Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

26/09/2017

A sociedade masturbatória


Nós nos masturbamos. É o que nos restou. Quando veio a AIDS, nos anos 80, voltamo-nos ao sexo solitário. Mas agora, a masturbação não é mais só sexo, é um estilo de vida. Faz parte, de modo distintivo, da nossa transição ético-moral do mundo moderno para o mundo contemporâneo.

No mundo moderno criamos o individualismo, no mundo contemporâneo criamos os parceiros, reais ou fictícios, para a sobrevivência do individualismo. Enquanto indivíduos, precisamos de nos autocompletar no sentido de dar sequência ao que somos, ou seja, entidades duplas onde o self só se põe se acompanhado de um outro. Esse outro já foi nossa consciência e, portanto, tínhamos o livro e depois a TV como parceiros. Hoje, nosso outro que faz surgir nosso self é o corpo. Tudo que ronda o masturbatório ou o imita são agora exercícios de um “cuidado de si” que se tornou imperativo para nós.

Na modernidade as coisas começaram com o espelho e, depois, com a nossa capacidade de nos entretermos com o mundo da mercadoria diversificada pelo modo de produção fordista. Os trabalhos na linha de produção criaram o consumo de massa e, com isso, a produção de inúmeros produtos semelhantes, de modo que toda e qualquer faixa de renda pudesse consumir coisas semelhantes. Passamos a olhar no espelho e nos ver de posse de produtos que poderiam causar inveja. E isso nos garantia individualidade e vida com o outro. Mas isso não bastou. Nossa individualização se ampliou e nossa solidão cada vez mais teve de ser completada por produtos voltados para o corpo. Cremes, vestuário, carros, férias – tudo se tornou adereço para o corpo ou elemento para o prazer sensual. A pele passou a ser o livro. Os apartamentos singles passaram a ser mais procurados e povoaram as cidades. Veio a indústria da célula habitacional, cada apartamento se tornando autossuficiente no trabalho de autocomplementação do eu. Dos inúmeros eletrodomésticos passando pelo espelho, telefone, TV e internet, o apê single construiu-se como um pequeno templo, uma pequena célula monacal para que o outro do eu pudesse compor um self minimamente normal, isto é, reflexivo. Esse outro é o corpo. As propagandas da Natura, abaixo elencadas, expõe muito bem essa transição.

 

Em todos esses comerciais, os homens do marketing mostram que são os melhores doutores em Folk Social Psycology, realmente captando as tendências ético-morais, ou seja, a vida comportamental valorada, da transição do mundo classicamente tomado como moderno para o mundo contemporâneo. Trata-se da transição da sociedade de Elias Canetti para a sociedade de Betty Dodson, ambos os casos citados por Peter Sloterdijk. Analisando a modernidade tardia, Cannetti escreveu: estamos em uma ‘sociedade em que todo ser humano é pintado em sua imagem e reza diante diante dela’ (Gesellschaft, in der jeder Mensch gemalt wird und zu seinem Bilde betet (Sphären III – Schäume. Suhrkamp, 2004, p. 587)). Dando um título a si mesma de ‘doutora em masturbação’, a feminista Dodson disse nos anos setenta, em seu best seller Sexo para um, que também ela, feliz entre seus vibradores, de vez em quanto buscava algum pênis (pp. 600-1).

Essa tendência da sociedade que tende para um cultivo do corpo, no sentido contemporâneo do curtir-se individual e solitariamente, é mostrada por Lipovetskty, mas ela só é teorizada, mesmo, a meu ver, por Sloterdijk. Consumir é consumir-se. Mas como?

