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20/10/2018

Acreditamos em nossos políticos. É uma virtude.


[Para o leitor em geral]

Descartes foi o filósofo da dúvida. Peirce foi o filósofo da crítica da dúvida. Descartes achava que para filosofar tínhamos de partir da dúvida e continuar duvidando até chega na “dúvida hiperbólica”. Peirce achava isso uma grande tolice. Para ele, o ponto de partida era a certeza. Nesse sentido, Peirce, e não Descartes, honrou a tradição filosófica canônica. Endossou o procedimento de Sócrates.

Para começar a filosofar, Sócrates, que diferente de Descartes não filosofava sozinho e muito menos com introspecção, pedia que seu interlocutor concordasse com as suas proposições, e dissesse se realmente acreditava nelas. O ponto de partida de Sócrates era a crença sincera, a fé. Se não temos certezas, não podemos começar nenhum processo investigativo. Seria tolice tentar falsificar uma tese – como Sócrates fazia e como Popper re-ensinou – na qual não se acredita. Desmentir aquilo no qual não se acredita é fácil. A tarefa de filósofos como Sócrates e Peirce foi algo mais hercúleo: eles sempre propuseram que tentássemos desmentir (e não desconfiar ou duvidar) aquilo em que realmente acreditamos. Cuidado: falsificar não é colocar em dúvida, mas tentar refutar por meio de contradições.

Esse procedimento de Peirce e Sócrates tem mais a ver com os ensinamentos dos antropólogos que os de Descartes, ainda que este também tenha formulado um método genial. É que a antropologia nos ensina que, enfim, sem a confiança, não seríamos nada. Não seríamos humanos. Não teríamos nos desenvolvido como humanos. Peter Sloterdijk endossa uma tal tese e a complementa: quando nascemos e choramos, nossa mãe nos dá confiança através de uma mentira na qual ela acredita, e que nos faz acreditar. Ele diz: “tudo vai ficar bem”. Se não tivéssemos a mãe para nos dizer isso, afundaríamos num abismo psicológico, e nem teríamos, enquanto humanidade, chegado no niilismo que Nietzsche disse que chegamos. Pois, na verdade, sem o apoio psicológico materno, antes de tudo, o niilismo nos engoliria. O “tudo vai ficar bem” é uma promessa. “O homem é um animal que promete”. Aprendemos a prometer. A mãe nos promete que “tudo vai ficar bem”, e nós nos prometemos que vai mesmo, e que não vamos decepcioná-la.  Então, dali para diante, começa nosso processo de verticalização. Sloterdijk diz que este é um dos primeiros passos, já fora do útero, na direção da formação do sujeito, o sujeito na sua formulação clássica. Queremos nos tornar autônomos exatamente porque acreditamos que podemos, amparados pelo “tudo vai ficar bem”.

Somos animais que creem. Animais que lidam com a confiança, com a fé no outro. Por isso somos, também, animais religiosos. Desde a experiência intra-uterina, diz Sloterdijk, somos treinados nisso. Nossa amiga placenta é nossa primeira parceira. Somos um duplo. E num duplo, a confiança nasce e se propaga. Criamos toda a nossa civilização na base da confiança. Criamos a democracia como um regime de auto-confiança e confiança no outro. Acreditar em alguém que diz que pode resolver nossos problemas, não é sinal de fraqueza ou debilidade mental, é sinal de que fomos bem criados, que somos felizes porque tivemos mãe.

O lusitano Coutinho, colunista da Folha (artigo de 02/10/2018), acha que brasileiros são crédulos demais em seus políticos. Vê nisso um defeito. Dá-nos traços patológicos por conta disso. Acha que porque somos crédulos em políticos, somos pessoas com distúrbios mentais. Mas é ele que tem algum distúrbio. Não uma doença, mas apenas um déficit de cognição. Ele não sabe que todos os povos, como nós, confiam em seus políticos, em seus líderes. Nós tivemos Vargas, os argentinos tiveram Perón. Os Estados Unidos tiveram Kennedy. Os soviéticos tiveram Stálin, o que não foi sorte. Infelizmente os alemães tiveram Hitler. Há pessoas carismáticas que dizem coisas como as nossas mães: “tudo vai ficar bem”. Em geral, ao menos em alguma época, acertam. E isso mostra que a confiança foi correta. As pessoas são felizes porque podem confiar. Do mesmo modo que Sócrates conseguiu filosofar por conta da confiança. Há de se acreditar, ou não se dá uma passo adiante. Ingenuidade? Não! Falta de ceticismo? Ora, ceticismo não quer dizer inteligência. Ser crítico é ser inteligente, mas ser crítico não quer dizer ser cético ou desconfiado. Ser crítico é acreditar e, justamente por acreditar, poder levar a sério o que se escuta, para dizer em que pontos o proposto pode não ser bom.

Nós brasileiros somos inteligentes e bem sadios, diferentes de Coutinho. Nós experimentamos. Confiamos num líder, mas se ele nos decepciona, logo confiamos em outro. Só um povo sábio faz assim. Um povo burro, infeliz, não acreditaria em mais nada e, então, logo estaria em total depressão. Mas só um povo que tem excelentes mães, que criam em seus filhos capacidade de crença e confiança, pode ser como nós somos. Grandes povos, grandes confianças. Os Estados Unidos são um exemplo disso.

Se vemos os brasileiros amarem Lula e, depois, Bolsonaro, com a mesma fé, não comecem a achar que somos doentes. Ao contrário, somos grandes crédulos e, por isso mesmo, capazes de despender enorme energia a cada novo projeto. Tentamos sempre recomeçar. “Tudo vai ficar bem”, repetimos e repetimos. Só os grandes povos são crédulos e confiantes. Só os povos que tiveram lares criados por avós e mães são assim. Duvido que Coutinho seja feliz. Vai ver que ele é daqueles sabichões que desdenham a crença num mundo melhor. É gente que não leu Sloterdijk, ou tentou e não entendeu.

Nossa capacidade de mudar nossa credulidade de direção nos mostra muito adaptáveis à vida. Somos, nós que tivemos mães e avós, mais resistentes que as baratas a qualquer catástrofe.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

Imagem: foto de Kennedy em desfile de carro aberto.

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10 Responses “Acreditamos em nossos políticos. É uma virtude.”

  1. Thiago Leite Ribeiro
    08/10/2018 at 13:45

    Começo por qual dos dois?
    Grato.

  2. 04/10/2018 at 18:30

    Você escreve, mas ao mesmo tempo traz esperança e uma clareza incomum. Deveria ser colunista da Folha.

    • 05/10/2018 at 01:19

      Enoque, acho que você não entendeu a razão de eu poder escrever e você gostar: não sou colunista. Às vezes escrevo para a Folha, mas se fosse colunista, teria de engolir auto-censura.

  3. Thiago Leite Ribeiro
    04/10/2018 at 11:39

    Mentira ou otimismo? Acho que é otimismo.

    • 04/10/2018 at 18:25

      Nem mentira e nem otimismo está em jogo nesse texto.

  4. Vitor
    03/10/2018 at 21:07

    Não seria tolice confiar cegamente em alguém que muda de opinião por oportunismo político?

  5. Thiago Leite Ribeiro
    03/10/2018 at 18:04

    Vou comprar teu livro sobre sloterdijk.

  6. LMC
    03/10/2018 at 12:44

    Hilquias,o JN mostrou no
    último sábado o encontro
    do Ciro com Chomsky.Vade retro!!!

  7. Hilquias Honório
    03/10/2018 at 01:48

    Paulo Ghiraldelli! Não houve um artigo seu até hoje que não tenha me surpreendido.
    Esse foi especial.
    Eu diria que quase confio no Ciro mas…

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