Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

24/09/2017

As bonecas do amor do Japão


O senso comum olha aparentemente escandalizado para os japoneses e suas “bonecas do amor”. Julga que está diante de alguma coisa que lhe é estranho. Vocifera moralismo barato sobre práticas que julga obcenas e, por conta de serem feitas com bonecas, com o inanimado, faz a avaliação fácil de que está diante de loucura e bestialidade. O senso comum gosta de agir rápido e pensar pouco.

Às vezes, as não tolas interpretações de fundo neomarxista, como as inspiradas na Escola de Frankfurt – que também estão presentes em Byung-Chull Han –, se comportam antes como barreiras que como explicações produtivas, deixando-se levar por um moralismo semi-explícito: por conta do capitalismo enfiado goela abaixo em uma cultura feudal, os japoneses teriam cedido à reificação e ao fetichismo em uma forma muito mais visível que aquela vigente no Ocidente.  Ora,  prefiro tentar outra via de interpretação, fora do senso comum e do neomarxismo.

A indústria japonesa das bonecas de estilo realista dirigida a adultos masculinos começou em 1981. Nos dias atuais beira à quase perfeição na arte do silicone. Mas as bonecas desse tipo, sabemos, não são coisa contemporânea, ainda que sejam modernas. Satisfazem uma necessidade que, digamos, se acentuou a partir da modernidade. Há dezenas de momentos da literatura internacional, que o próprio Ocidente bem resguardou, de situações na qual os bonecos estiveram à frente de grandes narrativas.

A Bela Adormecida traz a garota que se põe estatelada na cama, linda e sem reações, numa frigidez que adoça os sonhos de vários de nós, quando adolescentes. Afinal, entre nós – meninos e meninas – não é estranho o sonho de poder manipular sexualmente pessoas que, enfim, estão em sono profundo, e que jamais poderão nos acusar de tê-las acariciado. O conto Pinóquio nos dá um velhinho afeminado, sem filhos, que construiu ele próprio, pelos seus dotes de carpinteiro, um menino de madeira que, enfim, teria de ganhar consciência por atos bons. Torna-se menino quando salva o pai e, em analogia ao conto bíblico, emerge do interior de um monstro, ou seja, renasce vindo da boca da baleia. A própria vida de Descartes ganhou adendos populares fantasiosos ligado ao mundo dos bonecos. Ele foi quem falou dos animais como seres maquinais e hidráulicos. Na lenda que adora inserir-se em sua biografia popular, Descartes teria estado com uma dessas bonecas mecânicas, fantasiada como a sua falecida filha Christine, em uma viagem de navio. A boneca teria sido jogada ao mar por marinheiros supersticiosos. Podemos lembrar ainda, claro, dos bonecos monstros, como o caso do romance Frankstein.

Em uma interpretação inspirada em Sloterdijk, podemos dizer que somos os que, especialmente a partir da modernidade, com o liberalismo fincando raízes e levando a ideia de indivíduos altamente unitários e realmente individuais, se esqueceram de sua condição dupla, de díade. Tendo perdido essa descrição de nós mesmos, a de bi-unidades, tão presente na cultura antiga de um modo geral, passamos a uma eterna busca pelo nosso gêmeo (nosso alter ego se torna algo misterioso), então condenado ao vazio ontológico. Um dado significativo e possível de alimentar a minha interpretração nesses moldes, vem da pesquisadora da cultura japonesa, Agnes Giard. Lendo sua tese sobre as bonecas do amor, encontrei dizeres que ela recolhe dos produtores-vendedores dessas bonecas no Japão. Ela expõe:

“As bonecas do amor, mesmo aquelas para quem está entre vinte e trinta anos, somente podem dar prazer por parecerem “fora de fase”. Clientes querem ‘quimeras’, confirma Okawa, porque eles foram alimentados pelo mangá, pelo campo digital, por cartuns e jogos eletrônicos. Para esses adultos adeptos da ficção poderm voltar a um passado idealizado, devemos oferecer a ilusão de que a existência não é uma queda irreversível. ‘Bonecas, como anjos da guarda, nunca irão deixá-los decair e jamais envelhecerão. Elas sempre estarão lá para eles. Em acréscimo, elas podemos mesmo ser parceiras sexuais’, ele disse, insistindo em uma ideia: ‘a boneca do amor, é que essencialmente etérea, deve ser uma continuação de um sonho e deve oferecer aos seus donos o refúgio de uma utopia’ ”. (Giard Agnès, « La love doll au Japon : jeux imaginaires, incarnation et paradoxes », dans revue ¿ Interrogations ?, N°23. Des jeux et des mondes [en ligne], http://www.revue-interrogations.org/La-love-doll-au-Japon-jeux (Consultado em 2 de julho de 2017). (grifo meu).

