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20/05/2018

Caminhamos para um mundo de extraliberdade


Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico

Hegel tinha a certeza de que a sua filosofia da história dizia exatamente para onde caminhamos: para cada dia mais liberdade. Ele dizia que só não podíamos ver uma tal coisa quando olhávamos para a história sem a perspectiva da “grande duração”. Na verdade, a “astúcia da razão” se incumbia de tirar proveito dos fatos que nos amarravam para usá-los como estratégias para um mundo cada vez mais racional e livre. Por conta desse seu otimismo iluminista e romântico ao mesmo tempo, sua filosofia foi criticada e, por muitos, abandonada. Terminado o século no qual que ele morreu, Nietzsche havia deixado uma outra visão: a liberdade não existia, ela não passava de um artifício, incrustado na linguagem por conta de uma estratégia dos “fracos” contra os “fortes”. Nenhum sujeito realmente existia, nenhum responsabilidade era efeito de alguma decisão realmente autônoma. Falar da liberdade e de decisões de “sujeitos” era só um modo de ovelhas acusarem o lobo de ser mau por opção, por não ter decidido ser vegetariano.

Em 1949, quatro anos após ao fim da II Guerra Mundial, o mundo liberal já havia posto uma pedra sobre o nazismo como futuro a ser rechaçado. O totalitarismo do comunismo, engatinhando na trilha da fama que iria alimentar a Guerra Fria, para chegar até o momento de Reagan chamar a URSS de “O Império do Mal”, estava dando as cartas para os ficcionistas. Então, saiu o livro 1984. Quando chegamos em 1989, o futuro desmentiu seu autor redondamente. George Orwell não acertou em nada e, no entanto, até hoje, a sensação – para alguns – é a de que acertou em tudo. Os totalitarismos estão em baixa, o ideal de vida posto pelos estados que optaram pela liberal-democracia é realmente o grande ideal ético-moral-político de nossos tempos, mas não conseguimos não achar que o tal “Grande Irmão” não está nos vigiando. Temos a sensação de que o chamado “fim da proteção da vida privada”, exercido pela mídia do tipo da Internet e pelas câmeras de segurança e de trânsito distribuídas  por todos os lugares, diluiu a central chamada Big Brother, democratizando uma tal função, fazendo cada uma de nós o Little Big Brother. Somos mais eficientes nessa tarefa de democratização do policiamento que o Estado.

Todavia, não sou partícipe de que 1984 fixou regras para o futuro para além de 1984, desmentindo o destino de liberdade desenhado por Hegel. Vejo a ideia de “fim dos segredos da vida privada”, que realmente é vigente e iriá se ampliar, como não tendo efetivamente se posto contra a liberdade. A liberdade de ter segredos e de não ter praticamente vida privada não é conceito de liberdade meu, nem de Hegel, mas apenas uma mesquinha parte da noção vulgarmente burguesa de liberdade. Achar que perdemos a liberdade porque estamos mudando nosso sentimento de vergonha é não estar atento para o que é liberdade no seu exercer-se e não estar atento para o que é vergonha.

A vergonha dos homens públicos está diminuindo. A vergonha dos homens comuns, nós todos, também está diminuindo. A vergonha clássica está perdendo o sentido. Somos cada vez menos atingidos pelo censura do olhar do outro. No Ocidente, somos cada vez mais desavergonhados. Esse é o efeito do “fim da vida privada”, mas isso nem de longe é restrição de liberdade, isso é justamente a liberdade se exercendo. Cada vez mais podemos fazer coisa proibidas antes, e por isso, no desespero, há grupos de direita (e esquerda) que querem reinstaurar censuras morais baratas. Aliás, seria tolice tentar desmentir Lipovetsky e negar que a ética do dever, kantiana e judaica, está nitidamente em desusos diante da ética contemporânea mais afeita a desejos individuais.

