente se fez e, por isso mesmo, pela via do cultivo das emoções, ele se viu feliz quando a produção capitalista se tornou o que é hoje. O capitalismo emocional de hoje combina com a emocionalidade do Ocidente. O consumo de hoje, o do capitalismo emocional, é o consumo que não contraria a emocionalidade da nossa maior manifestação religiosa ocidental. O nosso cristianismo ocidental nunca contrariou o elemento dramático e, de certo modo, a associação deste ao lúdico. Afinal, jogos de guerra e morte e sofrimento também são jogos.

Quando olhamos para as narrativas que estão nas paredes da Igreja ocidental e da Igreja Ortodoxa, percebemos o quanto o capitalismo ainda está em seu início. Só agora, em uma época que, como diz o filósofo francês Gilles Lipovetsky, no coloca de fora da moral do dever na abertura para uma moral dos direitos[2], é que podemos abraçar o capitalismo do consumo e deixar as emoções virem em doses variadas, associadas a produtos ou simplesmente como puras emoções vendáveis. Nessa hora, desabrochamos o calvário como elemento chave de nossa psicologia. Não à toa os filmes tradicionais de “vida, paixão e morte de Jesus”, tanto os clássicos quanto os populares, sempre fizeram sucesso. Emocionamo-nos. Temos sim, nesses dias, cedido ao psicologismo e ao dramático, seja ele banal ou não. Caso não, nós podemos banalizá-lo pelo lúdico. Temos de assim viver. Fomos treinados para abandonar a divisão da alma entre razão, thymos e apetites, como em Platão,  para viver na modernidade com uma alma que, agora, é simplesmente desenhada como composta só de razão e paixão.

Mas estejamos atentos: emoção não é sentimento. Emoção é fugaz, sentimento é duradouro. Só o primeiro se adapta ao calvário como o que se vive só uma vez no ano, e também ao consumo que traz uma emoção nova a cada momento, uma vez que são os próprios picos de euforia que é o que consumimos atualmente.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 30/06/2017

[1] Han, Byung-Chull. Psychopolitik. Frankfurt am Main, Fischer Verlag GmbH, 2014.

[2] Lipovetsky, G. Metamorfoses da cultura liberal. Porto Alegre: Editora Sulina, 2004.

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3 Responses “Capitalismo Emocional”

  1. Tony Bocão
    31/05/2017 at 15:05

    Entendi a linha e já sinto que vou ficar um tempão com esse texto na cabeça

  2. Tony Bocão
    31/05/2017 at 09:14

    St Agostinho deu base filosófica para a arte deixar de ser vista como idolatria na igreja do ocidente e a torna recurso de catequização, mas vejo que a a arte da igreja ortodoxa houve algo diferente, Professor gostaria de entender mais a respeito desta comparação, poderia recomendar algum autor ? obrigado

    • 31/05/2017 at 09:22

      Tony, usei esse exemplo para mostrar que o emocionalismo que vivemos é um desdobramento de certas correntes do Ocidente, não uma grande novidade. O neoplatonismo vigente em Bizâncio é o que deve ser estudado para entender o não emocionalismo do “lado de lá”.

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