Ele, Sloterdijk, trata de como o auto-emparelhamento e a auto-complementação são práticas necessárias a nós que somos díades (a primeira díada: feto-placenta) e, por isso, somos seres relacionais desde sempre. Individualizamo-nos e cumprimos o ideário liberal, até este se tornar ideologia e então não nos deixar mais perceber que nossa individualidade necessita de emparelhamento e complementação. Mas, na prática, esses requisitos de recriação contínua da dupla que somos cada um de nós, encontram um modo de ocorrer. O estilo de vida masturbatório, ou seja, onde o espelho, o “amar-se”, o ser gente por meio de curtir o assento do carro na pele ou o creme de último tipo na pele, visando não o mostrar-se, mas objetivando o momento sagrado de culto ao outro – que é o si-mesmo como corpo – são tudo o que vinga como necessário na contemporaneidade.

“O inferno são os outros”, de Sartre, não importa mais, pois o outro, agora, está muito mais sob controle que em qualquer outra época. Ele não é o Deus para o qual rezo na célula monacal, ou o daimon que encontro na atividade filosófica ou na minha tentação do deserto, nem é o livro predileto de cabeceira dos homens do Renascimento ou dos primeiros tempos modernos, muito menos é o diário da adolescente que viveu entre a Belle Époque e a revoada das normalistas nos anos cinquenta. Também o outro não é o discurso panfletário da revolução por vir, dos anos 60. O outro é o corpo que espera o creme ou o vestido, sem qualquer imperativo estético ou moral que não seja o de sentir substâncias sobre a pele. Nem mais temos o “corpo que fala”, da senhora Therese Bertherat. Temos só o imperativo da epiderme. Uma derivação da masturbação.

Se entendermos a auto-complementação como necessária e, nos nossos tempos, se realizando pelas derivativas de tudo que lembra a masturbação, em nosso castelinho single (1) que formam as células da grande espuma que são nossas cidades (ou seja, camadas de pequenas bolhinhas, celulinhas), começaremos a compreender um pouco dos estertores do vida liberal que entra em consenso entre nós na contemporaneidade. Descobrimos a fórmula de nos acharmos felizes no ato solitário que, para nós, nada tem de angustiada solidão. Estamos sendo treinados para tal.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 25/06/2017

(1) Mesmo os que vivem em apartamentos familiares possuem, agora, sendo ou não intelectuais, o escritório, a nova célula monacal de oração.

PS1: não adianta vir criticar  este meu texto sem analisar com cuidado e tempo os vídeos que estão indicados no texto.

PS2: Veja um trecho de Lipovetsky para entender a noção de consumo de ostentação e consumo íntimo.

Fetichismo das marcas, luxo e individualismo  (do livro A felicidade paradoxal. São Paulo: Cia das Letras, 2006)
Nesse ponto, uma questão não pode deixar de ser levantada. Como conciliar a expansão do consumo emocional com o gosto pelas marcas que se observa tanto nos jovens quanto nos adultos das novas classes abastadas?7 A questão merece que nos detenhamos nela não apenas porque, cada vez mais, compramos uma marca e não um produto, mas também porque o fenômeno pode parecer estar em contradição com um consumo desprendido do código das prestações simbólicas. Ao levar em conta o atual fetichismo das marcas, somos obrigados a trazer de volta o modelo do consumo demonstrativo caro a Veblen?
Evidentemente, o esnobismo, o gosto de brilhar, de classificar-se e diferenciar-se não desapareceram de modo algum, porem não é mais tanto o desejo de reconhecimento social que serve de base ao tropismo em direção às marcas superiores quanto o prazer narcísico de sentir uma distância em relação à maioria, beneficiando-se de uma imagem positiva de si para si. Os prazeres elitistas não se evaporaram, foram reestruturados pela lógica subjetiva do neo-individualismo, criando satisfações mais para si que com vista a admirarão e à estima de outrem, O que importa não e mais “impressionar” os outros, mas confirmar seu valor aos seus próprios olhos, estar, como 7 Para a ilustração literária do fenômeno yuppie, Bret Easton Ellis, American psycho. Paris, Seuil. 1998. [Ed. bras. O psicopata americano. Rio de Janeiro, Rocco, 1991.]
diz Veblen, “satisfeito consigo”:8 “L’Oréal, porque eu mereço”. Em nossos dias, a mania pelas marcas alimenta se do desejo narcísico de gozar do sentimento intimo de ser uma “pessoa de qualidade”, de se comparar vantajosamente com os outros, de ser diferente da massa, sem que sejam mobilizados, por isso, a corrida à consideração e o desejo de provocar a inveja de seus semelhantes.
É uma nova relação com o luxo e com a qualidade de vida que se traduz no culto contemporâneo das marcas. Nas épocas anteriores, as classes populares e médias viam nas marcas de luxo bens inacessíveis que, destinados apenas à elite social, não faziam parte de seu mundo real, nem sequer de seus sonhos. Em relação a essa forma de cultura, produziu-se uma ruptura: a aceitação do destino social deu lugar ao “direito” ao luxo, ao superfluo, as marcas de qualidade. A democratização do conforto, a consagração social dos referenciais do prazer e dos lazeres minaram a tradicional oposição entre “gostos de necessidade”, próprios as classes populares, e “gostos de luxo”, característicos das classes ricas,9 ao mesmo tempo que abalaram os valores da resignação e da austeridade. Na sociedade democrática de hiperconsurno, cada um esta inclinado a pretender o que há de melhor e de mais belo, a voltar os olhos para os produtos e marcas de qualidade. Enquanto os modos de socialização já não encerram os indivíduos em universos estanques, todo mundo considera ter direito à excelência e aspira a viver melhor nas melhores condições. É assim que, cada vez mais, os produtos de qualidade (alimentação, bebida, marcas topo de linha de todo tipo) são privilegiados em relação à quantidade e aos “produtos de necessidade”. A atração exercida pelas marcas mais dispendiosas traduz menos a continuidade histórica das estratégias distintivas do que a ruptura constituída pela formidável difusão social das aspirações democrático individualistas às felicidades materiais e ao bem viver.
Valorização da qualidade que, de resto, não dá lugar a nenhuma atitude sistemática, mesmo no seio das camadas superiores. Na sociedade de hiperconsumo, já não é indigno gastar à larga aqui e economizar ali, comprar ora em loja seletiva, ora em hipermercado, tendo-se tornado legítimos os comportamentos descoordenados ou ecléticos. A obrigarão de despender com fins de representação social perdeu seu antigo vigor: compram-se marcas onerosas não mais em razão de uma pressão social, mas em função dos momentos e das vontades, do prazer que delas se espera, muito menos para fazer exibição de riqueza ou de posição que para gozar de uma relação qualitativa com as coisas ou com os serviços. Mesmo a relação com as marcas psicologizou-se, desinstitucionalizou-se, subjetivou-se

Tags: , , , , ,

11 Responses “A sociedade masturbatória”

  1. Fábio
    14/07/2017 at 14:10

    li três vezes e não entendi. Sou um burro, mas me esforçarei.

  2. Mario
    06/07/2017 at 17:29

    Pq n mostra imagens

    • 06/07/2017 at 17:32

      Mário, imagens de …? O site é para alfabetizados, gente que lê.

  3. Alysson
    29/06/2017 at 09:22

    Que texto Paulo! Umas de seus melhores.

    • 29/06/2017 at 09:54

      Alysson, é aquele tipo de texto que a gente tenta facilitar as coisas para o leitor.

  4. Emisson
    28/06/2017 at 09:59

    Professor. O corpo contemporâneo, tornou-se uma espécie de objeto sacralizado?

  5. Fernando Henrique
    25/06/2017 at 11:20

    O senhor deixou de anunciar a “morte da metade da laranja” ou não compreendi bem

    • 25/06/2017 at 11:44

      Não há morte do parceiro necessário, há substituiçoes, alguma felizes e outras um tanto, digamos, artificiais. Mas, uma ressalva, a metade da laranja é quase igual a outra metade, e o eu e o alter não são iguais, nem semelhantes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *