Go to ...

on YouTubeRSS Feed

17/12/2017

Calligaris quer alunos na Nova Cracolândia. Liberdade versus vida.


Para o meu amigo D. Paulo, bispo emérito de Mogi das Cruzes

Sobre o assunto liberdade, uma boa aula de filosofia deveria ser dada na Praça Princesa Isabel, em São Paulo, uma das novas cracolândias, entre as 25 criadas em um relâmpago pelo prefeito Dória, o gestor que quer fazer tudo bem depressa. A proposta é do psicanalista meu amigo, Contardo Calligaris (Folha, 01/06/2017).

Calligaris é italiano e por isso não sei se ele se tocou a respeito da ironia da situação, o nome da praça: a da mulher que assinou a Lei Áurea. O lugar já era assento para o tema da liberdade antes de ter sido reinaugurado agora, por ação indireta de Dória, como o campo de terror em que a liberdade máxima, que a de se drogar e se matar, se encontra com o término de qualquer liberdade. Já imaginaram uma aula ali? Todos os alunos andando peripateticamente, observando e discutindo filosoficamente a degradação humana. Alguns pegariam o celular e filmariam. Todos preparando sua monografia. A quem poderíamos recorrer para que tal coisa, que seria a volta do circo romano, não se instaurasse? Ao conselho protetor dos animais, é provável.

É claro que a aula de Calligaris não é real, é uma pequena alegoria. Ou seja, a liberdade pode estar no livro de utilitarista John Stuard Mill, mas “in vitro” ela está na praça Princesa Isabel. Ali seria o tal “laboratório de metafísica”, que algumas faculdades inventaram, ao menos no papel.

O que está em jogo, na verdade, em toda a situação daquela praça, e em todas as outras cracolândias que esperam uma placa de inauguração de Dória, o gestor (e não me lembrem de Haddad, pois este é doutor e professor da USP e acabou de dizer que não sabia que o dinheiro de sua eleição veio de caixa dois – um doutor que não sabe nada, como todo petista), na prática, não é propriamente o noção filosófica de liberdade, seja ela qual for. As pessoas se insurgiram contra a abordagem coercitiva do drogado por uma razão simples: a letra da lei esboçada pela prefeitura é completamente vaga, dá margem para seja lida ao modo das leis de ditaduras, onde uma autoridade pode abordar um cidadão qualquer por conta de “eu achei que”. Ou seja: a incompetência de Dória, além de várias outras no assunto, vem de sua equipe técnica, e dele mesmo, de não saber gerar textos em uma democracia. Pensam a cidade sob a visão de um dono de fábrica do século XIX.

Mas, se quisermos esquecer dessa burrice, e transportarmos a conversa para o plano filosófico, e ficar com a pergunta que, enfim, também aparece no instigante texto de Calligaris, se o importante é viver ou ser livre, faz-se necessário observar dois pensadores: Hegel e Agamben. O primeiro nos disse que o homem é o único animal que prefere o reconhecimento antes de tudo, e que põe sua própria vida em jogo por valores – entre eles a liberdade – que o distingam, que preservem sua identidade, acima de sua própria vida. O homem se arrisca ao máximo pelo reconhecimento. O segundo mostra como que a modernidade, antes mesmo do tempo de Hegel, já o havia colocado em cheque. Foucault localizou essa situação na entrada dos tempos modernos. Afinal, a noção de biopolítica diz respeito à emergência da vida no campo político como vida nua, vida puramente biológica. Os modernos mudaram a noção de vida, tornando-a algo puramente biológico, para faze-la, no âmbito da política, o valor final, básico. Na modernidade vale antes estar vivo do que qualquer outra coisa. Em nossos tempos, a degradação é secundária, acostumamo-nos a entender que a vida no campo de concentração, se há respiração, ainda é vida. A máxima da biopolítica foi teorizada pelo ex-prefeito de  São Paulo, na sua célebre declaração: “estupra mas não mata”.

Todos os dias vemos políticos e pessoas comuns preferindo viver de joelhos do que morrer. No Ocidente esse imperativo moderno é rei, e no Brasil é uma lei divina. As pessoas preferem viver como Eduardo Cunha, ou até mesmo como o irmão da macabra Suzane von Richthofen, do que não viver, ou seja, não respirar. O imperativo da vida biológica, da zoé e não da biós, a força da “vida nua”, é tão marcante entre nós, que não conseguimos entender o mandamento de Kant para a mulher estuprada: que ele deve, uma vez estuprada, se matar.

Mas volto ao problema da prefeitura. Se houvesse vida inteligente na prefeitura, é claro que o problema não seria colocado como foi colocado. A questão não é obedecer cegamente os ditames da biopolítica ou não obedecer, a questão não é colocar as coisas segundo a dicotomia viver livre ou não viver. Nenhuma prefeitura, nenhuma instância política de administração do corriqueiro deve trabalhar na radicalidade das questões filosóficas. E a saída para tal se encontra na capacidade de produção de textos, de peças legislativas que se adequem ao que se pede no Estado de Direito. Não saber fazer um texto específico, para realizar uma condução de drogados para poderem se tratar, é de fato o problema da prefeitura. Enfim, falta aos técnicos da prefeitura, e talvez ao próprio prefeito, aulas de redação. Só isso. Todo o debate se resume à falta de alguns de terem tido bons alfabetizadores.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 02/06/2017

Sobre as drogas a partir de uma perspectiva ontológica, clique aqui!

Tags: , , , , , ,

2 Responses “Calligaris quer alunos na Nova Cracolândia. Liberdade versus vida.”

  1. Gustavo Ruy
    02/06/2017 at 10:59

    Excelente análise filosófica de uma temática atual. Parabéns pelo texto, Paulo!

    • 02/06/2017 at 11:12

      Obrigado Ruy, foi uma requisição do D. Paulo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *