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19/11/2018

Alteridade: os gregos e nós


[Artigo recomendado para o público acadêmico]

Sócrates adorava ver os jovens com suas túnicas brancas e transparentes. Elas o deixavam apreciar os corpos dos rapazes saindo da pré-adolescência para a adolescência, ganhando formas e beleza. A casa dos gregos e, depois, mais ainda a dos romanos que herdaram parte de sua arquitetura, repetia a túnica dos jovens. De vários lados do exterior era possível ver o interior. Arquitetura e vestiário na Grécia antiga deixavam faziam brotar uma distinção entre “dentro” e “fora” que não é nossa, a moderna. Cobrir-se e guardar o rosto não era algo comum – Sócrates cobriu a cabeça uma vez, quando teve de fazer um discurso contra Eros, em relação ao qual se arrependeu, dando origem à segunda parte do Fedro.

Sempre que exponho essa peculiaridade grega, a de cultivar o sociedade exteriorizada, e que corresponde a uma noção de “eu” bem diferente daquele eu de Agostinho, o do “homem interior”, que muito se aproxima ao eu moderno ou ao que chamamos de subjetividade moderna, às vezes mais confundo meus interlocutores que os ajudo. É que vários deles estão acostumados à tese de que a sociedade contemporânea também é uma sociedade da super-exposição, uma “sociedade da transparência” (Byung Chul Han), uma “sociedade da leveza” (Sloterdijk) e uma sociedade da moral dos sentimentos e não mais do dever (Lipovetsky), ou seja, tudo o que aponta para uma diluição do sujeito sobrecarregado, próprio da modernidade.

Confundo meu interlocutores. E eles às vezes me perguntam: mas nossa sociedade é, então, uma sociedade “sem sujeito”, ou uma que não pode ser descrita segundo a figura clássica da subjetividade moderna e, nesse sentido, ele é uma volta à sociedade grega? Não, não é isso.

A melhor resposta a uma tal pergunta é dada pelo célebre helenista Jean Pierre Vernant: “nós não vivemos em uma sociedade da confrontação, mas em uma sociedade do espetáculo” (1). Vernant explica muito bem a psicologia social grega em distinção à nossa  por meio dessa boa qualificação: uma coisa é “confronto” outra coisa é “espetáculo”. Como ele diz, o sucesso que buscamos é o de sermos vistos pela máquina do contingente, que é a manchete do jornal e a rápida amostra da TV, e hoje falaríamos com mais propriedade disso com a internet nos dando, praticamente, condição ontológica. Mas o sucesso grego é, ao contrário, o sucesso heroico, com objetivos opostos ao que é contingente, com vistas à perpetuação do que se é, como uma forma de imortalidade. Dizendo isso, Vernant também explica uma característica fundamental do eu grego, do homem grego ou, se quisermos,  da subjetividade grega: nós distinguimos o que somos do que temos e fazemos, enquanto que o grego não faz essa distinção, ele vê seu eu de modo social, ampliado, que inclui o que faz e o que tem. Um grego é, antes de tudo, seus feitos, façanhas, honradez, família, poemas, construções, leis governamentais, contribuição aos negócios da cidade etc.

Se observamos essa nota de Vernant, podemos então entender o conceito de eudaimonia, que alguns desavisados acham que pode ser simplesmente equivalente à nossa palavra “felicidade”. Em “eu-daimonia” o “eu” quer dizer bom e o “daimonion” é o gênio (ainda não psicologizado como nós usamos “gênio”). Ter um bom gênio ou ser guiado por um bom gênio implica em realizar coisas e ter coisas, significa cumprir com a práxis de um modo virtuoso, heroico, que mobiliza a memória da cidade para consigo. A “eudaimonia” é, então, muito mais próxima da palavra “prosperidade” que da palavra “felicidade”, tomada esta no sentido moderno, de um “estado interno” psicológico. A cidade é o “dentro” do grego, e sendo ela própria o “fora” que se pode levar em consideração, uma vez que o completamente fora é onde reside o “bárbaro”. Nesse sentido trata-se de uma sociedade que cada indivíduo vive para os olhos do outro. Uma sociedade em que o espelho, como Sócrates lembra a Alcibíades, é o olho do outro. “Menina do olhos” nada é senão a imagem nossa no olho do outro. Este é o espelho. A carne do olhos dos outros nos deixam ver a nós mesmos. Há confronto, não espetáculo.

Não à toa, quando Sócrates quer falar de seus estados psicológicos, de sua curiosidade própria, ele lança mão da figura de um outro, uma espécie de amigo seu ou parente, que vive na sua casa e que lhe faz perguntas difíceis, muito sinceras e, portanto, rudes, sobre questões que ele, Sócrates, deveria ter aprendido enquanto andou pelas ruas. Essa forma de agir é utilizada ironicamente, mas também sinceramente, por Sócrates, no seus diálogo com o sofista Hípias.

Aliás, o “conhece-te a ti mesmo” délfico, assumido por Heráclito e Sócrates, nunca foi algo da ordem da introspecção moderna, muito menos algo da contingência atual, mas uma condição de percepção do espaço no qual se vive, na práxis disposta na cidade em função das relações sociais estabelecidas. Ser um homem livre e não escravo, e saber disso, é algo do âmbito do “conhece-te a ti mesmo”. O que está em jogo aí é olhar do outro, o confronto com o outro. Nesse sentido, na sociedade grega o inferno não são outros, mas o necessário são os outros. Estamos longe, aí, de um outro, uma alter, posto como infortúnio, ou um outro completamente subsumido ao narcisismo de um eu, e estamos longe, também, de um outro diluído pela mídia ou por uma sociedade de extrema positividade pelo cultivo do mesmo, como é, de certa forma, a sociedade do espetáculo (Debord).

Nesse sentido, os gregos não só se espantariam com a modernidade, mas também com a nossa vida contemporânea. Eles não entenderiam a sociedade liberal cristã, mas também não a nossa sociedade na qual o liberalismo fez do mundo um mundo completamente soft, um mundo da mesmidade.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 18/12/2017

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One Response “Alteridade: os gregos e nós”

  1. Thiago Leite Ribeiro
    18/12/2017 at 22:25

    Obrigado Paulo, agora entendi a questão do lugares e do outro como forma de auto-conhecimento. O texto é perfeito, alias vc é perfeito.

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