A expressão “anjo da guarda” é significativa. O que Sloterdijk fala da díade, do duplo que somos por conta de virmos da simbiose e da ressonância gerada entre um feto e uma placenta, que dão nossos primórdios numa investigação que pode ser chamada de arqueologia da intimidade, nos remete à figura do daimon grego, do anjo da guarda romano-cristão, ou seja, de todas as figuras e situações de gêmeos que povoaram nossa cultura antiga anterior à hegemonia do liberalismo. Se pensarmos nesses termos e acoplarmos esse saber ao animismo da cultura japonesa, que milenarmente vê objetos como possuindo almas tensionadas por antepassados, tudo fica mais fácil de compreender.

Em uma cultura de desoneração e de ampliação de mimo, como Sloterdijk nota ao descrever a modernidade, não é difícil que uma tendência de restaurar exo-úteros e de reconstruir situações utópicas vividas, se façam a partir de descompromisso com o trabalho e, então, em favor de ondas de entusiasmo puramente lúdico. O jogo de internet e o mangá dão o rumo para o sonho reposto da companhia que permite nos colocar como somos, os duplos. Afinal, nós somos os seres pensantes e o pensamento, disse Platão, é a conversa silenciosa conosco mesmo. O pensamento tende à reflexão, a atividade do dois-em-um. Estamos desacostumados a nos descrever assim, pois falamos a linguagem de Aristóteles e Descartes, da unidade substancial, ou de Habermas, da intersubjetividade linguística. Mas se abandonamos esses modelos, e nos voltamos para nossa condição de duplos, para sermos os que desenvolveram sua psiquê por meio de situações sinestésicas que exigem o duplo, o meio, então, a ideia de buscar companhias substitutivas prazerosas, que não trazem desgastes, torna-se algo perfeitamente explicável. E então podemos  entender que as bonecas do amor nada são senão avós dos inúmeros robôs que muitos disseram existir na época que os relojoeiros mandaram no mundo, os grandes criadores de bonecoides que podiam se mover por si mesmos, mas que, de fato – se pensarmos na tecnologia da época – só se moviam antes pela imaginação que pelas engrenagens exageradamente colocadas.

Em uma interpretação nesses moldes, saímos da condenação dos japoneses que compram bonecas de silicone de voltamos a notar o quanto nós, ocidentais, também estamos inseridos na fantasia de produzir o outro, ainda que numa cultura narcísica. Talvez, na falta de bonecas, nós ocidentais estejamos fazendo de bonecas outros humanos, como cachorros, mulheres e filhos (filhos dos outros, claro). O lúdico contido na “vida leve”, desonerada, que o Ocidente capitalista ensinou a todos, tem seu lá seu preço. O preço pago pelos japoneses pode ser até mais barato que o nosso. Se pudéssemos continuar a ironia sem vomitar, diríamos: o preço de uma boneca dessas é de seis mil dólares. Sem bonecas fazemos estragos que não podem ser pagos por essa quantia.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 02/07/2017

Love Doll e abaixo a “Human Love Doll”, Dakota, de 17 anos:

 

Tags: , , , , ,

6 Responses “As bonecas do amor do Japão”

  1. Gustavo Ruy
    03/07/2017 at 21:02

    Paulo, esse texto é genial. O desafio do senso comum e o desmonte da questão para permitir pensar de maneira ampla foram na medida correta. A investigação do aspecto subjetivo do fenômeno sem se deixar cair no clichê da “ideologia capitalista” torna tudo mais fértil para a reflexão. Uma ontologia “aberta”, sem causalidade presumida, sem o engessamento do pensamento se faz necessária.

  2. LMC
    03/07/2017 at 13:35

    E o Trump que agora deu de fazer
    brincadeirinha de ficar esmurrando
    a imprensa por aí?O típico trumpista
    fica nervosinho quando aparece
    alguém defendendo os direitos
    humanos usando camisa do
    Che Guevara porque queria que
    ele usasse uma camisa do
    Reagan ou do Nixon.

    *Não tem nada a ver com o
    texto do PG,mas aquela
    montagem que o Trump fez
    não dá pra não comentar,né?

  3. Luciano
    03/07/2017 at 12:19

    Professor,eu sei que ela tem em relação ao tema, e provavelmente lá nas pesquisas dela devem falar do Kawabata,eu só coloquei uma obra literária que ajuda a compreender melhor sobre o tema e acredito que o senhor vá gostar, caso ainda não tenha lido, pela edição da Estação Liberdade, o seu protagonista é um senhor de idade que frequenta um bordel incomum,onde as suas cortesãs se prostituem em estado de sono profundo e seu cliente pode fazer o quiser com ela. Eu gostaria de ler a sua perspectiva sobre a obra e como ela fala desse prazer de ter domínio sobre o outro sem consequências.

    • 03/07/2017 at 12:25

      Sim sim, há um relato biográfico de Andrew Sullivan assim, em livro dos anos noventa. Essa prática é muito comum. Não destoa da interpretação que podemos dar a partir de Sloterdijk.

  4. Luciano
    03/07/2017 at 11:21

    Ghiraldelli, tem um livro literário que fala justamente sobre isso, A Casa das Belas Adormecidas de Yasuneri Kawabata.

    • 03/07/2017 at 11:54

      Luciano, a autora que citei tem inúmeros estudos, procure e compare.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *