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19/08/2017

Adultos tentam se diferenciar dos jovens na sociedade da transparência


Na “sociedade da transparência” (Byung-Chul Han) não há lugar para ficar que seja ao menos parecido com uma traseira de biombo. Vive-se nela como quem vive na nudez absoluta. Todos estão vendo todos. O sentido do privado desaparece. A noção de íntimo se empobrece no efetivo e ganha hipervalor no imaginário. Nesse quadro tudo se aproxima de tudo, o igual firma posição, como Tocqueville havia notado já no início da democracia americana. Por reação, os mais velhos começam a querer se distinguir do mais jovens a todo preço, como que num esforço desesperado não de conseguir o distinto, que parece realmente perdido, mas ao menos a salvação do diferente.

Qual o enredo de uma situação assim?

Em uma sociedade em que tudo é visível os mais velhos e os mais jovens se entreolham, e então não podem mais dizer que não sabem o que uns e outros fazem. Assim, o natural seria que, para manter alguma hierarquia, esses grupos criassem uma crítica mútua ou ao menos narrativas dirigidas uns para os outros. Todavia, nossa época também vive outra situação peculiar além da transparência: a dificuldade da instalação do outro como outro, o fim da alteridade ou uma distorção na produção de pessoas com o “instinto de relações” (Buber). Nossos jovens, ao contrário dos jovens de vários momentos passados, não está nem aí com o tal “conflito de gerações”. Nossos jovens não estão rebeldes contra seus pais ou avós. Aliás, não os distinguem como diferentes. Ou os descartam ou se aproveitam deles ou simplesmente os ignoram. No positivo, os tomam como “amigos”. Temos a era do pai que joga vídeo-game, não do pai que joga futebol. É o pai amiguinho. Os conflitos, se aparecem, são infantis, não conflitos de gerações. Em uma situação como essa, de visibilidade máxima, perda de hierarquia e relativo narcisismo, não há dúvida que os pais ou adultos inventem alguma coisa para se distinguir de seus filhos, para recuperarem algum autoridade. Inventam então o “conselho moral” a respeito do mundo online.

Tudo que existe online é “de jovem”. Toda imbecilidade natural do jovem, que antes podia ser bem conhecida pelos adultos mas ignorada, pois sabia-se que iria durar pouco, é agora obrigatoriamente vista em situação pública e, então, necessariamente notada em termos de ser obrigatoriamente comentada. Nesse comentário, surgem as teorias pedagógicas e psicológicas do “bullying virtual”, do “medo da exposição”, do “perigo da pedofilia virtual”, do drama dos grupos de internet que colocam provas para quem entra na turma etc. (o programa do Serginho Groisman fez um drama sobre isso!). Trata-se de jogos adolescentes que sempre existiram na modernidade, mas que não precisavam ser comentados. Agora precisam, pois estamos na era da transparência. E já que são comentados, que sirvam então para que os adultos possam, no mundo sem hierarquia, recuperar alguma liturgia do cargo de ser adulto.

Desse modo, todos os dias vamos encontrar políticos, pedagogos, psicólogos criando um nome para alguma síndrome ou alguma moda perigosa identificada na prática de jovens na Internet. O adulto de bermuda e com vídeo game na mão pode, nessa hora, do alto de seus 32 anos ou 42 anos, dizer para o filho: “isso não pode, pois no meu tempo…” Que tempo? Estamos sem tempo pois o espaço, que o dividia, se homogeneizou mais que ele ainda. Os adultinhos fazem sua revolução!

Talvez seja melhor lidarmos com a Internet levando em consideração esses elementos, e participarmos da rede antes de tudo como pessoas que se preocupam em não serem parte do fluxo de informações absurda, e não como criadores de nomes para patologias que queremos antes inventar que batizar.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 19/03/2017

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2 Responses “Adultos tentam se diferenciar dos jovens na sociedade da transparência”

  1. Daniel
    21/03/2017 at 02:10

    Em que parte da República, Platão fala sobre o thymos?
    Daniel

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