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30/05/2017

A arapuca da ideia de futuro – o caso de Antônio Cândido e outros


Deveríamos viver o tempo todo da duração da vida. Mas são poucos que conseguem essa façanha. Uma boa parte de nós morre antes da vida findar. É interessante notar que algumas dessas pessoas percebem claramente essa situação e verbalizam o drama de um tal destino. A morte recente de Antônio Cândido me lembrou outra, a de Norberto Bobbio. Ambos faleceram em idade próxima de cem anos. Nos dois casos ocorreu a declaração de não estarem mais reconhecendo o mundo. Algo bem diferente de Lévi Strauss, que morreu até mais velho e, apesar de reclamar por já não ter mais nenhum amigo de juventude vivo, sentia-se muito bem no tempo social de sua velhice.

A razão dessa diferença é clara, perceptível pelos discursos desses três intelectuais. Os dois primeiros ficaram enjaulados pelo futuro que projetaram afoitamente, o último jamais caiu nessa armadilha de projetar futuros capazes de funcionar como arapucas. Há intelectuais tolos, há intelectuais espertos. Levi Strauss foi do último tipo. Um de seus últimos escritos (A antropologia diante de dos problemas do mundo moderno, Cia das Letras) é uma aula de antropologia para o grande público, completamente voltada para a contemporaneidade, com perfeita compreensão de fenômenos que um Lipovetsky, sociólogo do contemporâneo, sabe bem elencar, descrever e interpretar. Levi Strauss não envelheceu. Diferentemente, tanto Bobbio quanto Cândido puseram uma canga chamada socialismo em seus próprios pescoços. Um dia o mundo lhes fez uma benfeitoria, tirando-lhes o horrível adorno. Mas aí eles se olharam no espelho e não mais se reconheceram. Pior ainda: acharam que o mundo havia lhes traído de uma tal maneira que não podiam mais fitá-lo. Perderam aquilo pelo qual viveram: a inteligência prospectiva.

Bobbio não conseguiu entender o mundo fora dos quadros da Guerra Fria e declarou isso. Sua pergunta havia se tornado clássica, mas de um dia para outro, inútil: se os comunistas tomarem o poder democraticamente, extinguirão a “democracia burguesa”? Fez sucesso com tal pergunta. Todavia, um dia os comunistas, todos eles, de todas as tendências, desapareceram da face da Terra. Algumas pessoas mantiveram para si o nome “comunista”, mas se tornaram piadas ambulantes. Viraram algo do Walking Dead. E com isso trouxeram também Bobbio para a situação de zumbi.

Antonio Cândido projetou um futuro em que o socialismo daria caminhos para um homem melhor. Mas exagerou na dose de ingenuidade e fanatismo que se pode ter quanto a um ideal. Chegou a admirar a inteligência de Lula e não escapou de endeusá-lo de um modo tão ou mais esdrúxulo que outros intelectuais de sua geração, e isso de uma forma talvez mais anacrônica que aquela pela qual Bobbio confiou nos comunistas como “fogo amigo” eterno. Morreu triste, disse uma filha sua, por sentir que o futuro com que sonhara não tinha nada a ver com o futuro sonhável por alguém que deveria ter pensado melhor.

Essas formas de morrer em vida, de Bobbio e Cândido, não mancham nem um pouco as obras respectivas que deixaram, frutos de estudos técnicos acadêmicos, o primeiro na filosofia política e o segundo na literatura. Mas o modo que morreram os fazem bem diferentes de um Levi Strauss. Quando vemos o que Levi Strauss escreveu ao final de sua vida, sentimos a força de um cérebro juvenil banhado na mais profunda experiência do sábio ancião. Não há aquela poeira das cidades dos zumbis que exalam das incompreensões dogmáticas de Bobbio e de Cândido, no final de sua vidas. Não há aquele cheiro de rancor contra a inteligência.

A lição dessas três mortes de intelectuais longevos, para os jovens atentos, é extraordinária. O cérebro não deve se comprometer com um futuro que é, por si só, como naves do Flash Gordon, feitas em estilo datado. Júlio Verne fez bem diferente, por isso nunca perdeu a atualidade. É o detalhe do sonho que o torna ridículo em pouco tempo. Richard Rorty ensinou-nos a pensar no futuro, se é para ligá-lo a alguma utopia, como alguma coisa posta somente a partir de alguns traços, sem detalhes, sem grandes determinações. Por isso dizia que esperava no futuro que fôssemos “versões melhores de nós mesmos”. De certo modo, foi por essa via que Boécio resolveu a disputa entre destino e providência, que convivem no traçado do plano de Deus. Deus fez seu plano como um desenhista faz um esboço geral, mas jamais ousou ocupar o papel de decorador de ambiente, ou seja, aquele que compra as peças finais da casa e lhe impõe os detalhes. No plano de Deus, há espaço para o futuro que não é o futuro predeterminado no estilo da predeterminação criada pela mente humana. Bobbio e Cândido, quando jovens, bem diferente de Strauss e Rorty, não souberam desse truque de Boécio, ou não lhe deram atenção. Sonharam de modo encalacrado e isso os obrigou a se sentirem fora do mundo antes de chegarem ao túmulo.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 13/05/2017

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7 Responses “A arapuca da ideia de futuro – o caso de Antônio Cândido e outros”

  1. Orquidéia
    15/05/2017 at 07:29

    Judiação…

  2. Gustavo
    14/05/2017 at 23:21

    Professor já que você usa bastante o nome de Hélio Bicudo, sugiro ,como leitor dos seus textos, q fale mais sobre ele e contextualize sobre o momento que o Partido dos Trabalhadores está passando
    É apenas uma sugestão e um interesse.
    Obrigado

    • 14/05/2017 at 23:51

      Gustavo, andei escrevendo isso no passado. A história do PT já acabou. Acabou no mensalão, o resto virou história policial.

  3. Dalai Lama
    14/05/2017 at 19:13

    O que o texto ensina vale também para aqueles que acreditam em um futuro onde os homens serão maquinas/imortais?

  4. Henrique Sobral
    14/05/2017 at 14:11

    Será que o Antonio Candido estava acompanhando tudo o que aconteceu nos últimos anos na política brasileira? Continuava gostando do Lula? Outra pessoa que parecia triste pouco tempo antes de morrer era o Florestan Fernandes. Podemos talvez também falar do Darcy Ribeiro. Acho que eram pessoas que não viram as transformações que gostariam de ver, afinal parece que quando as coisas vão dar certas tudo acaba voltando para trás de novo, como um pêndulo?

    • 14/05/2017 at 19:37

      Sobral, tenho sérias dúvidas quanto a tais pessoas conseguirem ultrapassar seus dogmas. Há pouco Hélio Bicudo no mundo.

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Filósofo