Se lermos a “fenomenologia da vergonha”, contido em Ser e nada de Sartre, veremos que não estamos mais num mundo onde podemos sentir aquela vergonha. Ou se olharmos para ideia primitiva de vergonha, que está no discurso de Alcibíades em O banquete, ou mesmo se pensarmos nas declarações dele, (em outro lugares), a respeito de não tocar flauta para não ficar vergonhosamente com as bochechas inchadas (ainda que momentaneamente) e ridículas (como um sátiro), notaremos que não somos mais capazes de vergonha. A vergonha caiu por terra por meio do fim da vida privada burguesa, mas isso não veio por conta da restrição da liberdade, mas pelo aumento dela. E o fato de sermos olhados por todos só restringe nossa liberdade se a vergonha existir. Mas ela não persiste e, no futuro, não existirá. Seremos uma sociedade-sem-vergonha, e muito mais livre, se seguirmos o fio que estamos seguindo. Funcionará a “astúcia da razão”: mais liberdade traz a aparência de menos liberdade, pelo fim da vida privada, que irá em resultar em mais liberdade ainda, por conta da disseminação da perda da vergonha.

Acreditar em Big Brother ou que o biguebroderzinho que há em todos nós vai nos restringir é uma ideia que já devemos ir tirando da cabeça. 1984 está já diante da mera crítica roedora dos ratos. O inferno, eu garanto, não são os outros. Aliás, cadê “o outro”? Assim tem perguntado Byung Chul Han. Peter Sloterdijk, em um sentido diferente, mas não de todo incongruente, tem perguntado: não temos realmente ficado mais leves? O totalitarismo como futuro é uma ideia que está se tornando infantil, algo de primeiro ano de Ciências Sociais ou de professor de filosofia que chegou na Escola de Frankfurt tardiamente.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60,  filósofo. São Paulo, 11/12/2017

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6 Responses “Caminhamos para um mundo de extraliberdade”

  1. Thiago Dantas Fajardo
    20/12/2017 at 09:02

    A revista Galileu, que não é revista de filosofia, públicou um artigo chamado
    “CHINA QUER IMPLANTAR SISTEMA ‘BLACK MIRROR’ DE AVALIAÇÃO DE PESSOAS” e expôs um clima, um tom de que tal tendência na China é um tipo de “totalitarismo de Estado, mecanismo de controle social”. Segue um trecho abaixo, sobre o que se trata no artigo. O senhor pode fazer um comentário sobre? Caso haja relação com está desconstrução das esferas públicas e privadas, o aumento de transparência social e da liberdade desavergonhada, o ser pode fazer um comentário?

    “O 1º episódio da terceira temporada trazia um mundo onde todos eram avaliados por todos, e sua nota era usada em todas as situações sociais, como entrar em um restaurante chique ou alugar um carro melhor. A partir de 2020 deve entrar em ação um sistema semelhante, mas não são as pessoas que avaliam o próximo, e sim suas ações que são avaliadas pelo governo chinês.

    Anunciado ainda em 2014, o SCR (sigla em inglês para Pontuação de Crédito Social) começou a ser testado neste ano. Com ele, cada um dos 1,3 bilhões de chineses serão constantemente avaliados por suas ações, monitorados por meio de dados recolhidos das mais diversas fontes – onde compra, o que compra, onde vai, quantos amigos tem, se tem filhos, se paga as contas em dia.

    A pontuação final será pública, usada para medir seu grau de confiabilidade. Com base nessa nota será determinado se você é bom para uma vaga de trabalho, se serve para determinada escola, se pode pegar ou não um empréstimo no banco.(…)” Fonte: CHINA QUER IMPLANTAR SISTEMA ‘BLACK MIRROR’ DE AVALIAÇÃO DE PESSOAS / Revista Galileu.

    • 20/12/2017 at 09:22

      Sim, escrevi sobre isso há anos, por conta da adaptação do Facebook ao caso Chinês. O mercado e as empresas são melhores nisso que o Estado.

  2. Vidente
    18/12/2017 at 19:43

    O futuro será o período da humanidade onde reinará, como nunca antes, o totalitarismo. O totalitarismo dos imortais: os homens- máquinas, aqueles que não morrem. A questão é: de que lado você (ou seus netos) estará?

  3. Henrique
    13/12/2017 at 21:02

    Desculpe-me pela pergunta um pouco fora de contexto, mas qual é a sua opinião sobre Mangabeira Unger e suas recentes investidas no campo da política partidária (ao lado do possível candidato Ciro Gomes)?
    Grato pela resposta.

    • 14/12/2017 at 09:24

      Gosto mais do Ciro do que dele. Mangabeira ocupou um ministério inexistente e que ele manteve inexistente no governo Lula. E não acho que ele seja alguém capaz de dialogar, é apenas um cara cheio de verdades. Não sabe fazer pergunta.

  4. LMC
    11/12/2017 at 13:04

    E quem é essa mulher
    muito bonita da foto,PG?

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